Valorização da diversidade cultural e resistência feminina são destaques na XV Bienal do Ceará

Por 07/04/2025
Valorização da diversidade cultural e resistência feminina são destaques na XV Bienal do Ceará

Além de ofertar lançamentos de livros e mesas de conversa, a convenção literária oferece contações de histórias e apresentações com artistas de reconhecimento nacional e internacional

Por Redação Newslink

Nesta segunda-feira (7), a XV Bienal Internacional do Livro do Ceará, com o tema “Das fogueiras ao fogo das palavras: mulheres, resistência e literatura” completou seu 4º dia de atividades. A equipe do Newslink foi até lá para ver quais eram os destaques entre lançamentos de livros, mesas de conversa e exposições.

Inclusão Étnica

Como parte da valorização da diversidade cultural na Bienal do Livro do Ceará, dois estandes chamaram atenção ao abordarem expressões étnicas frequentemente marginalizadas: as afro-brasileiras e as indígenas. A exposição “Expressões Afro-brasileiras”, sob curadoria de Mãe Mirela e Mestra Carla, apresentou uma rica seleção de livros, estatuetas religiosas e elementos da cultura de matriz africana, um reforço à luta por espaço e representatividade.

“É uma conquista muito interessante, onde a gente dissemina aos leitores a capoeira, a publicação de livros e apresentações de projetos”, destaca Mãe Mirela. Apesar dos avanços, ambos os estandes ficaram em áreas isoladas do evento, o que comprometeu a acessibilidade e visibilidade das exposições — um reflexo de como a inclusão ainda enfrenta barreiras estruturais, mesmo em espaços que se propõem a celebrar a diversidade.

Prateleira de livros e outros artigos da cultura afro-brasileira ofertados pelo estande | Foto: Luís Eduardo Nunes

No estande “Comitê de Políticas Culturais Para Povos Indígenas”, as etnias Tapeba e Jenipapo Kanindé mostram suas lutas por meio de suas artes, seja em adereços ou em literaturas. Para Elizabeth Cruz da Silva, conhecida como Beth Tapeba, etnia de Caucaia, é importante ter esse espaço: “é pouco para a gente mostrar a nossa cultura, mas toda edição a gente tem um estande para expor nossos artesanatos, a nossa cultura”.

Ela complementa: “Aqui estou eu como Tapeba, e ,do outro lado, está o Erasmo, representando os Jenipapo de Aquiraz, e eu adoro porque é um momento de mostrar o que nós fazemos”.

Fachada do estande dos povos originários do Ceará | Foto: Victor Frota

A visão de Erasmo: “a Bienal do Livro representa muito nós, principalmente os indígenas do Estado do Ceará, uma cultura muito viva, e isso para nós tem uma grande importância, de a gente estar aqui vendendo nosso artesanato e vendendo nosso livro, de a cultura indígena e estar aqui.”

Literatura feminina

As escritoras da Academia Feminina de letras do Ceará (Afelce) lançaram o livro “Vozes femininas, memórias compartilhadas: elogio à patrona”, que narra a história de patronas da Academia, no espaço Natércia Campos.

Composto pelas pesquisas e narrações de 29 acadêmicas efetivas, a obra busca preservar e difundir a história de mulheres que desafiaram a opressão e abriram espaços para a presença feminina na literatura.

Em lançamento, acadêmicas efetivas da Afelce contaram, de forma breve, a histórias de patronas | Foto: Yasmin Boyadjian

O livro nasceu do projeto “Memórias literárias: quartas elogiosas às patronesses”, que compartilhava o legado de mulheres importantes na literatura cearense.

Cada acadêmica foi responsável pela pesquisa e escrita da história de patronas da Afelce. O livro traz personalidades cearenses, como Henriqueta Galeno, Maria de Lourdes Araújo e Maria de Lourdes Herdes Gondim.

Entre as escritoras, a maior dificuldade relatada foi a de encontrar informações sobre as patronas, o que evidencia o apagamento e desvalorização da história feminina.

Cláudia Melo, Elinalva Oliveira e Cláudia Paiva, no lançamento do livro “Vozes femininas, memórias compartilhadas: elogio à patrona” | Foto: Yasmin Boyadjian

Para Cláudia Melo, acadêmica da Afelce e escritora, a obra eterniza a histórias das patronesses, com destaque à sua importância para as gerações futuras. “Nós temos a grande responsabilidade de continuar o legado dessas mulheres. Muitas dessas histórias já foram esquecidas pelo tempo”, conclui Cláudia.

Evânia Bessa, escritora e responsável por contar a história da patrona Maria de Lourdes Araújo, também enfatizou o esquecimento da literatura feminina. “É muito difícil encontrar dados sobre as patronas cearenses”.

Na mesa “O fogo da palavra mulher: a resistência feminina na mediação da leitura” , as escritoras e poetas Argentina Castro e Bruna Sonast debateram sobre as dificuldades e a resistência feminina dentro da literatura. Com participação de Safira Bengell e mediação de Claudiana Alencar, a conversa foi cheia de emoções e confidências.

Conversa contou com a participação de Safira Bengell para falar das suas vivências e dificuldades | Foto: João Vitor Saraiva

A poeta Argentina Castro, ao falar sobre o lugar da mulher na literatura e como foram suas vivências, destacou que “a literatura é a nossa base, o livro é nosso alicerce”. Argentina se emocionou ao refletir sobre quantas mulheres foram e são mortas antes de ter a chance de escrever um poema.

Já Bruna Sonast relembrou que não era de falar muito quando jovem: “sempre gostei muito de ler porque era minha forma de estar em contato com o mundo”. A poeta também se emocionou ao falar sobre a avó, que era analfabeta, mas a influenciou em seu caminho na leitura. “Uma das minhas melhores memórias com minha avó eram suas histórias de causos”, finaliza.

Veja também