Trilhando-me

Por 31/10/2024
Trilhando-me

Por Mariah Salvatore

Perdida na própria ignorância, acordei com os ombros beijados pela brisa fria da manhã, embebida pela ansiedade do que viria. Já a caminho dos meus colegas, com quem faria uma trilha, encontrava-me com os olhos apertados de sono e a mente anuviada. 

A perspectiva de me encontrar num cenário tão distinto do qual estou acostumada enche-me de borboletas no estômago, assim como tudo o que me proponho a realizar. Ainda assim, permaneci segura das minhas ações, abraçada pela presença de pessoas especiais, que me faziam rir tanto a ponto de expulsar todas as borboletas de dentro de mim. 

Fui o trajeto inteiro dividindo a minha atenção entre o doce e o amargo, como de costume. Cantámos, e senti-me afastando todos os males, espantando-os, que sempre me acompanhavam, como se segurassem a minha mão. Por um segundo, reconheci o quanto fui tola durante o semestre por não ter vivido mais momentos como esse, e quis eternizá-lo, ainda que por poucos segundos. 

Todo esse passeio, essa trilha num espaço tão natural, fez-me ser – ou parecer – ainda mais superficial. Uma visitante num lugar longínquo. Isso fez-me sentir feliz também, porque me pareceu não só uma fuga da realidade, mas, sobretudo, de mim mesma. A partir daí, abri os olhos, olhei para o chão, para o céu, para a frente. Logo eu, que sempre ouvi a vida inteira que devia olhar para a frente, estava, todavia, tão acostumada a olhar para trás. 

Naquele momento, olhei para a vida. E quanta vida havia naquele lugar, naquele momento, à minha volta. E descobri o que sempre soubera: que sou pequena, ínfima. Mas isso não é algo ruim, pois sei da mesma forma que sou importante, porque até o menor inseto importa. Dancei com o vento, enquanto o sol tocava a minha face com seu toque acalentador, ouvi o Pica-Pau, ouvi o Ferreiro-Reloginho. Cada canto em seu canto. Incluindo nós. 

Houve clic, clic, clic e hahaha. Até o nosso transporte chegar, e sermos obrigados a nos despedir. Dessa vez, eu não iria com eles, despedi-me da professora e dos meus colegas, com aparência cansada, porém contente. O sol agora escaldante, minhas mãos suadas, gengiva à vista. Descoberta na própria ignorância.

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