Feiras agroecológicas crescem e são uma opção saudável em Fortaleza

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As feiras unem produção local, alimentos sem veneno e vínculos de confiança entre campo e cidade. Esta matéria encerra a série especial sobre alimentação saudável

Por Beatriz Duarte e Julyana Lima

Fachada da Feira Caroá, referência em produtos orgânicos em Fortaleza | Foto: Julyana Lima

Na contramão do uso desenfreado de agrotóxicos que ainda marca grande parte da produção agrícola brasileira, iniciativas como a Feira Caroá, em Fortaleza, ganham cada vez mais espaço na rotina de quem busca uma alimentação saudável, com responsabilidade ambiental e conexão direta com o campo. Localizada no bairro Dionísio Torres, a feira é um refúgio agroecológico em meio ao concreto da cidade.

Quem acompanha de perto o movimento é o gerente Lailson Duarte, de 61 anos, que trabalha na loja há quatro anos. Ele conta que a Feira Caroá surgiu há nove anos, idealizada por sua filha Rayssa Duarte e seu genro Vitor Vasconcelos, e segue crescendo com base em princípios sustentáveis e no respeito ao alimento.

“Nós temos certificações que comprovam que os produtos são realmente orgânicos. Isso é o diferencial da Feira Caroá em relação às convencionais”, afirma Lailson Duarte | Foto: Julyana Lima

A feira é abastecida com produtos vindos de uma cooperativa fundada pelos próprios produtores, composta por um conjunto de sítios localizados na Serra da Ibiapaba, em municípios como São Benedito, Guaraciaba do Norte e Tianguá. Para complementar o mix de frutas e legumes, alguns produtos são importados, como maçã, pera e kiwi.

Mais do que um ponto de venda, a Feira Caroá se sustenta na confiança mútua com seus clientes. Segundo Lailson, muitos consumidores chegam por indicação e se tornam fiéis.

“As pessoas perguntam, sim, sobre a procedência. Mas nós já temos essa credibilidade. A maioria dos nossos clientes é por indicação” afirma Lailson.

Coloridos, frescos e livres de veneno – cenoura, batata-doce, limão-tahiti e beterraba | Foto: Julyana Lima

Controle e desafios do cultivo orgânico

Embora Lailson não atue diretamente na produção, ele acompanha de perto os desafios enfrentados pelos agricultores. De acordo com o Instituto de Defesa Agropecuária do Ceará (Adagri), os alimentos orgânicos são fiscalizados por certificadoras autorizadas pelo Ministério da Agricultura, o que garante a ausência de agrotóxicos, adubos químicos e sementes transgênicas.

Esse controle exige compromisso e muito trabalho. Dados da Associação Brasileira de Agroecologia indicam que os principais desafios para quem cultiva sem veneno envolvem o controle natural de pragas, a instabilidade climática e as perdas nas safras. Lailson ilustra essa realidade:

“Entre janeiro e abril é o período mais complicado. Chove muito, e as frutas não aguentam. Aparecem muitas lagartas. Como não usamos agrotóxicos, não dá para controlar tudo. É uma perda grande”

E o preço, compensa?

Uma das dúvidas mais frequentes de quem conhece a feira pela primeira vez é sobre os preços. Lailson explica que os valores variam conforme a oferta e a estação do ano.

“Quando é época de baixa produção, os preços aumentam. A diferença chega a 25% ou 30% em relação ao supermercado, principalmente em frutas fora da estação”, relata.

Ainda assim, os clientes seguem firmes, conscientes de que estão pagando por mais do que um alimento: estão pagando por saúde, ética e sustentabilidade.

Agroecologia na prática

Em Fortaleza, as feiras agroecológicas vêm ganhando espaço e importância, não só como pontos de venda de produtos sem agrotóxicos, mas como espaços de educação, convivência e resistência. Uma instituição que tem sido referência nesse movimento é a Fundação Cepema, que atua há mais de 30 anos com projetos de educação ambiental e apoio à agricultura familiar, com enfoque na Agroecologia.

“A sustentabilidade não é mais uma escolha, é uma necessidade”, diz Rafael Tomyama | Foto: Acervo Pessoal

Rafael Tomyama, jornalista e assessor da Fundação Cepema e da Rede EcoCeará, é quem acompanha de perto o dia a dia dos agricultores e das feiras. A Fundação oferece assessoramento técnico e acompanhamento a agricultores e agricultoras familiares que integram a Rede EcoCeará. Esses produtores se dedicam à produção orgânica, evitam o uso de agrotóxicos, fertilizantes químicos e sementes transgênicas. Além disso, incorporam os princípios da Agroecologia, ao valorizar o conhecimento tradicional, a preservação ambiental e a equidade de gênero.

