Sobrecarga de responsabilidades, desigualdade no trabalho e concentração de tarefas domésticas promovem esgotamento que afeta a saúde física e emocio
Sobrecarga de responsabilidades, desigualdade no trabalho e concentração de tarefas domésticas promovem esgotamento que afeta a saúde física e emocional feminina
Por Laíssa Esmeraldo

As mulheres são maioria no País. Elas compõem 51,1% da população brasileira e, ainda assim, enfrentam dificuldades estruturais que impactam diretamente a saúde física e emocional. Fatores como a sobrecarga de responsabilidades, a desigualdade no mercado de trabalho e a gestão do lar e de tarefas domésticas, desencadeiam um cansaço, tal qual um burnout, na mulher. Entre jornadas duplas, e até triplas de trabalho, o descanso costuma ser adiado ou negado e o esgotamento vira uma constante.
Por muito tempo, Marta da Silva, psicopedagoga, pensou que “carregar o mundo nas costas” era a única opção. Essa percepção, no entanto, está ligada a expectativas sociais historicamente construídas sobre o papel das mulheres.Ticiana Antunes, doutora em História Social e mestre em Políticas Públicas e Sociedade explica que foi consolidada uma divisão de papéis em que aos homens foi atribuído o espaço da produção econômica e da política, enquanto às mulheres coube o cuidado com o lar e os filhos.
Ela complementa que essa carga ficou mais pesada. Quando a mulher entrou no mercado de trabalho, não houve redistribuição das funções domésticas, apenas um acúmulo delas na figura feminina. A sociedade espera que “a mulher deve trabalhar como se não tivesse filhos e cuidar dos filhos como se não trabalhasse”.

comum entre as mulheres | Foto: Freepik
As expectativas crescem e exigem que a mulher seja uma profissional exemplar, mãe presente, capaz de manter a casa organizada e ainda corresponder aos padrões estéticos. Isso cria um nível de exigência inalcançável, que acaba resultando em exaustão física e emocional.
Marta ressalta que as mulheres, eventualmente, se colocam em segundo plano em prol das necessidades, sejam da família, sejam do trabalho. Para ela, a sensação de que nunca é suficiente, no entanto, é o que mais drena a energia física e mental. “O cansaço das tarefas passa com o repouso, mas o cansaço dessa sensação de insuficiência é mais difícil de aliviar, pois está ligado à forma como nos julgamos”, desabafa Marta.
Essa exaustão descrita por Marta não é algo individual, aponta a psicóloga e professora, doutora Luciana Maia. Ela parte de estruturas sociais que se formaram com o tempo. A psicóloga fala que desde nova, a menina aprende que tem que ser organizada, responsável, disponível emocionalmente e que tem que saber cuidar da casa; o menino, no entanto, é estimulado a ter autonomia, a se arriscar, a correr, a subir em árvores. “Ao longo da vida, isso vai sendo internalizado por meio de um reforçamento social”, comenta.
Essa divisão é criticada por Ticiana. Para a doutora em História Social, é necessário romper com a expectativa de que meninas sejam preparadas prioritariamente para cuidar. Ela defende que “as meninas precisam ser elogiadas quando reclamam, brigam e tentam se impor. Acho um crime elas serem socializadas para o cuidado antes mesmo de desenvolverem o próprio projeto de vida”, afirma.

Essas expectativas se manifestam em diferentes áreas e períodos da vida da mulher. A doutora em história social fala da existência de uma pedagogia social sobre aprender a “suportar”, que começa quando menina e segue durante a vida. Como no mercado de trabalho, quando mulheres são avaliadas mais pelo comportamento do que pela competência. Ou na maternidade, quando a culpa se torna instrumento de regulação moral. “O suportar vira identidade”, afirma.
O discurso da “mulher forte”, que parece, a princípio, empoderador, na opinião de Ticiana apenas cobra e não explica o motivo dessa força, que tem uma dimensão histórica de resistência. “O problema surge quando essa força deixa de ser escolha e passa a ser exigência”. Completa: “ quando o mercado, as instituições e até as famílias começam a dizer ‘ela aguenta’, ‘ela dá conta’, a força vira obrigação, a dor, normalidade e o cansaço, fraqueza”.
Marta fala que ela mesma impõe, a si própria, altas expectativas, querendo fazer tudo da melhor forma possível, “e acaba virando uma pressão interna”. Ela confessa: “tenho receio de que, se eu não der conta, as pessoas pensem que sou incompetente, preguiçosa ou que não me importo com o que precisa ser feito”.
A psicóloga explica que a pressão interna e a exaustão relatadas por Marta refletem não só na saúde física, mas na saúde emocional e mental das mulheres. A ocorrência de ansiedade, insônia e irritabilidade, além dos quadros como o do burnout, que afetam mais mulheres que homens. O excesso de trabalho e a sobreposição de papéis resultam, eventualmente, no sofrimento psíquico e desgaste contínuo.
Ticiana fala que quando uma mulher adoece pelo cansaço, a resposta social costuma ser individualizante, atribuindo à falta de organização ou de equilíbrio pessoal. “Raramente se questiona a estrutura. O burnout, nesse contexto, é sintoma de um modelo social que exige desempenho ilimitado sem oferecer suporte equivalente”, fala.
Hoje, Marta diz estar aprendendo a diferença entre ter que dar conta de tudo, e fazer o que está ao próprio alcance. Ela vem se permitindo parar e descansar, apesar de inconscientemente ainda resistir. Ela percebeu que, na verdade, “cuidar de nós mesmas não é um luxo, é uma necessidade para conseguirmos continuar cuidando de tudo e de todos”.
A psicopedagoga faz uma reflexão: “pedir ajuda é um sinal de inteligência, dizer ‘não’ é cuidar de si mesma. Não dar conta de tudo é perfeitamente normal, pois ninguém é super-humano e, no final das contas, a gente não faz nada bem quando se está completamente desgastada”.
Por muito tempo, a sociedade naturalizou a exaustão feminina. A fala de Marta, no entanto, mostra que mais mulheres vêm reconhecendo os próprios limites e questionando as expectativas sociais que são colocadas sobre elas. Dar nome ao esgotamento, permitir-se descansar e promover divisão de tarefas são, de certa maneira, uma forma de resistência e de autocuidado.
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