Lei incentiva diagnóstico tardio de autismo e expõe estigmas e desafios em adultos e idosos

Por 21/11/2025
Lei incentiva diagnóstico tardio de autismo e expõe estigmas e desafios em adultos e idosos

Nessa faixa etária, estar no espectro significa anos de sintomas não tratados e mal interpretados. As novas diretrizes buscam ampliar o cuidado, atenção e reconhecimento

Por Laíssa Esmeraldo

Durante muitos anos, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) foi quase exclusivamente associado à infância, o que fez com que adultos e idosos no espectro permanecessem, em grande parte, fora de debates e de cuidados especializados. Com a recente Lei nº 15.256/2025, ganha força a proposta de ampliar o diagnóstico também nessas fases da vida, buscando oferecer mais reconhecimento, inclusão e suporte.

A neuropsicóloga Ana Paula Ximenes é otimista quanto à essa nova lei. Ela diz que o incentivo ao diagnóstico em adultos e idosos mostra a preocupação com um sofrimento que não pode ser ignorado. A pessoa que o recebe tem a chance de reorganizar a própria vida “a partir de uma lente que faz sentido”.

Da mesma forma, o psiquiatra Gabriel Fontenele reconhece que a lei é inegavelmente positiva, sim, para pacientes com autismo de fato. Mas, relata seu receio quanto à “inflação diagnóstica dentro do autismo nível 1”, que já vem acontecendo. 

Ele diz ter percebido que existem clínicas especializadas em emitir laudos de autismo. Essa percepção ganha relevância em um cenário no qual, os dados do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) mostram que 2,4 milhões de brasileiros se declararam diagnosticados com TEA. 

Ainda assim, o número real pode ser maior, já que muitos adultos e idosos no espectro não são contabilizados por terem seus sintomas confundidos com outros transtornos. TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), ansiedade social, transtornos de personalidade ou até quadros depressivos, são alguns deles. A distinção, porém, está na origem, no padrão e na consistência desses comportamentos ao longo da vida, explica a neuropsicóloga.

Os sinais de autismo em adultos e idosos se manifestam diferente do que como os observados na infância. Muitos desenvolvem, ao longo da vida, estratégias de enfrentamento para lidar com as dificuldades, mascarando sintomas e dificultando o reconhecimento do TEA. Sintomas sobrepostos e o próprio mascaramento de sintomas estão entre esses fatores que tornam o diagnóstico mais difícil.

A servidora pública, Karina Uchôa, que recebeu seu diagnóstico aos 44 anos, conta que desenvolveu estratégias – máscaras – para conseguir passar pelos desafios do dia a dia. “Eu me adaptei porque precisava sobreviver. Fui encontrando ferramentas, formas de agir e estratégias para caber em ambientes que não foram feitos para mim”.

No entanto, mesmo com avanços nas técnicas de avaliação de sintomas e o crescente número de estudos acerca do tema, o diagnóstico de TEA em adultos ainda costuma ser tardio. Os sintomas do autismo não surgem na adolescência nem na vida adulta. Eles estão presentes desde a infância. 

Por isso, o médico psiquiatra explica que no caso de adultos e idosos, é necessário reconstruir cuidadosamente toda a história de desenvolvimento, realizando uma avaliação pregressa. Esse processo representa um grande desafio de identificação de sinais na infância, tornando a investigação diagnóstica bem mais complexa.

Mas, quando o diagnóstico é dado, a pessoa passa a entender melhor as necessidades, limites e as formas de buscar apoio adequado. Para a gestora pedagógica Graça Quixadá, diagnosticada aos 40 anos, a constatação do TEA despertou a autocompreensão. “A minha autoimagem mudou. Em vez de me enxergar como exagerada, difícil, estranha ou inadequada, passei a entender meus padrões, ritmos, forças e desafios”. 

Da mesma forma, Karina fala que a confirmação do seu diagnóstico mudou, principalmente, a forma como ela se cobra, e entendeu que existe em si um limite biológico, e não moral. Hoje, ela é mais autocompassiva, e fala que aprendeu a respeitar seus limites. 

O psiquiatra explica que, diferentemente da criança, a abordagem terapêutica para adultos e idosos no TEA é focada na melhoria da qualidade de vida, com intervenção na linguagem, na interação social e na autonomia, pois o paciente já tem uma cognição firmada. 

Ana Paula completa essa fala afirmando que na infância, o diagnóstico abre portas para intervenções precoces, adaptações e apoio estruturado para o desenvolvimento. Já na vida adulta, abre portas para uma reconciliação interna. “O adulto já carrega anos de tentativas frustradas de se encaixar, cobranças sociais, rótulos equivocados e feridas emocionais”. 

O diagnóstico tardio pode trazer implicações emocionais e práticas. Ao mesmo tempo, costuma vir acompanhado de alívio, ao oferecer uma explicação para desafios e vivências ao longo da vida. O estigma, porém,acaba por inibir o paciente e familiares na hora de incentivar a busca por ajuda. 

Graça, relata que “quando o diagnóstico chega, ele costuma causar uma mistura de emoções: alívio por finalmente compreender a si mesma; validação ao perceber que suas dificuldades tinham uma explicação legítima; mas também dúvidas e medos, sobre como lidar com essa nova identidade, como será vista e o que precisará reorganizar na vida”.

Diferente de Graça, Karina sentiu raiva. “Não achei justo ter passado uma vida inteira me esforçando o triplo sem saber o motivo”. No entanto, revela que está trabalhando a aceitação na terapia, “não porque eu ‘ame’ o diagnóstico, mas porque ignorar ele não muda a realidade”.

Para muitas pessoas, o diagnóstico abre acesso para construção de uma rede de apoio, formada por familiares e profissionais de saúde. Nesse processo de “reorganização da vida”, o pós-diagnóstico inclui psicoeducação, psicoterapia, eventual reabilitação neuropsicológica e suporte ocupacional.

O autismo pode ser diagnosticado por meio de uma avaliação clínica feita por neurologistas, psiquiatras ou psicólogos | Imagem: Freepik

Ajustes na rotina também tornam-se essenciais para melhorar a qualidade de vida. Graça relata que, após aceitar sua condição, reorganizou hábitos, procurou um terapeuta especializado, estabeleceu limites e passou a evitar situações sensoriais desgastantes, além de adotar uma rotina estruturada.

Karina, por sua vez, mudou sua gestão de energia. “Ajustei a minha vida: evito situações que me esgotam de graça e faço mais terapias para manter o funcionamento equilibrado”.

Ambas ressaltam que sempre existiram adultos e idosos autistas, que passaram uma vida sem diagnóstico. Graça lembra que “o autismo não é coisa de criança, nem está ligado apenas a sinais visíveis ou comportamentos óbvios”. 

Karina resume: “o autismo é sentido, não visto. Ele fica guardado dentro de nós. E, como ninguém vê, acham que não existe”. Tendo isso em vista, o reconhecimento do TEA em adultos e idosos é um caminho para se ampliar o acolhimento dessas pessoas e melhorar o entendimento sobre a neurodiversidade. 

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