Premiado em Cannes, no Globo de Ouro e em dezenas de festivais ao redor do mundo, filme recifense virou alvo de desdém de parte da imprensa brasileir
Premiado em Cannes, no Globo de Ouro e em dezenas de festivais ao redor do mundo, filme recifense virou alvo de desdém de parte da imprensa brasileira
Por Leonardo Piccinini

Enquanto ‘O Agente Secreto’ acumulava prestígio mundo afora, aqui dentro, a reação de alguns comentaristas foi marcada por reduzir, relativizar e desmerecer a jornada do filme de Kléber Mendonça Filho.
Bastaram algumas horas para que parte da imprensa brasileira reagisse à jornada internacional do longa com um repertório previsível de ressalvas, ironias e tentativas de diminuição. Ironicamente, uma obra celebrada em festivais ao redor do mundo passa a ser tratada com desconfiança justamente no país que a produziu.
Antes mesmo da noite de entrega do Oscar, o filme já havia ultrapassado a marca de 70 prêmios em festivais e premiações. Em praticamente qualquer outra cinematografia, um percurso assim seria tratado como motivo de celebração.
No Brasil, porém, antes mesmo da cerimônia terminar, diferentes veículos já noticiavam, com desdém: “Com cinco indicações, Brasil sai do Oscar de mãos vazias” – é o que diz o título de uma das matérias. O texto continua afirmando que “o mais perto do palco que o Brasil chegou foi com Wagner Moura, que subiu lá apenas para entregar a estatueta de direção de elenco”.
Não se trata de exigir unanimidade crítica. A divergência é parte essencial do debate cultural. O que chama atenção é o padrão: a rapidez com que o êxito vira alvo de relativização. Como se reconhecer um triunfo artístico brasileiro fosse, para alguns comentaristas, uma tarefa muito difícil.
Como ignorar o fato de que, no Festival de Cannes, um dos palcos mais influentes do cinema mundial, ‘O Agente Secreto’ saiu premiado nas categorias de Melhor Ator, para Wagner Moura, e Melhor Direção, para Kléber Mendonça Filho – além do prêmio da crítica internacional (FIPRESCI)? Sem falar nos 13 minutos de aplausos na noite de estreia.
No circuito da indústria, o longa venceu como Melhor Filme em Língua Não-Inglesa e com Melhor Ator, para Wagner Moura, no Globo de Ouro. Houve, ainda, múltiplos reconhecimentos de organizações críticas e associações de cinema, além de premiações voltadas ao circuito latino.
Ou seja, não foi um percurso pontual ou isolado. ‘O Agente Secreto’ atravessou festivais, crítica especializada e premiações da indústria. Soma-se a isso, claro, as quatro indicações ao Oscar. Diante desse histórico, a pergunta que fica é simples: o que exatamente está sendo relativizado?

Talvez, no fim das contas, a melhor forma de encerrar a discussão seja recorrer novamente ao próprio espírito do filme. Em meio às tensões da trama, Dona Sebastiana, personagem de Tânia Maria, sugere: “Vamos mudar esse clima. Vou botar uma música”.
Afinal, como a personagem também lembra em outra cena: “A vida tem coisa ruim, mas também tem coisas boas”. E um filme brasileiro, nordestino, premiado em Cannes, no Globo de Ouro e indicado ao Oscar, não pode ficar de fora dessa segunda categoria.
COMMENTS