Ouvir é viver: Dia Mundial da Escuta alerta para saúde auditiva e percepção consciente

Por Admin Novo 17/07/2025
Ouvir é viver: Dia Mundial da Escuta alerta para saúde auditiva e percepção consciente

Mais de 1,5 bilhão de pessoas no mundo convivem com perda auditiva; e a escuta, para a escritora Ana Márcia Diógenes, é um instrumento de trabalho na literatura 

Por Yasmin Boyadjian

O Dia Mundial da Escuta – uma data que reforça a importância da audição e da escuta ativa como elementos fundamentais para a saúde, o bem-estar e a convivência humana – é comemorado no dia 18 de julho.  A data é utilizada pela Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cervicofacial (ABORL-CCF) para divulgar dados preocupantes sobre a saúde auditiva no mundo e alertar para a necessidade de cuidados preventivos.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 20% da população global,  mais de 1,5 bilhão de pessoas, convivem com algum grau de perda auditiva. Desse total, 430 milhões apresentam a perda de forma incapacitante, incluindo 34 milhões de crianças. 

Estima-se que 60% dos casos infantis poderiam ser evitados por meio de ações simples de saúde pública, como vacinação, controle de infecções e acompanhamento médico adequado. Outro dado alarmante diz respeito ao zumbido (tinnitus), que atinge 14,4% dos adultos em todo o mundo. Em sua forma mais grave, o problema afeta 2,3% da população adulta e tende a se intensificar com o avanço da idade, chegando a 23,6% entre pessoas com mais de 65 anos.

Na região das Américas, cerca de 217 milhões de pessoas vivem com perda auditiva, o que representa 21,5% da população local. A projeção da OMS é que esse número possa chegar a 322 milhões até 2050, caso não sejam adotadas medidas preventivas efetivas. 

O médico otorrinolaringologista Fernando Balsalobre, membro da ABORL-CCF, destaca que a audição é um sentido essencial para o desenvolvimento humano desde os primeiros anos de vida, influenciando a linguagem, a aprendizagem, a socialização e até a saúde mental. 

Para ele, o cuidado com a escuta deve ser parte da rotina de atenção com a saúde, a exemplo das visitas regulares ao dentista e ao oftalmologista. Balsalobre reforça que muitos casos poderiam ser evitados com atitudes simples, como a vacinação, o tratamento adequado de infecções e exames auditivos regulares.

Rubem Alves: “sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória”.   I Foto: Jackson Romanelli/EM

A ABORL-CCF recomenda cinco cuidados essenciais para a proteção da audição: reconhecer sinais, como a dificuldade para entender conversas e a presença de zumbidos; realizar exames auditivos anuais, especialmente após os 50 anos ou quando no convívio em ambientes ruidosos; usar proteção auditiva em shows, obras e locais barulhentos; não ignorar o zumbido, pois ele pode indicar danos à cóclea; e tratar infecções rapidamente, já que estas, se recorrentes, podem causar danos permanentes à estrutura auditiva.

Mais do que um alerta sobre a saúde física, o Dia Mundial da Escuta também propõe uma reflexão sobre o seu valor simbólico na vida em sociedade. A questão é tão complexa, que o cronista Rubem Alves escreveu sobre a arte da escutatória, que seria ouvir com empatia e atenção, buscando compreender o outro, sem julgá-lo. Neste sentido, a escritora Ana Márcia Diógenes, que trabalha com a construção de personagens e histórias baseadas na observação do cotidiano, ressalta que a escuta é um instrumento fundamental para a escrita e a compreensão do outro. 

“Eu acredito que a escrita pode se tornar um instrumento de resgate do valor da escuta porque faz as pessoas refletirem. Traz histórias da vida, mostra realidades ou projeta realidades que fazem a pessoa querer entender mais o que está acontecendo, e aí vem a escuta”, afirma.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 20% da população global,  mais de 1,5 bilhão de pessoas, convivem com algum grau de perda auditiva | Foto: Paho.org

Para a escritora, escutar é um ato de resistência em tempos em que poucos se sentem ouvidos, inclusive dentro da própria casa, entre pais, filhos e nas escolas. “Há pessoas com um poder de escuta tão grande que são procuradas até por desconhecidos, porque nem todo mundo hoje consegue ser escutado”, observa. Ela destaca que quem escuta, reflete, acolhe e muitas vezes nem precisa opinar, pois o simples ato de ouvir já é transformador.

Ana Márcia também explica que a escuta está presente em todas as etapas do seu processo criativo: “eu só consigo escrever histórias porque observo. Eu escuto. Até ler é escutar, porque temos que ter foco no que estamos lendo. Escutar é um instrumento de trabalho. Eu elaboro personagens porque escuto pessoas, escuto o que está acontecendo.”

O Dia Mundial da Escuta é, portanto, mais do que uma data simbólica. É um convite à valorização dos sons, das palavras e das relações humanas. Escutar com atenção, prevenir a perda auditiva e adotar práticas de cuidado com os ouvidos são atitudes fundamentais para fortalecer vínculos, promover o acolhimento e construir uma sociedade mais sensível e empática. 

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