‘Mãe sem a Outra’: Glória Diógenes escreve sobre perdas e o parto silencioso da palavra feminina

Por 07/11/2025
‘Mãe sem a Outra’: Glória Diógenes escreve sobre perdas e o parto silencioso da palavra feminina

Autora transforma o luto gestacional em literatura viva, bordando o invisível e revelando o poder político do afeto, arquitetando fios entre gerações maternas

Por João Xavier 

Entre ventre e verbo, Glória Diógenes transforma ausência em presença. A obra percorre o silêncio das perdas gestacionais e o transforma em matéria viva, tecendo uma micropolítica da existência — íntima, feminina e radicalmente humana. O livro ‘Mãe sem a Outra’ chega às bibliotecas pelo primeiro lançamento da obra no Museu da Imagem e do Som (MIS), neste sábado, 8 — na Praça do MIS, às 17h30.

“Criar da dor uma potência é um gesto político”, diz a socióloga. A fala de Glória não vem de um lugar distante nem de uma visão abstrata, vem da realidade de várias mulheres. Em sua mais nova obra, a escritora aborda a perda gestacional e o nascimento da figura materna, mesmo sem o brilho de dar à luz.

Em cada linha, há uma tentativa de costurar algo que não chegou a nascer. Glória escreve para que o silêncio das mulheres, tantas vezes silenciados e descartados, encontrem corpo. Não é apenas uma narrativa sobre perdas, mas um campo onde afeto e política se correlacionam, onde o íntimo ganha densidade pública — que comove as pessoas.

“O ‘Mãe sem a Outra’, eu penso como fosse um embrião de mim que se tornou grande, se tornou crescido, e acho que esse gesto é chamado de micropolítica da existência”, afirma a escritora — transformando sua experiência em livro, e um manifesto.

Glória Diógenes fala de política como quem fala da própria vida. “Eu gosto muito dessa forma de criar outros jeitos de ser — nas frestas, naqueles lugares onde a gente, naturalmente, pensa que não faz política, mas é nestes lugares onde a política assume robustez, onde a subjetividade se constrói”. Para ela, o gesto de escrever é um modo de resistir ao mundo normativo, de ocupar o corpo e o silêncio com palavras e sentido. “Essas incorporações da subjetividade são muito importantes no mundo, principalmente onde se fala em coisas amplas, abstratas e generalizadas, em modelos fictícios, performáticos de felicidades”.

A socióloga defende uma escrita que se derrama, que inscreve o íntimo como ato público: “A escrita desse jeito, não só com essa temática, mas com essa forma de derramamento, de inscrição de si, de produção de novos continentes existenciais, significa um terreno de política que acho que se faz muito necessário. Uma maneira de habitar o mundo de dentro pra fora — uma micropolítica entranhada na vida, nas dores e nas frestas onde a solidão insiste.

Sobre o processo de criação, Glória fala com delicadeza de quem entrega algo com alma: “A gente não espera muita coisa quando escreve um livro, é como ter um filho — a gente espera, mas a gente entrega ao mundo”. Para ela, ‘Mãe sem a Outra’ é essa entrega: “Um fio entre gerações, um fio entre mulheres, mães, avós — toda uma linha ancestral de silêncio, de dores e também de alegrias”.

Mais do que um livro sobre a perda ou micropolítica, é um gesto de passagem. “Eu gostaria que esse livro iluminasse a voz, potencializasse a voz, a vontade de dizer, a vontade de contar a própria história, de sombras e fazer delas um espaço de linguagem, de luminosidade da fala, de fios que se encontram, porque se falam de uma forma intensa e inteira”.

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Capa do livro feito pela doutora em sociologia

Serviço

Lançamento do livro ‘Mãe sem a Outra’ | 8 de novembro de 2025 às 17h30 | Museu da Imagem do Som, Praça do MIS,  Praça Barão de Studart, 410 Fortaleza, Ceará | Link para compra do livro:  Mãe sem a Outra

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