Serra das Almas é referência na conservação da biodiversidade da Caatinga

Reserva Natural alia ciência, proteção ambiental e trabalho comunitário para preservar espécies ameaçadas no Semiárido Por Clara Barreto Em pro

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Reserva Natural alia ciência, proteção ambiental e trabalho comunitário para preservar espécies ameaçadas no Semiárido

Por Clara Barreto

Em processo de reintrodução, o periquito-cara-suja é uma das espécies que pode ser encontrada
na reserva | Foto: Jonas Cruz

A Reserva Natural Serra das Almas (RNSA), localizada entre os municípios de Crateús (CE) e Buriti dos Montes (PI), é hoje uma das áreas mais importantes para a conservação da Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro. Criada no ano 2000, como Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), a unidade foi escolhida justamente por abrigar uma área pouco alterada, com elevada integridade ambiental e grande diversidade biológica.

Segundo o gestor da reserva, Gilson Miranda, biólogo e especialista em Educação Ambiental, o processo de recomposição florestal na Serra das Almas ocorreu principalmente por meio da regeneração natural assistida, com intervenções pontuais. “Foram realizados plantios apenas de espécies-chave, necessárias para o equilíbrio da área”, explica. Espécies exóticas, como mangueiras, ainda presentes em alguns trechos, estão sendo retiradas gradualmente e substituídas por espécies nativas frutíferas para garantir suporte alimentar à fauna.

Dados comprovam a riqueza da fauna e da flora

Reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) desde 2005, como Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Caatinga, a Serra das Almas é considerada um verdadeiro laboratório a céu aberto, com 6.285 hectares de Caatinga preservada. Dados da Associação Caatinga (AC), responsável pela gestão da reserva, apontam a presença de 703 espécies de plantas, 49 espécies de mamíferos, 238 de aves, 52 de répteis e 33 de anfíbios, muitas delas endêmicas (espécies que ocorrem exclusivamente em uma determinada área geográfica restrita) e/ou ameaçadas de extinção.

A presença dessas espécies é fundamental para a manutenção dos Serviços Ecossistêmicos, como o equilíbrio do solo, a polinização, a dispersão de sementes e a regulação natural das populações animais.

Espécies-símbolo e indicadores ambientais

O tatu-bola é um dos símbolos da Serra das Almas e a sua adoção como mascote da Copa de 2014 pela Fifa foi uma sugestão da Associação Caatinga | Foto: Samuel Portela

Entre as espécies que simbolizam os esforços de conservação estão o tatu-bola-do-nordeste (Tolypeutes tricinctus), historicamente ameaçado pela caça, e o periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus), ave que havia desaparecido localmente e vem sendo reintroduzida na área por meio de parcerias. Essas espécies são consideradas bioindicadores, ou seja, sua presença atesta a qualidade ambiental e o bom funcionamento do ecossistema.

A fauna da reserva inclui ainda predadores de topo de cadeia, como a onça-parda (Puma concolor), além da jaguatirica (Leopardus pardalis) e do gato-mourisco (Felis catus). A ocorrência desses animais indica um ambiente equilibrado, com cadeias alimentares completas. “O desaparecimento de uma espécie é sempre um sinal de alerta”, destaca o gestor, que reforça a importância do monitoramento contínuo.

Monitoramento e proteção da vida silvestre

Mamíferos de grande porte, como a onça-parda, são indicadores de boa conservação e, numa área tão extensa, só são avistados por armadilha fotográfica | Foto: Armadilha fotográfica/ Associação Caatinga

O monitoramento da fauna é realizado diariamente pelos guarda-parques, por meio de observações diretas, e também com o uso de armadilhas fotográficas, organizadas em um sistema de grade. As câmeras registram imagens que ajudam a identificar espécies, entender comportamentos e mapear o deslocamento dos animais dentro da reserva.

Embora a Serra das Almas não atue diretamente no resgate de animais silvestres, a unidade mantém parcerias para o encaminhamento desses casos e concentra seus esforços na gestão da unidade de conservação e na proteção do habitat natural.

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Equilíbrio ecológico e envolvimento comunitário

A manutenção da biodiversidade depende também do combate à caça ilegal, ao desmatamento e às queimadas, ainda presentes como desafios na região. Outro problema recorrente é a entrada de animais domésticos, como cães de caçadores, que podem transmitir doenças à fauna silvestre.

Para enfrentar essas ameaças, a reserva desenvolve um modelo integrado de conservação, que inclui ações permanentes de Educação Ambiental, oficinas, atividades culturais e diálogo com as comunidades do entorno. “As pessoas que vivem próximas à reserva se tornam aliadas na proteção da natureza”, afirma Gilson Miranda.

Em um bioma ainda marcado por preconceitos e desinformação, a Serra das Almas se consolida como um exemplo de que a Caatinga é rica em vida e que sua conservação é essencial para o equilíbrio ambiental e para o futuro das próximas gerações.

* Esta reportagem é a segunda de uma série sobre a Reserva Natural Serra das Almas, localizada entre o Ceará e o Piauí, no âmbito da Oficina de Jornalismo Ambiental realizada em dezembro de 2025 pela Inter Press Service (IPS) em parceria com o Curso de Jornalismo da Unifor e a Associação Caatinga. A próxima reportagem abordará o tema manejo.

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