Do sítio à banca

Antes do sol nascer, agricultores e agricultoras já chegam com os produtos colhidos no dia anterior. A feira começa às 7h, mas, antes mesmo da montagem das barracas, já há consumidores esperando . O encontro acontece todos os sábados, no Parque Estadual do Cocó (área Adahil Barreto), com organização da Fundação Cepema e da Rede EcoCeará, que também acompanham a certificação orgânica dos produtores.

Feira agroecológica no Parque Adahil Barreto | Foto: Reprodução / Instagram Fundação Cepema

Também há uma edição quinzenal no Centro Administrativo do Banco do Nordeste, no Passaré, e eventos especiais como a Festa da Colheita da Agroecologia que, neste ano, terá sua quarta edição no dia 7 de junho, e reunirá música, artesanato, comidas típicas e troca de saberes.

Durante as feiras, produtores compartilham receitas, modos de cultivo e técnicas naturais de controle de pragas, como o uso de alho, fumo e ervas aromáticas.

Produzir sem agrotóxicos exige mais do que novas técnicas e envolve uma mudança de mentalidade. Muitos agricultores passam por esse processo após experiências pessoais, como problemas de saúde ou influência de filhos e netos. A certificação também é um obstáculo; enquanto o produto convencional é vendido sem comprovação, o orgânico precisa provar que está livre de venenos. Para os pequenos produtores, a alternativa tem sido o modelo coletivo da Rede EcoCeará, mais acessível e solidário.

Do interior à capital

A cada quinze dias, aos sábados pela manhã, a Praça da Gentilândia, no bairro Benfica, recebe a Feira Agroecológica do Benfica. O evento reúne agricultores familiares, artesãos e consumidores em torno do objetivo de promover uma alimentação sem agrotóxicos e de fortalecer a produção local.

Organizada por cooperativas, coletivos de consumidores responsáveis e produtores do interior do Ceará, especialmente do Maciço de Baturité, a feira oferece uma variedade de produtos agroecológicos, como frutas, verduras, lanches veganos, castanhas, grãos, temperos, itens de naturologia e farmácia viva.

Feira agroecológica do Benfica | Foto: Beatriz Duarte

Seu Pelé, como é conhecido Valter Franciliano, da barraca Cooperativa de Capistrano, participa do movimento há 15 anos. Ele explica que a Agroecologia vai além de não usar veneno nas plantações.

Valter Franciliano explica que usa repelentes naturais na sua produção | Foto: Beatriz Duarte

“Às vezes, a pessoa pensa que produzir no sistema agroecológico é só deixar de usar veneno, mas tem vários setores dentro disso. Você não pode queimar, não pode ter lixo, tem que fazer cobertura do solo com matéria orgânica. E os repelentes que usamos são naturais: alho, urina de vaca, detergente neutro… não é veneno, é repelente, só afasta a praga.”, afirma Valter Franciliano.

Apesar dos benefícios da agroecologia, a acessibilidade ainda é um desafio. Sandra Alves Fernandes, feirante na Praça da Gentilândia, ressalta que os preços mais altos afastam parte da população.

“A gente gostaria que fossem melhores os valores para ter mais pessoas consumindo. Muita gente diz que é caro, e realmente, quem tem uma renda menor acaba achando difícil. Aqui na tenda temos castanhas locais, grãos como lentilha, grão-de-bico, sementes de abóbora e girassol, além de temperos e produtos veganos.”

“Falta uma divulgação maior sobre os benefícios desses alimentos. As pessoas não sabem a diferença entre consumir algo com ou sem agrotóxico. Muita gente gasta com sanduíche e refrigerante, produtos caros e nada saudáveis, quando com o mesmo valor, poderia comprar goma fresca, batata doce, abacaxi e estar melhor alimentada. Nosso povo precisa entender que cozinhar não é perda de tempo, perder tempo é perder saúde.”

A feira também atrai consumidores conscientes, como Simone Oliveira, professora do IFCE
Foto: Beatriz Duarte

Um convite ao consumo consciente

As feiras agroecológicas provam que há alternativas viáveis ao modelo convencional de produção. Em um cenário em que o Brasil lidera o consumo de agrotóxicos no mundo, iniciativas locais como essas mostram que é possível cultivar, vender e consumir de forma mais consciente e sustentável.

Com apoio à agricultura familiar, respeito ao meio ambiente e vínculos de confiança com os consumidores, as feiras não apenas vendem produtos, mas cultivam consciência. Em cada fruta sem veneno, em cada cliente fiel, cresce também a esperança de um futuro mais saudável para quem planta, para quem come e para o Planeta.

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