Com oito décadas de carreira, a atriz celebra uma vida inteira de arte e impacto cultural, mantendo-se como uma das maiores referências de interpretação no Brasil
Por Letícia Nunes

“Tenho um otimismo realista, porque a condição humana é falha. Todos nós somos atores nesse palco que é o mundo”, é o que diz a atriz Fernanda Montenegro, em uma de suas frases marcantes. A Dama do Teatro Brasileiro, completa 96 anos, nesta quinta-feira, 16, e segue como símbolo de arte, resistência e humanidade.
Com 80 anos de trajetória dedicada à dramaturgia brasileira, Fernanda continua encantando gerações. Ela é considerada uma das maiores atrizes do Brasil, devido ao seu extenso trabalho no cinema, teatro e televisão. Fernanda também é escritora imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL).
O artista e jornalista cearense Aldernes Mendes conta que a admiração pela atriz iniciou antes mesmo de começar na profissão como ator, e que sua criança interior foi a primeira pessoa que se apaixonou pelo trabalho de Fernanda. “Sempre fui uma criança que assisti muita novela e toda vez que via Fernanda em uma novela ou em um filme, era totalmente atingido pelo trabalho dela e pela grandeza que carrega na atuação”.
Mesmo sendo um artista de geração diferente da de Fernanda, para Aldernes, a presença da veterana no cenário artístico atual é algo fundamental. “Ela acrescenta muito, porque a Fernanda é uma atriz que é totalmente visceral. É uma atriz genuína. É dela, é do corpo dela. Ela foi, talvez na minha concepção, predestinada. Nasceu para ser uma atriz. Então, tudo que fala e tudo que faz, vem do fundo da alma”. Aldernes reforça que a presença da atriz é fundamental e que se sente guiado por ela, pois Fernanda o inspira da cabeça aos pés em todos seus trabalhos e falas.

Aldernes revela, ainda, que o livro favorito é o “Ato, Prólogo e Epílogo”, escrito pela atriz e publicado em 2019. “Eu me emocionei do início ao fim e em cada frase, em cada palavra dita, em cada nuance que esse livro traz, pude entender um propósito e fico muito agradecido por viver no mesmo tempo que Fernanda Montenegro”, ressalta o jornalista.
Obra artística
Arlette Pinheiro Monteiro Torres, conhecida pelo nome artístico de Fernanda Montenegro, nasceu em 1929, no Rio de Janeiro. Fez sua primeira peça aos oito anos de idade em uma igreja. Estreou como atriz profissionalmente nos palcos ao lado do seu marido, o também ator, Fernando Torres, em 1950, no espetáculo “3.200 Metros de Altitude”, de Julian Luchaire. Foi uma das fundadoras da influente companhia teatral Teatro dos Sete, em 1959, também ao lado do marido.
Participou de mais de 20 peças teatrais. Em 1951, tornou-se a primeira atriz contratada da TV Tupi, e a partir daquele momento não deixou mais de atuar. Na Globo a artista fez novelas marcantes como “Guerra dos Sexos” e “Belíssima”. No cinema, se eternizou no filme Central Brasil, papel que a levou a concorrer ao Oscar e ficar conhecida mundialmente.
Vida pessoal
Fernanda se casou em 6 de abril de 1953, com o ator Fernando Torres, dois anos mais velho. A união durou até a morte dele em 2008, vítima de enfisema pulmonar, 56 anos após o casamento. O casal de artistas teve dois filhos, que também seguiram carreiras artísticas. O mais velho, Cláudio Torres, é diretor, roteirista e produtor de cinema. A mais nova, Fernanda Torres, é atriz, escritora e roteirista. Ela também é avó de três netos: Joaquim e Antônio (filhos de Fernanda Torres) e Davi (filho de Cláudio Torres).
Premiações
Fernanda Montenegro foi vencedora do prêmio de Atriz Revelação da Associação Brasileira de Críticos Teatrais, em 1952, por seus trabalhos em “Está Lá Fora um Inspetor”,e em “Loucuras do Imperador”.
Foi ganhadora de um Urso de Prata no Festival de Berlim e recebeu indicações ao Globo de Ouro e ao Oscar de melhor atriz por seu trabalho em “Central do Brasil”, sendo a primeira mulher latino-americana, lusófona e brasileira a ser indicada nesta categoria. Recebeu indicação ao Oscar na categoria “Melhor Atriz”, com o filme “Central do Brasil”.
Fernanda foi condecorada com a maior comenda que um brasileiro pode receber da Presidência da República, a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito “pelo reconhecimento ao destacado trabalho nas artes cênicas brasileiras”. Foi premiada no Emmy Internacional pela interpretação na série “Doce de Mãe”, se tornando a primeira brasileira a vencer a premiação na categoria de melhor atriz. Também foi eleita a 15ª celebridade mais influente do país pela revista Forbes.


