‘Dia D’ revisita Spielberg e pergunta se a verdade ainda pode unir a humanidade mais uma vez 

Por 16/06/2026
‘Dia D’ revisita Spielberg e pergunta se a verdade ainda pode unir a humanidade mais uma vez 

Diretor transforma o fascínio pelo desconhecido em reflexão sobre informação, crença e  incapacidade humana de chegar a um consenso sobre a verdade

Por Leonardo Piccinini 

Existe alguma verdade capaz de unir a humanidade? Vivemos uma época em que a disponibilidade de informação nunca foi tão grande e, paradoxalmente, a disputa sobre o que é verdadeiro nunca foi tão intensa.

Todos os  dias surgem fatos que metade das pessoas aceita e a outra metade rejeita. Não importa a evidência. A reação coletiva já não depende apenas da verdade, mas da identidade, do medo, das crenças e das narrativas.

Steven Spielberg passou cinquenta anos perguntando se a humanidade está preparada para encontrar o desconhecido. Em ‘Dia D’, seu retorno ao gênero que o consagrou, pela primeira vez, ele parece perguntar outra coisa: e se a humanidade simplesmente não merecer essa resposta? 

Fascinado por fenômenos extraterrestres, o diretor confessou ter curiosidade, desde a infância, sobre o céu noturno e o que acontece ali. “Também tenho não a hipótese, mas a certeza de que existe vida fora deste planeta”, afirmou em material promocional de ‘Dia D’.

O que existe além do que conhecemos? Como reagimos ao desconhecido? Quem controla a informação? A autoridade merece confiança? A ciência aproxima ou afasta o mistério?

Todas estas perguntas aparecem em Contatos Imediatos de Terceiro Grau, E.T., Minority Report, A.I, The Post, Ponte dos Espiões, Lincoln, Munique e em toda a filmografia de Spielberg. E todas estas perguntas aparecem também em ‘Dia D’.

A trama acompanha Margaret Fairchild (Emily Blunt), uma meteorologista que, durante uma transmissão ao vivo de TV, é subitamente dominada por uma força invisível. 

Daniel Kellner (Josh O’Connor), co-protagonista junto com Blunt, é um especialista em segurança cibernética que rouba arquivos sigilosos de sua própria corporação, revelando que instituições escondem a presença alienígena na Terra há décadas.

Emily Blunt entrega a melhor atuação de sua carreira

Spielberg decide revisitar as obsessões que acompanharam sua carreira inteira. Seus clássicos de ficção-científica, ironicamente, não são sobre alienígenas, e sim sobre pessoas reagindo aos alienígenas. O objeto da descoberta é secundário perante à reação humana diante dela.

Essa talvez seja a maior virtude como cineasta. Spielberg raramente surpreende pelo inesperado. Seus filmes frequentemente anunciam desde cedo o caminho que irão percorrer. Em ‘Dia D’, sabemos que existe uma verdade escondida e que, inevitavelmente, ela será confrontada. 

Ainda assim, quando esse momento se aproxima, o impacto não nasce da revelação em si, mas da forma como ela é construída. Spielberg compreende que o fascínio não está apenas em descobrir algo novo, mas em olhar novamente para aquilo que já esperávamos encontrar e perceber que seu significado mudou completamente. 

O extraordinário continua no céu, mas a câmera de Spielberg permanece fixada nos rostos que tentam compreendê-lo

Ao refletir sobre o fato de que uma revelação dessa magnitude não produzisse união, Spielberg dialoga com toda a história da humanidade, mas especialmente com a era digital.

Em meio à onda das fake news, em que mesmo diante de evidências concretas uma parcela da população opta por acreditar em inverdades e teorias da conspiração, o diretor questiona se conhecer a verdade produz consenso ou apenas cria novos conflitos.

É um filme sobre conhecimento, mas também sobre visão. E Spielberg, um cineasta obcecado por enquadramentos e olhares, transforma essa ideia em linguagem: reflexos, janelas, espelhos, rostos duplicados, sombras, crianças olhando para cima, pessoas encarando algo fora de quadro.

Dia D mostra um Spielberg que olha para o futuro revisitando todas as suas grandes perguntas

 Spielberg passou décadas filmando pessoas olhando para o desconhecido. Em ‘Dia D’, ele parece inverter essa lógica. Porque sua grande descoberta nunca foi a existência do desconhecido, e sim a maneira como cada geração decide enxergá-lo. 

Por isso ele continua conseguindo surpreender justamente com aquilo que já esperávamos encontrar: não ao revelar um novo mistério sobre o universo, mas ao revelar um velho mistério sobre nós mesmos. 

Veja também