Pesquisa escancara visão alterada e xenofobia da imprensa do Sul e Sudeste contra o Nordeste

Por 24/03/2026
Pesquisa escancara visão alterada e xenofobia da imprensa do Sul e Sudeste contra o Nordeste

Doutorado de estudante da Universidade de São Paulo (USP) abre reflexões sobre a origem do preconceito, estereótipos, papel político e avanços socioeconômicos da região

Por Clara Memória e Mantovanni Colares

Cinquenta por cento das vezes em que o Nordeste foi citado no Estadão e na Folha de São Paulo durante as eleições presidenciais de 1989 a 2022, a região foi associada a algum estigma, como seca e falta de instrução. A conclusão é de Marina Chaves de Macedo Rego, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), em sua tese de doutorado.

Marina, que analisou 1.080 notícias que citavam o Nordeste, constatou durante sua pesquisa que 69% relacionam a região ao Partido dos Trabalhadores (PT) – o que comumente é feito de forma depreciativa. “Mesmo quando o Nordeste não votava majoritariamente no PT, já se tentava associar o Nordeste ao PT. Em 1989, por exemplo, o Lula não ganhou no Nordeste, mas venceu as eleições no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, quase ganhando em São Paulo.”

Para além da mídia tradicional, as redes sociais já se mostraram um terreno fértil para a disseminação de preconceito. Segundo dados da SaferNet Brasil, associação civil de direito com foco na defesa dos direitos humanos na internet, o discurso de ódio contra nordestinos cresceu 821% em 2022. O pico das denúncias se intensificou principalmente após o resultado das eleições do mesmo ano.

O preconceito à região possui raízes históricas, com vertentes ligadas ao chamado “processo de embranquecimento” da sociedade brasileira, de forma a apenas destacar pessoas brancas. Para o jornalista Octávio Santiago, autor do livro “Só Sei Que Foi Assim: A Trama do Preconceito Contra o Povo do Nordeste”, em entrevista para a BBC News Brasil, o processo também engloba as regiões do país, além da cor de pele.

“Essa ideia de Nordeste também era um projeto de poder político para fazer com que as elites do Sul vivessem o protagonismo que antes era das elites nordestinas. A história mostra que a ideia de diminuir o Nordeste fazia parte de um projeto para enaltecer o Sul. Você criava um contraponto e assim se firmava como o centro, o eixo, como quem dá as cartas”, diz Octávio.

Avenida Beira-Mar, em Fortaleza, é um cobiçado destino turístico do Nordeste | Foto: Prefeitura de Fortaleza / Reprodução

Segundo Claudio Sena, doutor em Sociologia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), a certeza das origens do preconceito é difícil de se obter, apesar das especulações. “O preconceito parece emergir da desigualdade histórica entre regiões e da construção do Nordeste como ‘atrasado’ frente ao Sudeste ‘moderno’, uma narrativa que durante muito tempo figurou como suposta realidade aceita”. 

Ao ser questionado sobre o papel do “processo de embranquecimento” na gênese da xenofobia, Sena afirma que o movimento ajudou a associar o Nordeste, negro e mestiço, ao atraso. Também disse que a migração tornou o preconceito mais visível. “Nordestinos passaram a ocupar trabalhos precarizados no Sudeste, e a condição social foi confundida com identidade cultural, reforçando estigmas já criados e consolidados de maneira nem sempre tão assumida”, conclui.

Nos últimos anos, o Nordeste brasileiro tem ganhado mais destaque, inclusive no cenário internacional. Em janeiro de 2026, os aeroportos da região registraram 229 mil passageiros em voos internacionais, com destaque para conexões com Portugal, Argentina, França, Espanha, Chile e Estados Unidos.

Dados do painel da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo, com base em registros da Polícia Federal, indicam que 73,8 mil visitantes chegaram ao Nordeste em janeiro, 59% a mais do que no mesmo mês do ano anterior, com uma forte presença de turistas sul-americanos e europeus.

Além disso, o cinema nordestino ganha mais reconhecimento, como “O Agente Secreto”, longa-metragem que recebeu quatro indicações ao Oscar 2026, ambientado e gravado em Recife. Mais do que isso, a produção conta com Wagner Moura, ator baiano, no papel do protagonista, além de outros nordestinos no elenco, como cearenses e paraibanos.

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