Inteligência artificial (IA) prejudica profissionais da psicologia em sessões de terapia

Por 19/08/2025
Inteligência artificial (IA) prejudica profissionais da psicologia em sessões de terapia

Consequência da epidemia da solidão, programas que simulam personagens e conversas atrapalham abordagens psicológicas

Por Kelly Sampaio

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou, em janeiro deste ano, que a epidemia de solidão, fenômeno crescente que afeta número significativo de pessoas, é uma ameaça à saúde pública. Caracterizado por uma sensação constante de isolamento social e desconexão emocional, mesmo em ambientes urbanizados e repletos de interações, tem sido amplamente estudado e preocupa especialistas da saúde, pois afeta não apenas o bem-estar psicológico, mas também a saúde física do indivíduo.

Como forma de combater este fenômeno, sessões de psicoterapia podem ser bastante úteis. Profissionais em psicologia ao redor do mundo estão à disposição para atender a população e ajudá-los com as suas próprias questões. Entretanto, a inteligência artificial (IA) surge como uma resolução e, ao mesmo tempo, uma problemática a esta situação. Cerca de 12 milhões de brasileiros fazem terapia com IA e isso cria um agravante para a problemática da epidemia de solidão, uma vez que as respostas geradas pelo programa de computador são extremamente empáticas e não passam pelo processo de auto reflexão que a psicoterapia fornece.

“Estamos num contexto econômico, político e social onde há mais sofrimento e o sofrimento se torna um combustível para você sempre produzir. Quanto mais sofrimento e menos possibilidade de acesso a um espaço, um espaço psicoterápico de aprender a lidar e estar com esse sofrimento, mais pessoas vão procurar a inteligência artificial”. Afirma o psicólogo Idenor Neto ao ser abordado sobre a procura de programas de inteligência artificial para fazer sessões de terapia.

“A pessoa que vai para o IA está mais disposta a ter uma asseguração, uma confirmação de quem é, um apreço ao narcisismo onde o programa vai respondê-lo e vai se sentir bem, além de ser diagnosticado com um recorte linguístico perfeito. Quando na verdade o paciente só oferece dados e recebe respostas”, complementa Neto. “Um livro muito interessante para aqueles que buscam saber mais sobre o assunto é “O sujeito na era digital” de Cláudio Akimoto e Leonardo Goldberg, porque eu acho que é isso que a gente deveria fazer, abrir a porta para mais pessoas conversarem, para mais pessoas perguntarem sobre. É o que vamos fazer daqui para frente”, sugere o psicólogo. 

A curto prazo, a inteligência artificial pode ser uma alternativa viável para pessoas que não têm condições de custear uma sessão com um psicólogo ou estão na lista de espera para uma terapia, entretanto, o comodismo pode atrapalhar tanto o profissional em psicologia quanto o paciente. Em exemplos mais extremos, os chatbots (programas de IA que simulam algum personagem ficcional) são acusados de oferecer conselhos prejudiciais.

“Eu, como psicólogo ativo hoje em dia, vejo que alguns pacientes reclamam ou até dizem que estava há alguns meses em terapia com o ChatGPT, e percebeu que estava pior do que antes. Muita gente foi tentada a fazer isso porque ele está lá, acessível”, afirma o psicólogo Paulo Borba ao ser questionado sobre pacientes em terapia usarem inteligência artificial para se consultar.

“Eu pessoalmente espero que o que aconteça seja uma regulamentação da inteligência artificial”, continua Borba. “Não me sinto arriscado, mas eu já consigo ver como ela arrisca, porque a sociedade hoje está doente no sentido de não ser ouvida de fato. Muitas pessoas se sentem sozinhas, abandonadas, então elas se colocam em vários locais que antigamente poderia ser um diário. E agora a gente tem a inteligência artificial onde as pessoas conversam com ela, é uma possibilidade, onde não é uma pessoa, do outro lado, ao mesmo tempo que é. E ao mesmo tempo se tem uma réplica, se tem uma resposta, se tem um espelhamento, é uma problemática.”

Disponíveis 24h por dia, os diferentes tipos de IA apenas respondem o que o usuário quer ouvir, sem causar neles um sentimento de desconforto necessário numa terapia convencional, que faz o paciente continuar a pensar e desenvolver aquele sentimento para além da sessão e retorná-la melhor trabalhada. Em uma conversa com uma inteligência artificial, ela vai responder a comandos específicos que, em sua maioria, condicionam o usuário ao básico de respostas pré-programadas de autoajuda.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) decidiu criar um grupo de trabalho que propunha a regulamentação do uso de Inteligência Artificial na área da Saúde. A primeira reunião do Grupo ocorreu no dia 14 de julho e reuniu diversas entidades com o intuito de construir diretrizes relacionadas ao tema. Com mais de 50 participantes, estavam parlamentares, representantes dos Ministérios da Saúde e da Cîência, Tecnologia e Inovação, e do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS), além de vários conselhos federais de profissões regulamentadas na área da saúde, associações e entidades representativas voltadas à saúde e à IA.

Embora a solitude seja uma experiência humana comum e necessária, a sua prevalência e intensidade em forma de solidão, configuram impactos negativos significativos no bem-estar das pessoas, especialmente dos jovens e idosos, numa média de uma em cada quatro pessoas. O uso excessivo de tecnologia e redes sociais, são um dos fatores que mais contribuem para a proliferação da epidemia de solidão atualmente, junto a isso, o trauma causado pela pandemia do coronavírus é outro fator recorrente para a causa da epidemia de solidão. 

Procurar espaços de convivência que compartilhem interesses em comum; se reconectar com amigos e familiares em espaços saudáveis e de preferência presenciais; descobrir novas paixões e interesses (hobbies); praticar atividades físicas e de relaxamento e, principalmente, limitar o uso da tecnologia ao longo do dia são algumas maneiras de combater este fenômeno que já está quase praticamente consolidado na sociedade.

Veja também