Jamil Chade reflete a soberania brasileira e o estado distópico da democracia ao redor do mundo

Jornalista brasileiro foi finalista do Prêmio Jabuti e divulga suas reflexões durante lançamento do novo livro Téo Freitas Da esquerda para a d

Tramas que celebram Fortaleza: mostra destaca a força do bordado e do fazer coletivo cearense
Festival Sérvulo Esmeraldo chega à sexta edição e movimenta a cena cultural do Cariri 
Davi Alcolumbre arquiva projeto de PEC da Blindagem, após rejeição unânime da CCJ

Jornalista brasileiro foi finalista do Prêmio Jabuti e divulga suas reflexões durante lançamento do novo livro

Téo Freitas

Da esquerda para a direita estão os professores Helena Martins (Andes-SN), André Ferreira (Adufc-Sindicato), o mediador Pedro Costa Jr. (Sinduede) e Jamil Chade segurando o microfone

O jornalista Jamil Chade retorna ao Brasil após temporada na Suíça e Estados Unidos, trazendo consigo debates pertinentes sobre o momento e sociedade em que vivemos. Sua visita ao Ceará contou com dois encontros nos entornos do campus Benfica da UFC, em celebração aos 20 anos do curso de jornalismo da universidade. As palestras foram acompanhadas por alunos no dia 20, e no dia seguinte, por repórteres e jornalistas do ANDES-Sindicato Nacional, que cobriram também a divulgação do seu livro: “Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana”.

O livro está sendo publicado pela Editora Nós e reúne crônicas escritas por Jamil Chade acerca do cenário sociopolítico dos Estados Unidos, especificamente o governo de Donald Trump e as implicações desse fenômeno à democracia internacional e aos direitos humanos, além de outras questões envolvidas, como os perigos da desinformação.

Correspondente internacional há mais de 20 anos, atualmente trabalha para o canal UOL e já contribuiu para outros veículos brasileiros e internacionais, tendo se destacado a princípio no Estadão. Descendente de libanês, Jamil está inserido dentro do movimento do decolonialismo, especialmente no que diz respeito à causa da libertação palestina e a luta pela autodeterminação dos povos.

Justamente por isso, a palestra do dia 21 foi marcada por discussões pertinentes, Jamil aproveita para dar gancho a temas de relevância no cenário brasileiro, destacando principalmente o papel do povo nordestino na defesa da democracia nacional contra os golpistas de janeiro de 2023. Reforça também que, diante de todas as crises que acompanhamos nos últimos anos, o povo deve começar a ser mais participativo na defesa da democracia, e que a política não se limita ao voto: “Não é uma coisa que só pode ser falada de 4 em 4 anos”.

Dentre os temas abordados, o fim da escala 6×1, a inclusão de uma vida digna às pessoas mais pobres é a chave para o caminho à uma democracia plena. Para Jamil, “o modelo de democracia brasileira não é o que está vigente”, e está de acordo com repostas de reduzir as jornadas de trabalho e taxação de super fortunas, dando como exemplo outros países capitalistas onde o fim da escala foi uma possibilidade, como a Suíça, sua antiga residência. Jamil explica como essas privações são um dano à democracia: “a concentração de poder e recursos está na base desses desafios”

Outro ponto em destaque foi a defesa pela soberania, especialmente no que diz respeito às tentativas de intervenção norte-americana no Brasil. Jamil explica o plano de controle da direita americana em alinhar os governos da América do Sul para si: até agora seis países (Argentina, Bolívia, Equador, Guiana, Paraguai e Peru) são governados por simpatizantes de Donald Trump. Pesquisas também apontam que a próxima eleição no Chile pode cair para esse lado. “A joia da coroa é o Brasil”, comenta ao lembrar que as eleições do próximo ano serão definitivas para o futuro da soberania brasileira.

Em seu discurso, Jamil defende que o Brasil tem capacidade para ser autônomo, e o que os Estados Unidos representam no momento é o desejo de uma nação externa de decidir e controlar o que devemos fazer: “estamos sendo elogiados no exterior pela forma como estamos combatendo o autoritarismo”.

Um dos cartazes que representam a política anti-migratória americana. O texto traduzido convoca cidadãos a “ajudar o país e reportar todos os invasores”. O cartaz não diferencia imigrantes legais dos irregulares

Ainda sobre a questão norte-americana, Jamil aproveita o debate para explicar a temática do seu livro: “Tomara que você seja deportado” foi inspirado principalmente por episódios de racismo que seus filhos sofreram enquanto nos Estados Unidos, cuja experiência foi descrita por Jamil como sendo “assustadora”: hoje existe mais de 60,000 imigrantes presos nos Estados Unidos […] a maioria sem ficha criminal”, e expõe as entrelinhas por trás de cartazes governamentais promovendo a limpeza étnica dos Estados Unidos, dando destaque especial à “convocação” de cidadãos americanos ao ICE, o órgão de deportação do país.

Em defesa de sua profissão, Jamil reforça a importância dos dados recolhidos: “Não sou eu que estou dizendo isso, mas os dados indicam que a nossa democracia está ameaçada”. Como jornalista,  ele entende que o intuito de legitimar sua pesquisa é combater o descrédito da imprensa causado pelo negacionismo, outro dano para o exercício da política democrática: “A desinformação é fabricada, e é dever do jornalismo combater esse perigo”.

A professora Helena Martins acompanha Jamil em ambas ocasiões, pelas quais acrescenta pontos cruciais ao seu discurso: reforça a importância de entender o curso da história e os perigos da desinformação como um catalisador do aceleracionismo: “A ideia de que a história é linear e passa como um trem desgovernado é equivocada […] às vezes nós temos que puxar o freio”, citando Hannah Arendt, filósofa perseguida durante a Alemanha Nazista, em sua afirmação de que a mentira é “uma desconstituição sobre o presente e a capacidade de ver o futuro […] se a gente não consegue discutir quais são os problemas reais da nossa sociedade, a gente não vai conseguir nem entender o presente e muito menos planejar o futuro….”

COMMENTS

WORDPRESS: 0
DISQUS: