Toy Story 5 usa a tecnologia para debater infância e mudanças geracionais

Por 18/06/2026
Toy Story 5 usa a tecnologia para debater infância e mudanças geracionais

Pixar evita demonizar telas e IA, recupera o senso de perigo da franquia e discute como toda geração escolhe um culpado para explicar mudanças que ainda não compreende

Por Leonardo Piccinini

Todo avanço tecnológico costuma vir acompanhado de uma profecia. A televisão destruiria o hábito da leitura, os videogames acabariam com a convivência social, a internet tornaria as pessoas incapazes de se concentrar e, agora, celulares, tablets e inteligências artificiais aparecem como responsáveis por uma suposta crise da infância. 

Toda geração escolhe um culpado para explicar mudanças culturais que ainda está aprendendo a lidar. Era fácil imaginar, portanto, que Toy Story 5 seguiria exatamente este caminho. 

O olhar assustado dos brinquedos reproduz um comportamento profundamente humano: transformar aquilo que é novo em ameaça

Depois de um quarto filme excessivamente covarde e de um spin-off de Buzz Lightyear que parecia existir apenas para justificar sua própria existência, a expectativa era de mais uma continuação apoiada na nostalgia e em um discurso previsível sobre como a tecnologia teria roubado o espaço dos brinquedos.

A surpresa está justamente na recusa desse simplismo. Os brinquedos observam, perplexos, que as crianças preferem conversar por chat, jogar em tablets ou passar horas diante de uma tela, mas a narrativa logo apresenta personagens inesperados: aparelhos eletrônicos de primeira geração, abandonados porque uma versão mais moderna chegou às lojas. 

De repente, o conflito deixa de ser entre brinquedos e tecnologia e passa a ser entre objetos que compartilham exatamente o mesmo destino. É uma dicotomia interessante. Os brinquedos culpam os tablets pelo abandono ao mesmo tempo em que descobrem que os próprios tablets também foram substituídos, esquecidos e empilhados em alguma gaveta. (Foto 3)

É curioso perceber como os brinquedos enxergam nos tablets exatamente a mesma ameaça que tantas gerações enxergaram na televisão, nos videogames ou na internet 

A Pixar evita transformar a tecnologia em vilã e não promove uma guerra entre infância e inovação, mas um ciclo permanente de renovação que alcança tudo aquilo que produzimos.

Essa escolha torna o filme mais interessante porque desloca a discussão do objeto para o comportamento. Toy Story 5 não parece interessado em defender uma posição contra ou a favor da tecnologia. 

O filme recupera o senso de perigo da franquia justamente quando abandona a necessidade de procurar um culpado 

A narrativa funciona, surpreendentemente, quase como uma representação da disputa permanente entre tecnofóbicos e tecnocratas. De um lado estão aqueles que enxergam qualquer inovação como uma ameaça às relações humanas. Do outro, os que depositam na tecnologia uma confiança religiosa, acreditando que toda novidade representa necessariamente um avanço. 

O filme recusa os dois caminhos e prefere um terreno mais difícil, onde celulares, brinquedos, inteligência artificial e pessoas convivem como instrumentos capazes de produzir aproximação ou isolamento.

Uma das melhores cenas nasce justamente de uma piada. Ao tentar impedir que Lilypad apague um arquivo da nuvem, Woody e Buzz simplesmente dizem “Ei, Lily”. Imediatamente, o tablet desperta, numa referência evidente às assistentes virtuais. Os dois se entreolham, surpresos, e perguntam: “ela faz o que a gente mandar?”. (Foto 4)

A graça da cena está na simplicidade da descoberta. A tecnologia deixa de ser uma entidade quase sobrenatural e volta a ocupar seu lugar original: uma ferramenta. Ela não possui vontade própria, não define objetivos e nem produz sentido por si mesma. 

A ironia do filme está em lembrar que a tecnologia também envelhece, também é substituída e também conhece o abandono 

Talvez por isso a subtrama envolvendo os Buzz Lightyears treinados por inteligência artificial produza um efeito tão interessante. Observamos um personagem aprender por repetição, exemplos e comandos enquanto, do lado de fora da tela, esquecemos que família, escola, religião, amigos, redes sociais e cultura realizam diariamente um processo semelhante conosco. 

A inteligência artificial, enfim, apenas explicita um mecanismo que sempre fez parte da experiência humana. Família, escola, religião, amigos, televisão, redes sociais e cultura também moldam nossa percepção do mundo, incorporando ideias que muitas vezes aceitamos antes mesmo de questioná-las. 

Isso permite que, no fim, Toy Story 5 escolha uma posição rara em um debate dominado por extremos: nem celebra a tecnologia como solução universal e nem a transforma em responsável pelos problemas do presente. (Foto 5)

Apenas lembra que ferramentas carregam intenções humanas e que, antes de perguntar o que uma máquina é capaz de fazer, talvez seja mais importante perguntar o que nós decidimos fazer com ela.

Crescer sempre foi o tema de Toy Story. Desta vez, quem precisa amadurecer não são apenas os brinquedos, mas também a maneira como olhamos para a tecnologia

A própria resolução da história reforça essa ideia. Sem revelar detalhes, basta dizer que o conflito só encontra um desfecho porque a tecnologia deixa de ser vista como ameaça e passa a funcionar como aliada. Em vez de defender um retorno impossível ao passado, Toy Story 5 prefere sugerir que a convivência e a inovação não são conceitos incompatíveis.

O senso de perigo, ausente no quarto filme e em Lightyear, volta a existir – a aventura ganha urgência e a nostalgia deixa de ser um fim em si mesma para servir a uma história que conversa diretamente com um dos debates mais presentes do nosso tempo. (Foto 6)

A decisão de colocar Jessie no centro da história também é um gesto de confiança nas mudanças. Em vez de repetir a fórmula que transformou Woody no centro emocional da franquia, a Pixar aceita deslocar o olhar e descobrir novas possibilidades dentro de um universo conhecido. (Foto 7)

O movimento dialoga com o próprio tema do filme: mudar não significa abandonar aquilo que veio antes, mas permitir que outras vozes também conduzam a história. 

A decisão de colocar Jessie no centro da história também é um gesto de confiança nas mudanças 

A tecnologia ocupa no imaginário contemporâneo o mesmo lugar que outras invenções ocuparam no passado: o de explicação conveniente para mudanças que são, na verdade, humanas. Toy Story 5 não pede que abandonemos as telas nem que as celebremos. 

Apenas lembra que ferramentas não produzem cultura por conta própria. Elas ampliam aquilo que já somos, exatamente como acontece com as ideias que escolhemos cultivar. 

Relações não perdem significado porque terminaram, assim como brinquedos não deixam de carregar memórias quando deixam de ser usados. Em uma história que discute tecnologia, inteligência artificial e mudanças culturais, a lembrança mais importante é : crescer nunca significou jogar o passado fora. Significa apenas abrir espaço para que novas histórias convivam com aquelas que nos trouxeram até aqui. 

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