O que os bens tombados revelam sobre a história de Fortaleza?

Por 22/04/2026
O que os bens tombados revelam sobre a história de Fortaleza?

Levantamento com dados consolidados de 2022 mostra que a maior parte do patrimônio histórico protegido está concentrada no Centro, o que reflete o processo de formação urbana da Capital

Por Eduarda Pinheiro, Gabriel da Escóssia, Teodoro Freitas, Levi Mota e Wemile dos Santos

Fortaleza chega aos 300 anos e reafirma uma marca que atravessa gerações: a construção de uma identidade moldada por igrejas, praças, escolas, casarões, vilas operárias e edifícios públicos que resistem ao tempo. Esses espaços ajudam a contar a trajetória da cidade e compõem a memória coletiva de quem vive nela.

Um dos principais instrumentos para garantir essa preservação é o tombamento de bens. Segundo o historiador José Aloísio Martins, “o processo consiste em reconhecer e proteger edificações e espaços de valor histórico, de forma a assegurar sua conservação e permitir que permaneçam acessíveis à população e às atividades educativas”.

Para o historiador, que é estudante do curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor), preservar esse patrimônio é também manter viva a história dos diferentes grupos sociais que formam a cidade. Essa valorização fortalece a identidade cultural e amplia o sentimento de pertencimento da população em relação aos seus bens materiais e imateriais.

Segundo dados consolidados até 2022 pela Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor), os bens tombados em Fortaleza estão distribuídos entre as esferas municipal, estadual e federal.

No âmbito municipal, a proteção é realizada pela Prefeitura de Fortaleza, voltada principalmente para edificações e espaços relevantes para a história da Cidade.

Já o tombamento estadual, conduzido pelo Governo do Ceará, reconhece bens importantes para a história e a cultura do Estado.

Em nível federal, a proteção é feita pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e se aplica a patrimônios considerados significativos para a história do País.

A maior parte deles é protegida pelo poder público municipal, por meio da Secretaria Municipal da Cultura, o que demonstra o protagonismo da própria Cidade na preservação de sua história. Em seguida aparecem os tombamentos estaduais e, em menor número, os federais.

Gráfico que mostra a porcentagem de bens tombados em Fortaleza de caráter municipal, estadual e federal | Imagem: Arquivo pessoal

A predominância do tombamento municipal revela uma política de reconhecimento voltada para edificações e espaços de valor simbólico para os bairros e para o cotidiano da população.

São imóveis que nem sempre figuram em roteiros turísticos nacionais, mas que fazem parte da vida urbana e da memória afetiva dos fortalezenses.

Gráfico ilustra a quantidade de tombamentos por ano em Fortaleza | Imagem: Arquivo pessoal

A distribuição espacial dos bens tombados também revela desigualdades. O Centro concentra a maior parte dos imóveis protegidos, reflexo direto do processo de formação histórica da Cidade.

Foi ali que se instalaram os primeiros equipamentos públicos, igrejas, associações e edifícios comerciais que marcaram o desenvolvimento urbano.

Mapa mostra bens tombados em Fortaleza por regional | Imagem: Arquivo pessoal

Nas demais regionais, a presença de bens tombados é menor e mais pontual, geralmente ligada a equipamentos religiosos, conjuntos habitacionais históricos ou edificações que representam a expansão urbana do século XX.

Mapa de calor dos bens tombados em Fortaleza por regional | Imagem: Arquivo pessoal

Além dos tombamentos definitivos, há os chamados tombamentos provisórios, que funcionam como medida cautelar, enquanto o processo de análise está em andamento.

Em 2022, os dados mostram que esses bens também se concentram majoritariamente na Regional 12, correspondente ao Centro, seguida por regionais como a 1 e a 3. Em várias regionais mais periféricas, o número é nulo.

Segundo Ariane Silva, coordenadora do Iphan, “essa concentração ocorreu porque, durante cerca de 200 anos, a maior parte das edificações de Fortaleza concentrou-se no quadrilátero delimitado pelo mar e pelas atuais avenidas Dom Manuel, Duque de Caxias e Imperador. Por isso, uma parcela significativa do patrimônio histórico preservado está no Centro e em bairros próximos.”

Gráfico mostra a quantidade de bens tombados provisórios em Fortaleza por regional | Imagem: Arquivo pessoal

A concentração evidencia um desafio para os próximos anos: ampliar o olhar sobre a memória das periferias e reconhecer patrimônios que representam diferentes grupos sociais e períodos históricos da Cidade.

Além disso, o próprio ato do tombamento é um processo rodeado por desafios e conflitos de interesse, como explica Pedro Boaventura, professor de História da Arquitetura da Universidade de Fortaleza (Unifor). “No conflito com a renovação diária, o tombamento de certa forma dificulta a vida do proprietário. Em um país com pouca educação cultural para isso, ele não vê a possibilidade de tornar seu imóvel atraente exatamente porque foi tombado”.

Mais do que preservar fachadas antigas, a política de patrimônio cultural ajuda a contar quem somos, de onde viemos e quais histórias escolhemos valorizar. Para uma Cidade que segue crescendo e se transformando, proteger o passado pode ser também uma forma estratégica de planejar o futuro.

A metodologia desta reportagem baseou-se na análise de dados públicos consolidados até 2022 pela Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor), complementados por informações de órgãos como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Governo do Estado do Ceará. 

Os dados foram organizados e categorizados conforme a esfera de tombamento (municipal, estadual e federal), além de sua distribuição temporal e espacial. 

Para isso, foram elaboradas planilhas próprias a partir das bases oficiais, como o portal “Dados Abertos Fortaleza” , o que permitiu a construção de gráficos e mapas que evidenciam padrões, como a concentração no Centro e a evolução dos tombamentos ao longo dos anos. 

A apuração quantitativa e qualitativa foi aliada a entrevistas com especialistas, o que garantiu a contextualização histórica e a interpretação crítica dos dados apresentados.

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