Morre Niède Guidon referência mundial na arqueologia e guardiã da Serra da Capivara

Por 04/06/2025
Morre Niède Guidon referência mundial na arqueologia e guardiã da Serra da Capivara

Pesquisadora revelou vestígios de presença humana com até 30 mil anos e transformou o sertão piauiense em referência mundial em ciência e patrimônio

Por Yasmin Boyadjian

Morreu na madrugada desta quarta-feira, 4 de junho, aos 92 anos, a arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon, uma das figuras mais importantes da ciência brasileira e mundial. A informação foi confirmada por Marian Rodrigues, diretora do Parque Nacional da Serra da Capivara, local que se tornou símbolo de sua vida e obra. A causa da morte ainda não foi divulgada pela equipe médica.

O impacto de seu trabalho ultrapassou os limites da arqueologia e transformou o sertão piauiense em um centro de ciência, cultura e turismo. Para Igor Pedroza, embaixador da Rede Brasileira de Reprodutibilidade, Niède foi uma referência insubstituível. “Hoje temos, mesmo que não em número ideal, uma ampla comunidade de profissionais da arqueologia no Nordeste. Devemos muito a ela. Somos formados por pessoas que vieram na esteira de todo o processo de pesquisa que ela desenvolveu na Serra da Capivara”, afirmou.

Pedroza destacou ainda o desafio de produzir ciência longe dos grandes centros e como Niède foi fundamental para revelar ao mundo o valor de um patrimônio já conhecido e respeitado pelas comunidades locais. “Era preciso alguém com formação científica, obstinação e sensibilidade para perceber que aquilo era especial e deveria ser conhecido mundialmente. Essa pessoa foi a doutora Niède.”

A estrutura do parque, reconhecida internacionalmente por sua funcionalidade e simplicidade, também é parte do legado da arqueóloga. “Não há luxo, mas há durabilidade, inteligência no uso dos recursos e um respeito profundo pela paisagem e pela história do local”, disse o arqueólogo, ressaltando que o impacto de seu trabalho se estende a profissionais formados em universidades do Nordeste que hoje atuam no Brasil e no exterior.

Nascida em Jaú (SP), em 12 de março de 1933, filha de pai francês e mãe brasileira, Niède formou-se em História pela Universidade de São Paulo (USP) em 1959. Nos anos seguintes, lecionou na França e, em 1970, voltou ao Brasil. Foi então que conheceu as pinturas rupestres da região de Coronel José Dias, no interior do Piauí, iniciando uma trajetória que mudaria para sempre a arqueologia nas Américas. 

Foto: Arquivo Fumdham

Obteve doutorado em Pré-História pela Universidade de Paris em 1975 e passou a liderar escavações no semiárido nordestino que revelaram a presença humana na região há até 30 mil anos — desafiando a teoria do Estreito de Bering, que estabelece o povoamento do continente por volta de 13 mil anos atrás.

Niède foi a principal responsável pela criação do Parque Nacional da Serra da Capivara, em 1979, e da Fundação Museu do Homem Americano, em 1980. Suas escavações resultaram na descoberta de mais de 800 sítios arqueológicos com pinturas rupestres, ferramentas e vestígios de antigos povos. Por conta de sua importância científica e cultural, o parque foi reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco em 1991.

Ao longo de sua carreira, a arqueóloga acumulou honrarias e homenagens: foi membro titular da Academia Brasileira de Ciências, recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Piauí em 2024, foi retratada em documentários e homenageada com uma ópera inspirada em sua trajetória. Também em 2024, teve seu nome eternizado na espécie de ave Sakesphoroides niedeguidonae, descoberta na região da Serra da Capivara.

Niède Guidon deixa um legado indelével. Sua obra está nas trilhas da Serra da Capivara, nos murais pré-históricos que ajudou a preservar, e nos muitos profissionais da ciência, cultura e patrimônio que ela inspirou. Foi uma mulher que desafiou fronteiras geográficas, científicas e sociais para mostrar ao mundo que o sertão guarda uma das chaves mais antigas da história da humanidade. Sua partida marca o fim de uma era, mas sua presença permanece viva na memória do Brasil e na rocha milenar que ela soube escutar como poucos.

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