Mesmo antes de entrar em operação, a expansão entre o Aeroporto Internacional Pinto Martins e a Arena Castelão já altera a rotina de moradores nos ba
Mesmo antes de entrar em operação, a expansão entre o Aeroporto Internacional Pinto Martins e a Arena Castelão já altera a rotina de moradores nos bairros Serrinha e Dias Macedo
Por João Pedro Gomes*

A expansão do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) entre o Aeroporto Internacional Pinto Martins e a Arena Castelão já produz reflexos na economia dos bairros Serrinha e Dias Macedo, em Fortaleza. Comerciantes relatam aumento nas vendas, geração de empregos e maior circulação de clientes após o início das obras.
Segundo a Secretaria da Infraestrutura (Seinfra), o novo ramal pretende integrar diferentes regiões da cidade e reduzir para cerca de 12 minutos o trajeto entre o aeroporto e a Arena Castelão.
Na prática, os efeitos da construção do novo ramal do VLT são percebidos antes da circulação do primeiro trem. Nos bairros Dias Macedo e Serrinha, a obra modifica a dinâmica urbana e econômica da região, especialmente no entorno da Avenida Senador Carlos Jereissati, onde comerciantes relatam aumento no fluxo de clientes e maior visibilidade para pequenos negócios locais.

Gerente de um restaurante localizado em frente ao trecho em construção, Sílvia Silva conta que o movimento aumentou após a instalação de novos semáforos na avenida. Antes, os veículos apenas atravessavam o local. Agora, com as paradas obrigatórias, motoristas e passageiros passaram a notar os estabelecimentos da região.
De acordo com a gerente, muitos clientes afirmam ter conhecido o restaurante enquanto aguardavam a abertura do sinal. O aumento da demanda levou à contratação de novos funcionários e também beneficiou bares e outros pequenos comércios do entorno.
A percepção é compartilhada por Edgley Silva, proprietário do estabelecimento. Durante a apuração da reportagem, a fila para atendimento evidenciava o aumento do movimento. Parte desse crescimento, segundo ele, está relacionada aos trabalhadores da obra, que passaram a consumir diariamente no comércio local.
Mais do que transformar a paisagem urbana, a expansão do VLT também passou a movimentar a economia do bairro antes mesmo de entrar em operação. Para Rebeca de Assis, doutora em Engenharia de Transportes pela Universidade Federal do Ceará (UFC), esse comportamento é esperado em grandes obras de mobilidade.
Conforme a pesquisadora, a implantação de novos sistemas de transporte modifica não apenas a circulação de pessoas, mas também o uso do solo e a distribuição das atividades urbanas. “Áreas antes pouco valorizadas passam a atrair comércio, serviços e novas oportunidades de trabalho, principalmente nas proximidades das futuras estações”, explica.
Os reflexos também são percebidos por moradores antigos da região. Adriene Dantas, que vive no Dias Macedo há 50 anos, afirma notar maior circulação de pessoas durante o dia, especialmente em estabelecimentos voltados à alimentação. Ela conta que uma amiga, proprietária de uma marmitaria, passou a receber mais clientes desde o início das obras.
Apesar da movimentação, os entrevistados não relatam impactos significativos na rotina residencial. Adriene afirma que não percebe aumento expressivo de barulho ou sujeira. A avaliação é semelhante à de Fabrício Dantas, vigilante de 51 anos, que cresceu no bairro e observa apenas uma circulação maior de trabalhadores durante o dia.
Embora reconheça a vantagem do deslocamento previsto entre o aeroporto e a Arena Castelão, Dantas afirma que dificilmente utilizará o novo ramal, já que o trajeto não atende às suas necessidades diárias de deslocamento até o Centro de Fortaleza.
Para Rebeca de Assis, este é um dos principais desafios dos grandes projetos de mobilidade. Segundo ela, a valorização econômica provocada pela infraestrutura precisa ser acompanhada por planejamento urbano e políticas públicas que garantam a permanência de moradores e pequenos comerciantes no entorno das futuras estações.
“O desenvolvimento gerado pela mobilidade precisa ser inclusivo. Não basta construir trilhos; é preciso garantir que os benefícios econômicos permaneçam acessíveis à população que já vive nesses territórios”, conclui.

*Estudante do 1º semestre do curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor)
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