Em ‘A Casa do Dragão’ Trono de Ferro se torna um símbolo de tudo aquilo que a guerra destruiu 

Por 30/06/2026
Em ‘A Casa do Dragão’ Trono de Ferro se torna um símbolo de tudo aquilo que a guerra destruiu 

Ao acompanhar Rhaenyra, Corlys e Alicent, segundo episódio da temporada mostra que a maior disputa em Westeros não é por um reino, mas pela sobrevivência de seus nomes 

Por Leonardo Piccinini

Durante muito tempo, aprendemos a imaginar guerras como histórias de conquista. Um reino é tomado, um exército vence a batalha decisiva, alguém finalmente ocupa o trono desejado e a narrativa encontra seu ponto de chegada. O segundo episódio da terceira temporada de A Casa do Dragão desmonta essa lógica desde seus primeiros minutos ao afirmar que não existe conquista sem perda.

O episódio se inicia com Baela Targaryen conduzindo o corpo de Jacaerys de volta à Pedra do Dragão. À sua frente, Ser Alfred permanece imóvel, incapaz de desviar os olhos. “E a batalha?”, pergunta o cavaleiro. “Vencemos”, responde Baela. O travelling abandona sua figura e continua acompanhando apenas o corpo carregado pelos soldados. 

Baela conduz o corpo de Jacaerys de volta à Pedra do Dragão após a vitória na Batalha da Goela

 Em poucos segundos, House of the Dragon resume toda a tragédia da Dança dos Dragões. O capítulo inteiro parece interessado em mostrar que, numa guerra, não existe tempo para viver o luto. A próxima decisão deve, sempre, chegar antes da próxima lágrima. 

Rhaenyra sequer consegue permanecer diante do corpo do filho antes de ser obrigada a voltar a governar. Primeiro, explode em revolta ao perguntar porque Jacaerys desobedeceu suas ordens. Logo depois, quando Ser Alfred oferece a própria vida como forma de reparar seu erro, responde apenas: “De que vai adiantar? Vai trazer meu filho de volta?”.

O momento mais devastador, porém, acontece longe das salas de guerra. Enquanto repousa ao lado de Daemon, Rhaenyra ouve que há assuntos urgentes esperando por sua decisão. Ela sequer demonstra interesse. Sua preocupação já não está no conflito, mas naquilo que ele consumiu. 

“Todos esses meninos que corriam pelos corredores e se escondiam por baixo da minha saia estão mortos. Tudo isso para eu sentar num trono de ferro.” Pela primeira vez, o Trono de Ferro perde o tamanho que sempre teve. Diante de tantas mortes, torna-se apenas uma peça de metal incapaz de devolver qualquer uma das vidas que ficaram pelo caminho.

Ao lamentar a morte dos jovens que cresceram ao seu lado, Rhaenyra passa a enxergar o Trono de Ferro sob outra perspectiva

Ao chegar à Porto Real, Rhaenyra já não é movida pelo entusiasmo da conquista, mas pelo peso das consequências. Antes de ocupar o Trono de Ferro, precisa decidir o destino de Otto Hightower, cuja vida é revelada no momento mais épico do episódio. 

Daemon, um estrategista, mas, acima de tudo individualista e sedento por poder, insiste que a execução aconteça diante de todos. É preciso demonstrar força, segundo ele. A rainha hesita por alguns instantes, como se compreendesse que aquele golpe encerraria algo maior do que a vida de um inimigo. 

A espada, enfim, desce, e a cabeça de Otto rola diante da corte. Rhaenyra conquista o reino ao custo de atravessar uma fronteira moral da qual já não poderá retornar.

Nenhuma fala resume melhor o episódio do que o que acontece logo depois. Sentada no Trono de Ferro pela primeira vez, Rhaenyra permite que um discreto alívio atravesse seu rosto. O instante, contudo, dura apenas alguns segundos. Alicent Hightower entra no salão, encara a cabeça decapitada do pai e permanece imóvel, dividida entre o horror e a culpa por ter colaborado para aquela tomada de poder. 

O reencontro entre Alicent e Rhaenyra transforma a conquista de Porto Real em uma cena marcada pelo luto, e não pela celebração 

Rhaenyra percebe sua presença e seus olhos imediatamente se enchem de lágrimas, disfarçadas dentro de um olhar que tenta se manter frio e superior. Ela finalmente alcançou aquilo que perseguiu durante toda a vida. Ainda assim, não existe qualquer sensação de vitória.

O roteiro ainda encontra espaço para reforçar uma das ideias que movem Westeros: o peso de um nome.  Depois de sobreviver à Batalha da Goela e contemplar sua frota praticamente destruída, Corlys Velaryon, enfim, decide reconhecer Alyn como filho. 

Não lhe restam castelos para oferecer, nem navios, nem riqueza. “Tudo que posso lhe dar é meu nome”, admite. Alyn responde que isso vale mais do que qualquer montanha de ouro. Em um mundo onde famílias travam guerras para preservar seus sobrenomes, descobrir quem se é, possui um valor que nenhuma fortuna consegue comprar.

Ao reconhecer Alyn como filho, Corlys reforça que, em Westeros, um sobrenome pode valer mais do que qualquer riqueza 

Não por acaso, é o próprio Corlys quem resume o espírito do episódio ao observar a devastação deixada pela batalha: “Se isto é vitória, espero nunca ver outra”. A frase ecoa muito além do campo de batalha. Ela descreve Rhaenyra, Alicent, Daemon e praticamente todos os sobreviventes dessa guerra. Cada conquista cobra um preço maior do que aquilo que entrega.

Esta é a grande tragédia de A Casa do Dragão. Durante muito tempo, parece que todos estão lutando pelo Trono de Ferro. O episódio mostra que a soberania é apenas o palco onde acontece uma disputa muito mais antiga: a sobrevivência dos nomes. 

Os Targaryen tentam preservar sua linhagem. Os Hightower, a sua influência. Os Velaryon, sua herança. Em Westeros, morrer nunca foi o maior medo. O verdadeiro fracasso é desaparecer da História. 

Quando os créditos sobem, os Targaryen ainda conservam seu nome. Ainda possuem seus dragões. Quase todo o resto ficou pelo caminho. Resta saber se um sobrenome, por mais poderoso que seja, ainda basta para governar um reino depois que tudo aquilo que lhe dava sentido foi perdido. 

Mesmo diante da perda do filho, Rhaenyra precisa interromper o próprio luto para
continuar conduzindo uma guerra 

(FOTO ABRE) – Quando os créditos sobem, os Targaryen ainda conservam seu nome. Resta saber se um sobrenome, por mais poderoso que seja, ainda basta para governar um reino depois que tudo aquilo que lhe dava sentido foi perdido. – Colocar na legenda da segunda foto do Instagram.

Veja também