Mês celebra conquistas, valoriza a Libras e profissionais denuniciam desafios que ainda limitam a plena acessibilidade Por Clarisse Maciel e Beatr
Mês celebra conquistas, valoriza a Libras e profissionais denuniciam desafios que ainda limitam a plena acessibilidade
Por Clarisse Maciel e Beatriz Duarte

Setembro é um mês de luta e celebração para a comunidade surda. Conhecido como Setembro Azul, ele marca a resistência, a valorização da língua de sinais e a defesa pela acessibilidade, ao mesmo tempo em que resgata memórias de um passado de perseguição para reafirmar a importância da inclusão no presente.
A escolha do mês não é por acaso. Setembro reúne diferentes datas históricas que marcaram a luta da comunidade surda. Desde a Semana Internacional dos Surdos, de 20 a 26, ao Dia Internacional da Língua de Sinais, em 23 de setembro, são momentos importantes que buscam garantir direitos e dar visibilidade à comunidade.
A cor azul foi inicialmente imposta como símbolo de estigmatização: durante a Segunda Guerra Mundial, pessoas com deficiência, incluindo surdos, foram identificadas com fitas azuis como parte de um programa de perseguição nazista. Através da Cerimônia da Blue Ribbon (Fita Azul), realizada em 1999 no XIII Congresso Mundial da Federação Mundial de Surdos, essa cor foi ressignificada, transformando-se em símbolo de orgulho, resistência e identidade surda, hoje amplamente representada em tom azul-turquesa vibrante.
Para a professora Débora Conrado, vice-coordenadora do curso de Letras-Libras da Universidade Federal do Ceará (UFC), a educação bilíngue é um dos pontos centrais dessa luta. Ela explica que o contato com Libras e língua portuguesa é o que garante que estudantes surdos tenham acesso real ao conhecimento. “A Libras assegura a comunicação e o aprendizado dos conteúdos de forma acessível, enquanto o português amplia a participação em diferentes espaços acadêmicos e sociais”, afirma.
Na avaliação da professora, a educação bilíngue fortalece a autonomia dos estudantes e amplia suas perspectivas de vida. “Quando o aluno surdo consegue transitar entre Libras e português, ele ganha mais segurança para ler, escrever e se comunicar em ambientes diversos. Isso melhora sua interação com a comunidade ouvinte e reforça seu desenvolvimento acadêmico e social”, completa.
Apesar das conquistas, os desafios permanecem. Segundo a professora, a falta de compreensão sobre a importância da Libras é um dos principais entraves. “Muitas escolas ainda trabalham com metodologias pensadas apenas para ouvintes, o que dificulta muito a aprendizagem dos surdos”, aponta. “Também vemos famílias que não estimulam seus filhos a aprender Libras, o que gera frustração e prejudica o desenvolvimento social e escolar dessas crianças.”
As intérpretes Karla Oliveira e Madalena Lessa reforçam esta visão ao lembrar que a presença do intérprete, embora fundamental, não é suficiente. “A acessibilidade comunicacional vai muito além do intérprete”, afirmam. Para elas, a inclusão só acontece quando há preparo pedagógico, envolvimento das famílias e políticas escolares que não enxerguem o intérprete como solução única. Nos serviços públicos, a realidade também é preocupante: em muitas cidades brasileiras não há intérpretes disponíveis, e até mesmo nas capitais o atendimento costuma ser pontual e precário.
Nesse contexto, o papel do intérprete ganha destaque. “Nós traduzimos não apenas palavras, mas contextos e nuances, possibilitando que a pessoa surda exerça sua cidadania com autonomia”, dizem Karla e Madalena. Elas defendem ainda que ouvir a voz da comunidade surda e aprender Libras deve ser um compromisso coletivo. “Aprender Libras é um gesto de empatia e cidadania. Mesmo que você não trabalhe diretamente com surdos, esse conhecimento ajuda a quebrar barreiras e reduzir o isolamento social.”

Mais do que em setembro, a inclusão precisa ser prática cotidiana. “A principal mensagem do Setembro Azul é que não devemos desistir. A comunidade surda é resistente, conquista espaços e serve de modelo para que crianças cresçam com orgulho da sua identidade”, reforça Débora Conrado. Karla e Madalena complementam: “A inclusão não pode se resumir a eventos ou campanhas. Ela deve estar presente em todos os espaços da sociedade”.
O parecer nº 13/2009 do Conselho Nacional de Educação reforçou a necessidade de matrícula de alunos com deficiência em escolas regulares, com atendimento especializado. Em 2011, diante de ameaças de fechamento do INES e do Instituto Benjamin Constant (também uma instituição essencial à educação de surdos), emergiu um movimento nacional em Brasília em defesa de escolas bilíngues, que reconhecessem a Libras como primeira língua e oferecessem ensino inclusivo e gratuito, deste movimento surgiu o Setembro Azul como campanha organizada.
O Ministério da Educação (MEC), por exemplo, realiza encontros como o “Setembro Azul/Surdo: Pessoa Surda em Foco”, com palestras sobre cultura surda, Libras e atuação política da comunidade surda. Centros de capacitação (como os CAS em Minas Gerais) promovem lives, formação de professores em Libras e produção de materiais didáticos acessíveis.
Assim, o Setembro Azul se consolida não apenas como um período de celebração, mas como um marco de resistência, orgulho e afirmação da identidade surda. Mais do que lembrar conquistas, ele lança um chamado: a luta pela inclusão é contínua e deve ser responsabilidade de todos.
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