Zé Pinto, o artista popular esquecido, é redescoberto no centenário de seu nascimento

Por 22/10/2025
Zé Pinto, o artista popular esquecido, é redescoberto no centenário de seu nascimento

Celebrado com exposição no Museu de Arte da UFC, o centenário do escultor cearense resgata a memória de um criador que transformou sucata em símbolo de arte e resistência

Por Daniel Simonetti

As celebrações dos 100 anos de nascimento de Francisco Magalhães Barbosa, o Zé Pinto, iniciadas no dia 28 de setembro, marcaram o reencontro do Ceará com um de seus artistas mais singulares, e também esquecido. Servidor público e autodidata, o escultor, que começou a produzir arte aos 50 anos, transformou materiais descartados em obras que misturavam poesia e crítica social.

Homem simples, trabalhou por mais de duas décadas na Faculdade de Medicina e na Casa Amarela Eusélio de Oliveira, ambos da Universidade Federal do Ceará. Ao transformar sucata em arte, deu nova vida a pedaços de ferro e pregos, criando personagens emblemáticos como “Lampião”, “Maria Bonita” e “Dom Quixote”.

Nos anos 70, instalou suas obras na Avenida Bezerra de Menezes, criando o “Pintódromo”, uma galeria a céu aberto que se tornou referência na paisagem urbana de Fortaleza. As esculturas, feitas com criatividade, refletiam o olhar sensível de quem via beleza onde poucos viam valor.

“Sua capacidade de se reinventar, experimentando os materiais (sucatas, ferros velhos, talheres) e a sua imaginação com maestria, foi o grande diferencial de sua trajetória. É justamente essa reinvenção e autenticidade que o tornam um artista singular, cuja obra merece ser mais difundida e reconhecida pelas novas gerações”, disse a museóloga Graciele Siqueira, organizadora da exposição  “Zé Pinto – 100 anos”, diretora do Museu de Arte da UFC (Mauc).

Com o tempo, as criações do artista desapareceram dos espaços públicos e a trajetória dele acabou ofuscada pela modernização da cidade. A exposição  é como uma maneira de restituir a Zé Pinto o reconhecimento merecido. Entre as peças expostas estão “Rendeira”, “Cangaceiro”, “Gato” e “Locomotiva”, além de documentos históricos do acervo do museu.

Zé Pinto, escultor cearense de arte com sucata | Foto: Pedro Eymar | Fonte: Acervo Mauc

Graciele também destacou que a escolha do artista em expor permanentemente no passeio da Avenida Bezerra de Menezes, um espaço urbano periférico em relação ao circuito oficial (museus, galerias), contribuiu para que ele fosse visto como um artista “de fora”, mesmo estando dentro da cena cearense. 

Segundo a diretora, a exposição pública e cotidiana na avenida, em um território não legitimado pela elite cultural, colocava Zé Pinto mais próximo da população comum do que dos espaços de consagração. “Ele parecia compreender que o valor de sua arte não dependia da aceitação institucional, mas de sua potência expressiva e do diálogo direto com o público. Talvez por isso sua obra continue, ainda hoje, a ecoar de forma tão autêntica e inspiradora, mesmo sem o reconhecimento que de fato merece”, disse.

Zé Pinto morreu em 2004, aos 79 anos, deixando um legado que atravessou fronteiras e chegou a coleções no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. Celebrar seu centenário é também revisitar a força de um artista que até hoje desafia o esquecimento e mostrou que a arte pode nascer daquilo que o mundo insiste em descartar.

Serviço

Zé Pinto – 100 anos | Exposição temporária
Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (MAUC)
Local: Av. da Universidade, 2854 – Benfica, Fortaleza – CE
Visitação: segunda à sexta, das 8 às 12 horas e das 13 às 17 horas
Entrada e estacionamento gratuitos
Mais informações: @museudeartedaufc

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