Expansão acelerada da aquicultura no Ceará impulsiona economia e amplia alerta ambiental

Por 06/04/2026
Expansão acelerada da aquicultura no Ceará impulsiona economia e amplia alerta ambiental

Crescimento da carcinicultura e tilapicultura contrasta com alertas sobre impactos ambientais, uso intensivo da água e riscos sociais apontados por especialistas

Por Yasmin Boyadjian

A aquicultura cearense mantém trajetória de crescimento e consolidação, conforme atualização do mapeamento da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). Entre 2023 e 2025, a área ocupada por tanques de cultivo passou de 14.603 hectares para 16.233 hectares, evidenciando a expansão contínua da atividade no estado, ainda que represente apenas 0,1% do território cearense. Paralelamente ao crescimento econômico, especialistas alertam para os impactos ambientais associados ao modelo predominante de produção.

O levantamento também aponta a ampliação da presença territorial da aquicultura, que passou de 69 municípios em 2023 para 72 nos dois anos seguintes. A atividade permanece concentrada no litoral e na região Centro-Oeste, com predominância da carcinicultura, seguida pela tilapicultura.

A Bacia do Baixo Jaguaribe segue como principal polo produtivo, reunindo entre 46% e 47% de toda a área aquícola do estado. A região registrou crescimento de 6.807 hectares em 2023 para 7.487 hectares em 2025. Na escala municipal, houve mudança na liderança: Jaguaruana assumiu a primeira posição em 2025, superando Aracati, que liderava nos anos anteriores. Juntos, os dois municípios concentram cerca de um terço da produção estadual.

O avanço da atividade tem impulsionado a economia regional e atraído novos produtores, sobretudo em substituição à agricultura de subsistência. No entanto, o setor ainda enfrenta entraves estruturais, como o acesso limitado a crédito. Produtores apontam a burocracia no Banco do Nordeste como um dos principais obstáculos à expansão dos empreendimentos.

Como contraponto, o professor Jeovah Meireles, da Universidade Federal do Ceará (UFC), afirma que a expansão da carcinicultura tem ocorrido em áreas ambientalmente sensíveis, como manguezais e sistemas fluviais. Segundo ele, a instalação de viveiros tem provocado desmatamento de matas ciliares, perda de biodiversidade e comprometimento de áreas estratégicas para a segurança alimentar. “As fazendas de camarão ocuparam setores fundamentais para a produção de alimentos e suprimiram ambientes essenciais à manutenção dos ecossistemas”, destaca.

O pesquisador chama atenção, ainda, para o elevado consumo de água. De acordo com seus estudos, a produção de camarão pode demandar cerca de 66 mil metros cúbicos de água por hectare, o equivalente a aproximadamente 15 mil litros por quilo produzido. “Trata-se de um uso intensivo de um recurso escasso em uma região semiárida, com impactos diretos sobre a segurança hídrica”, afirma.

Ele acrescenta que a atividade contribui para alterações no regime hidrológico, favorecendo processos de erosão, salinização de aquíferos e agravamento de eventos climáticos extremos, como secas prolongadas e enchentes.

Além dos efeitos ambientais, o modelo produtivo também gera repercussões sociais. Comunidades tradicionais têm perdido áreas de uso histórico, enquanto pequenos produtores enfrentam dificuldades econômicas. Segundo Meireles, muitos ingressam na atividade dependentes de financiamento indireto, assumindo riscos elevados de endividamento. “Há relatos de produtores que já entram no sistema comprometendo sua produção com atravessadores, o que limita sua autonomia e amplia a vulnerabilidade econômica”, observa.

Mapa destaca municípios com maior concentração de aquicultura no Ceará, como Jaguaruana e Aracati, principais polos da atividade – Foto: Ascom FUNCEME

Para o especialista, o atual padrão de expansão da carcinicultura no Ceará é “ambientalmente insustentável” e demanda revisão urgente. Ele defende a adoção de medidas como recuperação de áreas degradadas, controle rigoroso da ocupação em áreas de preservação permanente, tratamento de efluentes e fortalecimento da governança ambiental.

“É fundamental compatibilizar produção e conservação, garantindo a manutenção dos serviços ecológicos, a disponibilidade de água e a permanência das populações em seus territórios”, conclui. O cenário revela um setor em franca expansão, mas que enfrenta o desafio de equilibrar crescimento econômico com sustentabilidade ambiental e inclusão social, condição essencial para sua viabilidade no longo prazo.

Relatório Aquicultura Funceme: http://www.funceme.br/wp-content/uploads/2026/03/2025-AQUICULTURA.pdf

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