Mário Sanders explora o desejo em série de bordados desenvolvida continuamente desde 2021

Por 11/12/2025
Mário Sanders explora o desejo em série de bordados desenvolvida continuamente desde 2021

Artista cearense apresenta produção que combina linhas têxteis e pintura em mostra itinerante em São Paulo, investigando afetos, memórias e símbolos culturais

Por Yasmin Boyadjian 

O artista visual Mário Sanders apresenta em São Paulo, em um formato intimista e itinerante, realizado em Alphaville, a série Desejo, um conjunto de obras que ele vem desenvolvendo desde 2021 e que, segundo o próprio criador, não tem data para terminar. A mostra surge de um convite especial para trabalhar com uma marca paulista, mas, mais do que um evento, representa a consolidação de um processo que Sanders descreve como “natural, contínuo e sem prazo de validade”.

Embora o coração já estivesse presente em outras fases de sua produção, foi apenas a partir de 2021 que ele passou a ocupar uma dimensão conceitual mais profunda. “Quando comecei a fazer os trabalhos com o coração, eles não tinham esse objetivo de serem parte de algo chamado Desejo. Essa ideia veio depois. Mas o coração já aparecia como símbolo; o que mudou foi a abordagem, que ficou mais sentimental”, explica o artista.

Na série Desejo, o coração é protagonista. Mas não como estampa ou elemento decorativo: ele funciona como metáfora para afetos, gostos, memórias e identificações. O artista traduz nesse símbolo as relações que estabelecemos com marcas, ídolos, objetos e experiências de um refrigerante a um time de futebol, de David Bowie a Prince, de perfumes a movimentos musicais. “É sobre o desejo de ter, de lembrar, de admirar. O coração representa tudo aquilo que provoca sentimento”, resume Sanders.

A técnica principal da série é o bordado manual, que o artista trata como gesto, textura e resistência. As obras ganham relevo, sombra e tridimensionalidade a partir das linhas, que interagem com a pintura acrílica aplicada em segundo plano. “Uma linha amarela muda completamente quando está ao lado de uma vermelha. Então, meu trabalho é buscar um equilíbrio. A linha cria textura e relevo, e a pintura entra como suporte, como atmosfera. Mas o bordado sempre prevalece”, detalha.

O jogo de cores, muitas vezes construído como um degradê, exige precisão e sensibilidade, já que a combinação entre texturas e luz pode alterar a percepção visual da peça. Ao longo desses quatro anos, a série evoluiu de forma perceptível. Os primeiros trabalhos, ainda experimentais, convivem com peças mais recentes, em que a pintura ganha espaço e a síntese aparece com mais força. “A evolução acontece naturalmente. Os últimos trabalhos têm mais pintura, uma composição mais madura, e ao mesmo tempo mais simplicidade. A ideia se torna mais transparente”, diz o artista.

Atualmente são 15 obras bordadas, mas o artista não pretende encerrar o ciclo. Ele planeja levar a mostra também para Fortaleza e manter o caráter itinerante da série. “É a primeira vez que faço tantos trabalhos dentro do mesmo tema. E não tem prazo para acabar. Vou continuar desenvolvendo, naturalmente, como um trabalho paralelo dentro da minha produção.” Paralelamente, Sanders segue criando pinturas, desenhos e novas experimentações com bordado, mas reconhece que a série Desejo se tornou um território próprio dentro de sua trajetória.

A mostra atual acontece em um espaço alternativo em Alphaville, São Paulo, circuito escolhido pelos organizadores por ainda não contarem com galeria física. O formato restrito reflete o caráter pessoal do projeto, que cresce como um diário visual do artista, costurado ponto a ponto desde 2021. Mais do que uma exposição, Desejo é uma investigação sobre como nos conectamos com o mundo por meio de afetos, símbolos e lembranças. Um trabalho que, assim como o próprio coração, pulsa, se transforma e continua.

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