A falta de profissionais e de investimentos continuam dificultando o acesso a um cuidado real e efetivo da população apesar do aumento da visibilidad
A falta de profissionais e de investimentos continuam dificultando o acesso a um cuidado real e efetivo da população apesar do aumento da visibilidade das campanhas
Por Laíssa Esmeraldo

As discussões acerca da saúde mental vêm ganhando cada vez mais espaço e mais destaque nos últimos anos. Elas são intensificadas, especialmente, neste mês em razão do “Setembro Amarelo”. A campanha é considerada socialmente relevante por abordar um tema que envolve muitos estigmas: o suicídio.
A psicóloga clínica Raíssa Salomon, especialista em Terapia Comportamental Dialética, ressalta que o Setembro Amarelo conseguiu trazer visibilidade e abrir um espaço para conversas que antes eram veladas. A campanha traz este tema para a sociedade. “Antes, falar sobre o suicídio era um grande tabu e, hoje, a gente vê que empresas, famílias… todo mundo tá discutindo esse assunto de uma forma muito mais aberta e sem esse tabu”. Hoje, a informação circula com mais facilidade, com uma linguagem acessível, desde as redes sociais até as escolas.
A saúde mental é a chave para um bem-estar geral. A relevância e importância dessa temática se mostra por meio de políticas públicas, seja no serviço de saúde ou na implementação de uma abordagem multidisciplinar e integrada, que consiga suprir as necessidades da população.
Nesse sentido, houve importante evolução quando se fala de bem-estar mental. “Nos últimos anos, temos percebido a opinião pública, a formação médica e as discussões muito mais aprofundadas sobre a saúde mental”, esclarece o psiquiatra, Erick Rebouças. Ele completa: “acredito que conversar, poder falar abertamente de vida, sofrimento e dor, pode nos levar a uma nova compreensão do fenômeno humano”.
Para esse intuito, a desestigmatização dos transtornos mentais é fundamental, e permanece sendo uma prioridade, como sendo uma abertura para que se busque ajuda sem receio de julgamentos. A psicóloga Raíssa Salomon fala que temos a impressão de que ao falar sobre o suicídio estamos incentivando, mas que o efeito é justamente o oposto. A conversa – responsável – gera um “fator proteção”.
Raíssa destaca ainda que a vergonha é um grande problema, pois ainda está muito ligada a ideia de fraqueza com o ato de procurar ajuda. E, somando-se a esses fatores, existe a dificuldade prática. Ela explica e admite que não são todas as pessoas que têm acesso fácil a um atendimento psicológico e o sistema público, mesmo com avanços, não consegue atender às necessidades.
Sobre a rede pública, a psicóloga e o psiquiatra compartilham as mesmas opiniões no sentido de que faltam profissionais capacitados e recursos melhor destinados. Ele é enfático ao apontar que a principal dificuldade é a falta de financiamento. “Uma parte muito pequena do orçamento em saúde pública é destinada à saúde mental. Assim temos poucos profissionais – desestimulados, sobrecarregados, mal pagos – para atender a uma demanda que só cresce”, explica.

“A emergência psiquiátrica precisa funcionar, os CAPS precisam funcionar, os ambulatórios, o cuidado em saúde mental na atenção primária precisam funcionar. Porém o que temos é uma rede extremamente assoberbada de demandas que vai apagando mal os incêndios e não consegue dar conta das necessidades da população”, desabafa Dr. Erick Rebouças.
A urgência do tema é incontestável. Certo que o Brasil tem iniciativas importantes e necessárias. Contudo, elas não são eficientes como deveriam, levando a um atendimento deficitário da população. A rede pública não está preparada para dar conta de todos que estão em risco. Os dados da Associação Brasileira de Medicina e Emergência (Abramede), referentes a 2024, indicam que cerca de 14 mil pessoas tiram a própria vida, anualmente, no país.
E, para além da infraestrutura, o cenário de saúde mental no Brasil leva à reflexão sobre a maneira como o cuidado é oferecido. Trata-se sobre o diálogo aberto, sem julgamentos. Dr. Erick Rebouças explica que “muitas vezes nos apressamos em querer dar um conselho, uma orientação quando, o que a pessoa precisa naquele momento, é ser escutada. A escuta tem um poder que é muito subestimado!”
Feita de maneira empática, o ato de escutar é muito importante. Ouvir de verdade alguém que está sofrendo pode fazer diferença na vida daquela pessoa que, muitas vezes, não precisa de um conselho, mas sim ser escutada e desabafar. Para tal fim, a psicóloga Raíssa dá conselhos para lidar com situações como essa: “estar presente no momento, olhar nos olhos, não interromper, não minimizar a dor, validar o que o outro fala e mostrar interesse genuíno”.
Quando a escuta é real e o suporte é acessível, cria-se uma rede de proteção capaz de salvar e transformar vidas. Muito mais do que números ou campanhas, a saúde mental demanda ações contínuas, que perpassem o mês de setembro, pois o sofrimento não tem dia e nem hora.
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