O Divino Escárnio: história de Jim Morrison e The Doors é analisada por escritora cearense

Banda norte-americana tem sua história destrinchada em novo lançamento de Meire Viana Por Teo Freitas The Doors em sua formação original existi

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Banda norte-americana tem sua história destrinchada em novo lançamento de Meire Viana

Por Teo Freitas

The Doors em sua formação original existiu de 1965 a 1971. Da esquerda à direita: John Densmore, Robby Krieger, Ray Manzarek e Jim Morrison | Foto: Joel Brodsky

Para os apreciadores de rock clássico, The Doors é um nome essencial da cena psicodélica dos anos 1960. Nos dias 13 e 14, os fãs da banda, assim como entusiastas pela controversa figura por trás do rockstar Jim Morrison, poderão se agraciar com a biografia “Jim Morrison: O Divino Escárnio”, com autoria de Meire Viana.

O livro está sendo lançado ao decorrer desta semana: quinta (13), no Bruta Flor (Varjota), às 19h, e sexta-feira (14), no Bar Rock 80 (Parquelândia), às 20h, contando com a presença da banda Backdoors, unindo rock e poesia. Posteriormente, no dia 28, Meire divulgará sua obra na Ria Livraria, em São Paulo, além de uma live no dia 8 de dezembro, no canal Pitadas do Sal, em celebração ao aniversário de Morrison.

O livro expõe a união entre o Jim Morrison teatral e o contemplativo, que têm a mesma urgência por transcendência: pela via exterior, performática, e pela via interior, representada pela poesia. O jovem cantor e poeta apresenta faces de um ideal utópico, não uma revolução social organizada, mas uma revolta íntima pela experiência plena. É preciso percorrer um caminho pela sua mente para desvendar a poesia de Morrison e, com sorte, captar a essência de seus pensamentos.

Meire Viana, professora e doutora em Literatura Contemporânea, reúne pesquisa e poesia experimental para compor a obra em questão. Ao longo de sua trajetória acadêmica e criativa, se identifica com escritores independentes e alternativos que estão fora das exigências convencionais. Meire também atua na poesia experimental, onde suas opções estéticas vão de encontro com o objeto de estudo atual: Jim Morrison. Suas obras exploram uma atitude teatral e performática, destacando a recitação como parte integrante do texto poético.

Não dá para falar sobre The Doors sem considerar o contexto artístico do qual os membros fizeram parte. Originada em 1961, a banda foi criada em um meio acadêmico, a partir da colaboração entre quatro colegas estudantes de Cinema e seu amor pela música, em especial o blues e o rock n’ roll. Inicialmente chamada de “Rick & the Ravens”, o grupo passou por uma reformulação no ano de 1965, quando Jim Morrison e Ray Manzarek convidaram o baterista John Densmore e o guitarrista Robby Krieger, renomeando a banda.

O nome (The Doors) expõe o fascínio que Morrison tinha pela literatura, homenageando o livro “As Portas da Percepção”. Meire explica, durante entrevista ao NewsLink, sobre essa ligação entre as referências literárias de Morrison com seu hedonismo dionisíaco: “ele leu Aldous Huxley (autor do livro), que falou sobre as portas da percepção como uma espécie de portal para você reinventar sua própria vida […] um paraíso artificial, você buscar seus prazeres fora dos dogmas da sociedade […]”. Ela cita também a figura de William Blake, grande poeta que inspirou o trabalho do Jim Morrison, especialmente através da obra “O Matrimônio do Paraíso e o Inferno”.

A banda viria a fazer sucesso a partir de 1967, com o lançamento do álbum auto-intitulado de estreia, e rapidamente se consagraram como uma das bandas mais influentes do rock, lançando hits clássicos como “Break on Through (To the Other Side)”, “Light My Fire”, “The End”, “People Are Strange” e “Riders on the Storm”.

Com o avanço da psicodelia, a banda acompanhou uma geração de artistas contraculturais dedicados a explorar temas menos convencionais, como o uso de drogas, sexualidade e violência.Meire explica como a arte deles refletia o período: “(Morrison era) filho de militar, pai que representou os Estados Unidos na Guerra do Vietnã […] também estava acontecendo o movimento hippie, festival de Woodstock, todo esse desejo de liberdade que marcou o final dos anos 60 estava nesse contexto […] a rebeldia juvenil, todos tinham 20 e poucos anos então no final dos anos 60 esse foi o grande marco da revolução musical, dos costumes, da liberdade de expressão e tudo isso”

Meire Viana com um exemplar do seu livro; ao redor, pôsteres e obras dedicadas a Morrison e the Doors | Foto: Arquivo de Meire

Apesar disso, Meire explica que o astro não buscava se enquadrar em rótulos: “Ele nunca fez parte de nenhum movimento específico […] Jim era um cara de espírito livre, mas de muitas leituras. Ele leu muita filosofia, literatura, antropologia, sociologia…” Esse traço se espelhava nos outros membros. Todos tiveram uma formação erudita e um grande conhecimento musical, tendo estudado os gêneros musicais da época: “eles escutavam muita música boa, tinham influência do jazz […] várias composições foram inspiradas no blues […] inclusive uma boa pegada da bossa nova […] eles tinham essa sensibilidade para fazer essas composições inspiradas em músicas de boa qualidade.”

Essa autenticidade fez com que a banda criasse um estilo próprio, especialmente marcado pelos solos de órgão de Manzarek, que buscavam criar uma atmosfera “gótica” ou “oculta”, acompanhada pelo lirismo mórbido de Morrison, que contrastava com as demais bandas da época, que pregavam paz e amor de uma forma pacífica: “Na verdade, o que a banda queria era inquietude e que você saísse de um estado de letargia e fosse buscar a sua liberdade de uma forma provocadora […] particularmente ele (Morrison) incitava o público a buscar e alcançar um estado de consciência que fosse bastante elevado, que fugia do padrão de bandas da época […]”, acrescenta Meire.

Morrison praticou essa estética explorando mitos, teorias e ritos em suas performances. Confrontava o medo e no palco encontrou o espaço para utilizar influências eruditas e populares que juntas compuseram sua imagem e por fim, exaustão e ruína: “[…] as letras do Jim eram o grande diferencial. Trocavam coisas muito profundas e davam um sentido existencialista à vida […]“

A escritora destaca também a complexa relação que Morrison tinha com a fama e a arte, em especial, a poesia: “Jim tinha muito receio e até diria timidez mesmo de se apresentar em lugares grandiosos”. Apesar de seu sucesso como músico, seu verdadeiro desejo era ser reconhecido como um poeta, como revelado em citação de Meire: “Jim nunca deixou de lado o seu lado poeta […] ele carregava durante as turnês os cadernos onde ele escrevia, e ele recitava também poesia durante as apresentações da banda”.

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