Práticas educativas apostam em projetos que reforçam o aprendizado além das aulas formais em sala por meio das memórias urbanas da cidade Por Teo
Práticas educativas apostam em projetos que reforçam o aprendizado além das aulas formais em sala por meio das memórias urbanas da cidade
Por Teo Freitas

Aulas no cinema, nas igrejas e até mesmo no cemitério. O projeto idealizado pelo professor de História, Sandoval Matoso, demonstra que a história não está limitada ao ensino formal, mas também ao meio em que vivemos. “Tem História em Todo o Canto” é o título do projeto que acompanha visitas guiadas e levam conhecimento para os fortalezenses acerca da história de nossa cidade.
Acompanhado de outros professores de História, Sandoval idealizou projetos criativos com experiências sensoriais e interativas, permitindo que os participantes vivenciem a cidade de Fortaleza de uma maneira diferente. Cada roteiro elaborado para essas visitas é pensado com a intenção de aproximar a população de sua história, valorizando a memória coletiva e estimulando novas formas de enxergar a cidade.
Dentre os projetos estão: Fortaleza sobre Trilhos, Fortaleza de Fé e, o mais incomum que causa certa estranheza em algumas pessoas: o Fortaleza Necrópole, conduzido pelos professores Sandoval Matoso e Thiago Roque. Eles adentram o Cemitério São João Batista proporcionando uma viagem ao passado, para relembrar as personalidades importantes do Estado e apresentar algumas histórias e curiosidades de indivíduos desconhecidos, mas que também compõem a memória histórica do Ceará.
Inicialmente essas visitas aconteciam somente no período diurno. Porém, no mês de outubro de 2025, iniciaram uma versão noturna das aulas denominada: Assombros e Memórias – da Cidade dos Vivos e dos Mortos. Para esta aula noturna no cemitério, o contador de histórias nordestinas, Samuel Jacinto, participa em parceria com os professores, utilizando uma abordagem histórica acerca das lendas urbanas que marcaram épocas e ainda estão presentes na memória da cidade.
A tendência de trilhas históricas por Fortaleza é relativamente recente. Sandoval relata que a prática se iniciou com o professor Gerson Linhares, com o “Fortaleza a Pé”, e continuada por grupos mais recentes, como o Vai Veno e as programações de Sandoval. A principal motivação é reconectar as pessoas com a história da cidade que, apesar da proximidade, é por vezes invisibilizada em contraste com outras capitais. “O nosso estado (Ceará) é muito famoso pelo turismo e Fortaleza é muito famosa pelas praias […] muitas vezes você reconhece o centro histórico de Salvador, de João Pessoa […] e o de Fortaleza é pulverizado”.
Em entrevista ao podcast A Voz da História com Isabel Pires, Matoso fala: “quando a gente começa a trazer a população pra rua, pra ter essa vivência, ter essa aula de história, […] a principal proposta é essa: seja o Fortaleza Necrópole, seja o Fortaleza sobre Trilhos […] é fazer (o cidadão) se reconhecer enquanto sujeito histórico.”
Para o NewsLink, Sandoval explica a origem do projeto. “Tudo começa com a atuação no […] YouTube e Instagram. Trazer um pouco da cultura local…”, destacando como motivador a sua paixão pela história do Ceará: “sou apaixonado por essa terra, por essa gente, nossa cidade; e criei alguns projetos pra tentar ocupar o centro de Fortaleza […] conectar a nossa história com a história do Brasil, a história do mundo…”
O ensino de história, diz o professor, precisa ir além do nível mundial ou nacional, como é ensinado nas escolas. Por isso, ele usa os projetos de campo como um aprendizado sobre a realidade da cidade: “(as pessoas) acabam esquecendo que têm história aqui. E assim como a memória, o patrimônio e a história é disputada”.
Sandoval explica também a importância de inserir o indivíduo politicamente por meio do conhecimento. “Só posso transformar se eu amar, e eu só posso amar se conhecer. Aí, se não conheço, como vou mudar?”

Ele complementa o depoimento atentando ao perigo da história única como instrumento de opressão. “Se não conheço a minha história, outro vai contar com o interesse que ele tem. Se não ocupo a cidade, outros vão ocupar. E a pior coisa que existe para o ser humano é o abandono […] Se pro ser humano é ruim, imagine pros nossos patrimônios!!”.
A próxima edição do Fortaleza Necrópole será no dia 19 (sexta-feira), das 19h30 às 21h30 no Cemitério São João Batista. As inscrições podem ser feitas via pix e mais informações podem ser acessadas no perfil de instagram @fortalezanecropole.
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