Ao evitar conflito e profundidade, filme vira um desfile de cenas desconexas que protegem a imagem, mas esvaziam o personagem Por Leonardo Piccin
Ao evitar conflito e profundidade, filme vira um desfile de cenas desconexas que protegem a imagem, mas esvaziam o personagem
Por Leonardo Piccinini

Como resumir a vida inteira de alguém em duas horas? E quando se trata de uma lenda, a questão fica ainda mais complexa: os erros também devem ser mostrados, ou a imagem deve ser preservada? Estas duas perguntas norteiam os debates sobre toda e qualquer cinebiografia. Filmes como ‘Springsteen’ (2025), por exemplo, preferem fazer um recorte da trajetória do artista durante um certo período.
Outros já são mais chapa branca (expressão utilizada no jornalismo para definir algo oficialista e acrítico), como ‘Bohemian Rhapsody’ (2019), que decide contar a história de uma das maiores bandas de todos os tempos em 134 minutos.
O filme ainda altera a cronologia real de eventos para fins dramáticos, e pula o período final da vida de Freddie Mercury (que faleceu em 1991), além de não abordar sua luta contra a aids da mesma forma que ocorreu na realidade. É uma pena que ‘Michael’ (2026) se aproxime mais deste último.
São cenas que entram e saem sem consequência, como se estivéssemos folheando um álbum de highlights desconexos. Personagens surgem com promessa dramática e desaparecem antes de cumprir qualquer função.
Quando o filme apresenta Quincy Jones, por exemplo – maior produtor musical dos Estados Unidos e uma das figuras mais importantes da carreira de Michael Jackson – esperamos que ele tenha um papel central na narrativa. O que recebemos é menos de dois minutos de tela. Não há relação construída, não há troca criativa, não há conflito.
E esse vazio fica ainda mais evidente no ponto onde o filme mais precisava: a música. Não existe processo criativo. As canções simplesmente aparecem prontas, como produtos finais embalados para consumo, e toda a produção acontece offscreen.
É exatamente o mesmo problema de ‘Bohemian Rhapsody’: transformar criação em milagre instantâneo. Só que aqui isso pesa mais, porque estamos falando de um artista cuja obsessão pelos detalhes era parte central da sua identidade.
O que impede o desastre completo é a performance de Jaafar Jackson, sobrinho de Michael na vida real. Diferente de Rami Malek, que em muitos momentos parecia imitar Freddie Mercury de fora para dentro, Jaafar constrói um Michael que respira e dança assustadoramente igual ao tio.
E, ao lado dele, Colman Domingo entrega um pai que não depende de caricatura para ser ameaçador. A caracterização é precisa, e, ironicamente, é um dos poucos momentos em que o filme sugere que poderia existir um conflito real sendo explorado.
Mas, não existe. Ou melhor: o filme até toca nesses conflitos, porém nunca permanece neles o suficiente para que signifiquem algo. No fim, ‘Michael’ parece menos interessado em entender o homem por trás do mito e mais preocupado em proteger a imagem que já conhecemos. O resultado é um retrato polido, fragmentado e superficial. Um filme que passa por tudo e não se aprofunda em nada.

Isso evidencia aquele problema recorrente das cinebiografias contemporâneas: a incapacidade, ou a recusa, de escolher um ponto de vista. Ao tentar abraçar toda a grandiosidade de Michael Jackson sem assumir os riscos que essa complexidade exige, o filme se dilui em uma narrativa fragmentada, que evita conflito, simplifica relações e transforma processos em elipses.
O resultado não é exatamente uma distorção dos fatos, mas algo talvez mais problemático: um esvaziamento. Sem recorte, sem aprofundamento e sem fricção dramática, a trajetória de um dos artistas mais influentes da cultura pop se reduz a uma sucessão de momentos reconhecíveis, incapazes de revelar algo novo ou mesmo de sustentar o que já sabemos.
Mais do que uma cinebiografia falha, ‘Michael’ é um exemplo claro de como preservar demais uma imagem pode significar, no fim das contas, não dizer nada sobre ela.
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