Dia Nacional da Língua Portuguesa: diversidade do falar e identidade do povo brasileiro

Por 05/11/2025
Dia Nacional da Língua Portuguesa: diversidade do falar e identidade do povo brasileiro

Entre sotaques, gírias e tradições, o português mostra sua dinamicidade e seu movimento marcado pela convivência entre culturas e gerações, revelando uma pluralidade do país

Por Laíssa Esmeraldo

O Dia Nacional da Língua Portuguesa, 5 de novembro,  instituído com o objetivo de homenagear o idioma, busca também evidenciar a importância e o valor cultural para a formação e reforço da identidade do povo brasileiro com a sua cultura. A data também promove reflexões sobre as variedades linguísticas que revelam a diversidade cultural do país. 

Essas variações, de acordo com a escritora e professora universitária Aíla Sampaio, mostram a diversidade cultural e histórica que compõe a identidade do brasileiro. “O modo de falar em cada região reflete não somente diferenças geográficas, mas também o resultado de séculos de convivência, desde a colonização, entre povos indígenas, africanos, europeus e imigrantes de várias partes do mundo”, diz Aíla.

Como consequência dessa miscelânea, a língua é falada de diversas formas nos diferentes estados do país. Essa variedade de sotaques, vocabulários e estruturas gramaticais surgem a partir de fatores regionais (como o cearense ou o gaúcho), sociais (de acordo com a classe social ou a escolaridade), situacionais (formal e informal, por exemplo) e, até, históricos (com a influência do passado).

A língua é expressão da identidade e da resistência cultural | Imagem: Freepik

A professora de redação, Viviane Souza, fala sobre a necessidade de se refletir sobre a ideia de que não existe um modo correto de falar. “Existem diversos falares no Brasil, tenta-se, a partir dessa discussão, levar para o aluno a necessidade de respeito a essa diversidade linguística nação”, completa.

A piauiense Amanda Leal destaca com orgulho sobre o sotaque de seu estado. Ela conta que, em outras regiões do país, costuma ser reconhecida imediatamente pelo modo de falar, e afirma não se incomodar com possíveis preconceitos. “O piauiense fala meio cantando, juntando as palavras (…). Não dou tanta importância, porque amo as minhas origens”, ressalta.

Já a mineira Clara Cezarino se sente incomodada e, até, inferiorizada quando ouve comentários sobre seu modo de falar. “Nós, mineiros, costumamos encurtar palavras e dar nomes diferentes às coisas, mesmo quando o termo não tem relação direta com o significado”, explica. Ainda assim, para ela, o sotaque mineiro carrega uma forte sensação de cordialidade e acolhimento.

Seja pelo sotaque ou pelo vocabulário, pela infração à gramática ou pela variedade regional, diferentes grupos no país são discriminados pela maneira como falam. Existe, como explana Viviane, a ideia de que só se fala correto de uma maneira. A educação foca na gramática normativa, que está atrelada à norma padrão, falada pelas elites. Então, historicamente, quem tinha acesso à educação, utilizava a norma padrão. 

A variedade linguística inclui as diferenças regionais, sociais, históricas dentro de uma mesma língua, como os sotaques e vocabulários | Imagem Freepik

A gramática normativa, segundo a professora, tenta trabalhar a diversidade da língua, mas ela aborda de maneira tradicional e conteudista. Ela conduz o aluno a entender conceitos, e acaba por dificultar o entendimento da importância de se valorizar as variações. “A maior extensão do estudo de vida do aluno é a gramática padrão, então isso acaba fazendo com que ele associe a ideia de que a gramática normativa aqui é o correto”, completa.

Essa valorização das diferentes formas de falar é tão importante que grandes escritores reconhecem o valor das variedades linguísticas e as utilizam como recurso estético e cultural em suas obras. 

Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, Jorge Amado e Graciliano Ramos incorporaram à sua obra o modo de falar do povo, reconhecendo e legitimando a riqueza cultural presente nas diferentes formas de expressão do português brasileiro. Aíla destaca que a literatura desempenha um papel fundamental na valorização das variedades linguísticas: “a literatura rompe barreiras e dá visibilidade às vozes antes marginalizadas”.

Além da literatura, o meio virtual também é um espaço de valorização das diferentes formas de falar. Redes sociais, blogs, podcasts e vídeos, são alguns exemplos de ambientes em que as pessoas se expressam com mais liberdade, usando gírias, regionalismos, e variações. Essa diversidade online ajuda a romper o preconceito linguístico, e mostra que o português não é “engessado”. 

A escritora Aíla ressalta que “as redes sociais e a internet têm transformado o português de forma muito rápida e interessante. Essas mudanças mostram que a língua está viva e acompanha o comportamento e a criatividade das pessoas, especialmente dos mais jovens”.

Para Aíla, a data é uma maneira de reconhecimento da riqueza e da diversidade brasileira. Das variações regionais às expressões populares, essas transformações evidenciam que a língua é reflexo da sociedade. Também, é uma forma de se combater o preconceito linguístico, legitimando todos os jeitos de fala e escrita.

As transformações linguísticas mostram como um idioma é reflexo da dinâmica social. As inúmeras variações revelam a vitalidade do idioma e sua capacidade de adaptação e a ideia de que o “falar” é, também, uma forma de resistência e de expressão de identidade. Mais do que “gramatical”, a diversidade também está no “cultural” dada a riqueza das diferentes regiões do Brasil.

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