Pesquisa do IBGE revela desigualdade social e precariedade do transporte público  

Índice mostra que 32% dos brasileiros usam o automóvel como principal meio de locomoção, 21, 4% da população usa o ônibus para se deslocar Por Hel

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Índice mostra que 32% dos brasileiros usam o automóvel como principal meio de locomoção, 21, 4% da população usa o ônibus para se deslocar

Por Helena Gadelha

Lotação em transporte coletivo em Fortaleza I Foto: Reprodução: Diário do Nordeste

O carro se tornou o transporte mais utilizado pelo brasileiro. A constatação foi revelada, no início do mês de outubro, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de acordo com dados referentes ao Censo de 2022. A pesquisa também exibe índices de desigualdade social e precariedade do transporte público. O levantamento mostrou que 32% dos brasileiros utilizam carro, superando 21,4% que usam ônibus e 17,8% que se deslocam a pé. 

De acordo com uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas -Transportes (FGV-T) em 2022, 63% dos brasileiros veem o serviço de transporte público como ruim ou péssimo. Em Fortaleza, o número de furtos em transportes coletivos diminuiu em quase 80%, segundo dados divulgados pelo Sindicato de Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará. O nível de satisfação dos passageiros com a qualidade das operações dos transportes, no entanto, ainda é baixo devido à falta de conforto e opções de locomoção.

A questão das lotações também afeta muito na capacidade dos veículos de atuarem com eficiência e segurança tanto para o passageiro quanto para o trabalhador responsável pela direção do transporte. “Já sofri assédio duas vezes em um ônibus lotado por dois homens mais velhos que eu, não pude fazer nada além de me esquivar”, revela a passageira Danielly Cruz, que já foi vítima de importunação.

Ônibus de Fortaleza circulando sem ar condicionado I Foto: reprodução: O Povo

Os primeiros ônibus de Fortaleza com ar-condicionado passaram a circular em 2014. Porém, ainda há uma grande quantidade de veículos que ainda não são refrigerados. “Acho que melhorou sobre o transporte ter ar-condicionado, mas acredito que deveria ter mais ônibus com ar-condicionado. Me afeta diretamente porque tenho que sair mais cedo para chegar ao trabalho. O ônibus é extremamente lotado, as pessoas deixam de lado o respeito pelas filas e pelos outros passageiros”, afirma a passageira Cicera Melo. 

A migração se deve à criação de modais que permitam o passageiro escolher outras alternativas de locomoção que supram as carências do transporte público, essa tendência começou em 2015 com a chegada dos carros por aplicativo. Com a redução do número de pagantes a receita arrecadada pelas empresas diminui, de modo a afetar a qualidade das operações dos coletivos. Dados da Associação Nacional das Empresas de Transporte informam que 44% dos passageiros de ônibus migraram para outros meios de locomoção nos últimos 10 anos. 

Motoqueiro de aplicativo da empresa Uber I Foto: Reprodução

“A migração das pessoas do transporte público para outros modais se deve principalmente a queda da qualidade da oferta. Se você vai para uma parada de ônibus e ele não passa, você busca outras alternativas”, disse José Ademar Gondim Vasconcelos, professor de Engenharia de Transporte da Universidade Federal do Ceará (UFC).

A questão financeira também é um fator relevante quando se trata sobre o melhoramento dos transportes coletivos. “Nos últimos anos, o ritmo de substituição dos veículos foi impactado pelas dificuldades econômicas enfrentadas pelo setor em todo o país, mas os esforços de modernização continuam sendo prioridade”, informou a assessoria de comunicação do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado Ceará (Sindiônibus).

A Prefeitura de Fortaleza concede mensalmente 14,5 milhões de reais de subsídio, além da isenção de impostos como IPVA e ICMS. A organização, no entanto, alega que os valores não são suficientes para manter as operações e que mais recursos são necessários. 

“A menos que a pessoa se mude, ela não vai mudar a distância até o ambiente de trabalho ou estudo. O que pode ser feito é pensar na qualidade do trajeto com, por exemplo, um aumento da frota de ônibus em horários específicos”, pontuou o professor e psicólogo Rafael Ayres de Queiroz, da Universidade de Fortaleza (Unifor).

Os dados divulgados pelo IBGE revelam não apenas números mas também a desigualdade vivida por milhões de brasileiros como Cicera e Danielly, que usam o transporte público diariamente. O Instituto informa que quase metade dos domicílios brasileiros não possuem carro, o que acentua o cenário de desigualdade na mobilidade urbana.

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