Jandaias-verdadeiras crescem em Fortaleza como símbolo de esperança e transformação ambiental

Por 22/10/2025
Jandaias-verdadeiras crescem em Fortaleza como símbolo de esperança e transformação ambiental

Após décadas ameaçada, a ave reaparece, une comunidade, move projetos e reacende a esperança pela preservação da fauna cearense

Por Leonardo Oliveira 

Conhecida por suas penas verdes, amarelas e alaranjadas, a jandaia-verdadeira ou simplesmente jandaia, é mais do que uma ave é parte viva do imaginário cearense. Imortalizada logo nos primeiros versos de Iracema, de José de Alencar, “Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba” a espécie tornou-se um símbolo afetivo do Nordeste e da própria identidade do Ceará.

O canto que inspirou a literatura e encantou gerações, no entanto, quase foi silenciado nas últimas décadas. A ave sofreu um forte declínio populacional, sendo hoje considerada em perigo de extinção pela Lista Vermelha da Fauna do Ceará.

Foi apenas recentemente, com o reaparecimento de bandos nos bairros Cajazeiras e Luciano Cavalcante, que a jandaia-verdadeira voltou a despertar a atenção dos moradores de Fortaleza. Um censo realizado pela ONG Aquasis, em parceria com o Parque Arvorar, em setembro de 2024, registrou 47 indivíduos vivendo no carnaubal do bairro Cajazeiras. Um número simbólico, mas ainda modesto diante do passado abundante da espécie. Estimativas apontam que menos de 250 jandaias-verdadeiras maduras sobrevivem atualmente em todo o Ceará, o que reforça o alerta para a urgência na conservação desse ícone da fauna cearense.

O terreno conhecido como “Carnaubal das Jandaias”, localizado na região da comunidade Villa Verde, no bairro Cajazeiras, em Fortaleza, tornou-se o principal ponto de concentração da jandaia no Ceará. A área abriga uma vegetação rica em espécies frutíferas e carnaúbas, essenciais para a alimentação e o abrigo das aves.

Suzete Bastos, uma das representantes da conservação da ave na comunidade Villa Verde, em Fortaleza I Foto: Instagram pessoal 

Segundo Suzete Bastos, bióloga e moradora do bairro, a presença das jandaias foi percebida logo que se mudou para a região. “Quando vim morar aqui, há dois anos, conheci o Charles, um rapaz que toma conta desse terreno, onde hoje é o Carnaubal das Jandaias. Ele me contou que tinha visto duas aves que pensava serem araras, mas eram jandaias. A partir desse casal, mais jandaias começaram a aparecer”, relata Suzete.

Com o tempo, ela percebeu que o canto da jandaia estava forte e muito próximo. “Escutei seis jandaias ao lado da minha casa e consegui gravar um vídeo no celular”, lembra.

Estes registros foram compartilhados com Fábio Nunes, do projeto Aquasis, e com o ornitólogo Ciro Albano, que ficaram animados e se surpreenderam com o número de aves encontradas. “O Fábio ficou encantado quando veio aqui. A partir disso, ele realizou levantamentos junto ao Parque Arvorar sobre as jandaias da Cajazeiras”, explica Suzete.

Terreno do Carnaubal das jandaias, com várias carnaúbas no bairro cajazeiras em Fortaleza
Foto: Leonardo Oliveira 

Com a descoberta, a bióloga e outros moradores passaram a desenvolver ações de educação ambiental no bairro. “Começamos um trabalho de conscientização com os próprios moradores, voltado à preservação da espécie e do habitat”, conta.

Ao lado da veterinária Ariane Braga, Suzete criou um projeto voltado à divulgação e preservação das jandaias. “Decidimos criar um perfil no instagram para compartilhar informações, notícias e eventos relacionados às aves. Hoje, muitos turistas vêm à região para observar as jandaias daqui”, afirma.

Além das jandaias, o terreno abriga outras espécies da fauna local. “Aqui também há pica-paus, que abrem ninhos nas carnaúbas. Depois que eles partem, as jandaias aproveitam esses espaços como abrigo”, complementa.

Jandaias em suas tradicionais ocas em uma carnaúba I Foto: Fábio Nunes/Aquasis

Suzete ressalta ainda o papel da carnaúba, árvore símbolo do Ceará para a jandaia. “A carnaúba é uma palmeira típica da caatinga, importante para o equilíbrio ecológico. Suas palhas têm grande valor e, para a jandaia, servem de abrigo e alimentação”, explica.

Para Karen de Sousa, graduanda em Ciências Ambientais pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e responsável por uma pesquisa sobre a distribuição atual da jandaia-verdadeira, a ciência cidadã tem desempenhado um papel fundamental na conservação da espécie.

A partir de registros colaborativos em plataformas como o WikiAves, Karen vem mapeando as áreas de ocorrência e recolonização das aves, além de identificar zonas prioritárias para a conservação dentro de Fortaleza.

Placas com informações sobre a ave em frente a lagoa Maria Vieira no Bairro Cajazeiras
Foto: Leonardo Oliveira 

“Fortaleza, hoje, é o município com o maior número de registros da jandaia-verdadeira no estado. Isso se deve, em parte, à presença de áreas verdes remanescentes, como o Carnaubal de Cajazeiras e o campus da UECE, que oferecem alimento, abrigo e locais de reprodução para a espécie”, explica a pesquisadora.

Apesar de ser amplamente reconhecida como símbolo do Ceará, a jandaia-verdadeira não possui esse título de forma oficial. “Diferentemente de estados como o Rio Grande do Sul, que instituiu o quero-quero como sua ave-símbolo, o Ceará não tem uma legislação que reconheça formalmente a jandaia-verdadeira como ave-símbolo. Esse reconhecimento surgiu mais por tradição cultural, histórica e afetiva do que por norma jurídica”, destaca Karen.

QR Code para contribuir com o projeto das Jandaia

A ONG Aquasis e a Associação Caatinga, em parceria com o Parque Arvorar e o Beach Park, desenvolvem o projeto Refauna Arvorar, que busca reintroduzir espécies ameaçadas em áreas naturais do Ceará. A jandaia-verdadeira é uma das espécies prioritárias, ao lado do periquito cara-suja, que já foi reintroduzido com sucesso na Reserva Natural Serra das Almas, em Crateús.

O retorno da jandaia-verdadeira aos céus de Fortaleza é mais do que um sinal da força da natureza, é prova de que com envolvimento comunitário, ciência cidadã e respeito ao meio ambiente, ainda há tempo para reverter histórias de perda e transformar símbolos ameaçados em emblemas de esperança.

Jandaia-verdadeira já foi comum no Ceará, mas atualmente está ameaçada de extinção
Foto: Fábio Nunes/Aquasis

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