O melhor River Plate da história não foi páreo para um debutante Fortaleza

Por 28/03/2025
O melhor River Plate da história não foi páreo para um debutante Fortaleza

Esta matéria faz parte de uma série de reportagens que vai relembrar a trajetória do Fortaleza em duelos contra equipes argentinas

Por Leonardo Piccinini

No dia 03 de dezembro de 2021, após uma campanha histórica na Série A, o Fortaleza conquistou a vaga na Copa Libertadores da América pela primeira vez. O time comandado por Juan Pablo Vojvoda – que ainda estava iniciando seu notável trabalho pelo Tricolor – estava prestes a enfrentar o maior desafio de sua história.

Fazendo valer a máxima de não ter sorte em sorteios, o Leão acabou caindo no mesmo grupo que o Colo-Colo, do Chile, Alianza Lima, do Peru, e ninguém mais ninguém menos que o River Plate, da Argentina – por muitos considerado o maior clube da América do Sul.

E não era qualquer River Plate. Era o River Plate do treinador Marcelo Gallardo, que detinha uma hegemonia no país e no continente há vários anos. No elenco, nomes como Julián Álvarez, Enzo Fernández e Nicolás de la Cruz. O desafio seria bem maior do que contra o Independiente, já que diferente do clube de Avellaneda, o “El Millonario” vivia uma das melhores fases de sua história.

A torcida do Fortaleza, contudo, não tomou conhecimento, e assim como contra o Rey de Copas, se mobilizou e invadiu Buenos Aires. Os argentinos que caminhavam pelas ruas não entendiam nada e se perguntavam que camisa era aquela. 

Foto: Thiago Gadelha / SVM

Bom, não demorou muito para a resposta aparecer, já que no dia 13 de abril de 2022, quando os portões do estádio Monumental de Nuñez abriram e o setor visitante começou a encher, os “hinchas” do River se assustaram com as 4.000 vozes que ecoavam do setor visitante.

Logo no início do jogo, o atacante Renato Kayzer perdeu uma chance clara de gol, e incendiou ainda mais os tricolores presentes. O baque, porém, veio mais cedo dessa vez: logo aos 10 minutos, Enzo Fernández abriu o placar para a equipe argentina.

Pouco tempo depois, aos 33 do primeiro tempo, Nicolás de la Cruz acertou uma bomba de fora da área e ampliou o marcador, deixando qualquer chance de reação ainda mais distante.

Mesmo com o placar adverso, a torcida tricolor continuou a festa e aproveitou até o último minuto a chance de ver seu clube do coração jogar em um dos mais lendários estádios do continente. Aplaudidos, os jogadores entraram no vestiário sabendo que, dali a três semanas, precisavam dar um jeito de recompensar todo o apoio que tiveram durante a partida.

No dia 05 de maio de 2022, a Arena Castelão seria palco da, até o momento, maior partida da história do Fortaleza. Um fator muito importante aumentava ainda mais o peso daquele confronto: no jogo em Buenos Aires, centenas de torcedores do Fortaleza foram vítimas de racismo por parte de argentinos. 

A CONMEBOL, como de praxe, não puniu ninguém, e tentou abafar o caso. O Fortaleza, então, resolveu dar visibilidade ao absurdo de outra maneira: com a ajuda de sua torcida.

Com as arquibancadas completamente tomadas de tricolores, um mosaico subiu pouco antes dos jogadores entrarem em campo. “Juntos na Luta”, era o que diziam as letras, posicionadas ao lado de um desenho de Pedro Basílio, um dos maiores jogadores da história do Fortaleza.

Quando as equipes entraram em campo, o primeiro mosaico desceu, e logo depois, surgiu aquele que rodou o mundo. Utilizando a língua inglesa para fazer a mensagem ecoar pelos quatro cantos, a frase “Stop Racism” estampou os setores Inferior e Superior Central do Castelão.

Mas o momento mais emocionante ainda estava por vir: quando o sistema de som soou os primeiros acordes do hino nacional, todos os torcedores levantaram a mão direita, cerraram o punho e cantaram à capela cada verso – o que se tornou uma tradição quando o Fortaleza disputa uma partida internacional.

Aquele breve momento arrepiou cada alma presente no estádio, e já fez valer o ingresso. Além de tudo, era uma mensagem clara: não toleramos qualquer tipo de preconceito. Uma pena que a CONMEBOL pense diferente, já que resolveu aplicar uma multa de punição ao Fortaleza por exibir o mosaico, sabe se lá por qual motivo. Mas isso é assunto para outro momento. 

Não deu nem tempo de processar direito aquele momento histórico, já que aos três minutos de jogo, o Fortaleza abriu o placar naquela que foi uma das jogadas mais bonitas que a equipe de Vojvoda protagonizou nos últimos anos. Lucas Crispim tocou para Lucas Lima, que cruzou a bola para a entrada da área. Crispim correu, conseguiu pegar, e passou para Sílvio Romero apenas empurrar a bola para dentro, sem qualquer chance de defesa para o goleiro Franco Armani.

A Arena Castelão tremeu de uma maneira pouco antes vista. Parecia mentira: o Fortaleza, em sua primeira participação na Copa Libertadores, estava vencendo, com autoridade, o melhor time do continente. 

A euforia, porém, não durou muito. Aos 17 minutos, Enzo Fernández deixou tudo igual após cobrar pênalti. Dali para frente, todos imaginavam que começaria a pressão argentina. Ledo engano, pois quem manteve o domínio da partida foi o Tricolor – falando de futebol jogado, uma das grandes partidas da Era Vojvoda.

Houve, ainda, lances polêmicos, e o empate ficou com um gosto amargo. Não dá para ignorar, contudo, o excelente nível de jogo praticado, em uma noite que ficou na memória de cada torcedor. Naquela Libertadores, o Fortaleza ainda chegou a golear o Colo-Colo, em pleno Monumental de Santiago. Mas isso é assunto para outro dia.

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