Tratando-se de cooperativas, o setor é o maior em quantidade de empresas atuantes no mercado brasileiro, mesmo com as dificuldades de integração entr
Tratando-se de cooperativas, o setor é o maior em quantidade de empresas atuantes no mercado brasileiro, mesmo com as dificuldades de integração entre campo e cidade
Por Leonardo Piccinini

Em meio a um país de ciclos econômicos instáveis e grandes conglomerados empresariais, um modelo de negócio coletivo e democrático vem ganhando força e unindo milhões de brasileiros – muitas vezes longe dos holofotes. Trata-se do cooperativismo, um sistema que valoriza, acima de tudo, o indivíduo.
Fruto da visão de tecelões ingleses, a primeira cooperativa do mundo surgiu em Hoshdale, na Inglaterra, em 1844, durante a Revolução Industrial. Ou seja, a substituição do homem pela máquina – uma das maiores crises do mundo moderno -, foi o motor de uma subversão do conceito de corporação, que mudou e continua mudando vidas.
Somente no Brasil, 4.484 cooperativas estão em funcionamento, com aproximadamente 25,8 milhões de cooperados e mais de 578 mil empregos gerados, segundo dados do Anuário do Cooperativismo de 2024.
Uma empresa de pessoas. É assim que Nicédio Nogueira, presidente do Sistema OCB/CE (Organização das Cooperativas do Estado do Ceará) define o que é uma cooperativa. Ele explica que, tradicionalmente, o cooperativismo no Brasil sempre esteve historicamente ligado ao agronegócio. “Houve, então, em alguns estados, a saída do algodão como principal fonte de riqueza do campo. Daí, as cooperativas urbanas cresceram muito”, disserta.

“Cooperativas de crédito, por exemplo, têm crescido muito mais que o agro”, conta Nicédio. Segundo o presidente, os motivos para esta desproporcionalidade tem a ver com os princípios do cooperativismo, frisados na Lei 5764/71 – Lei Geral das Cooperativas – implementada em 1972.
No terceiro artigo da legislação, por exemplo, entende-se o cooperativismo como uma espécie de contrato. “…pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir com bens ou serviços para o exercício de uma atividade econômica, de proveito comum, sem objetivo de lucro.”. Ou seja: o objetivo é a complementação do negócio dos associados.
Ele esclarece que tais regras regem o cooperativismo, e impedem que se torne como qualquer outro sistema econômico que visa somente e apenas o lucro. Explica que o que move a cooperativa não é o lucro, e sim, as pessoas. “Na empresa privada o que importa é quanto você tem de capital. Na cooperativa, não se leva em conta o valor do seu investimento. Na hora da decisão, o menor associado tem o mesmo direito de voto ao maior associado”, detalha.
O presidente reflete sobre a dificuldade que trabalhadores do campo têm na batalha competitiva com o mercado. “O sócio da cooperativa produz, entrega a cooperativa, a cooperativa junta com o de outros pequenos ou grandes produtores, e vai pro mercado”, ilustra.
“Não é comum alguém conseguir ir ao mercado sozinho, com a mesma condição de competir com os grandes grupos econômicos. E este é o grande negócio da cooperativa: fazer com que o pequeno se torne grande”, afirma Nogueira.

Embora a crise do algodão tenha, sim, afetado o agronegócio, o setor ainda detém cerca de 25% das cooperativas em atuação no país. Em nível nacional, são 1.172 empresas, que arrecadam, em média, 305,6 bilhões de reais, em ativos anualmente. Para se ter ideia, a participação do agronegócio no PIB brasileiro chegou ao montante de R$2,73 milhões – uma porcentagem de 23,5%.

Nicédio afirma que o agronegócio tem crescido muito no Ceará, e que uma das razões refere-se ao fato de algumas cooperativas do setor estarem buscando inovar. “O grande problema é, e sempre vai ser, o baque da saída do algodão como principal fonte de receita, que deixou dívidas e dificuldades. E qualquer mudança é difícil”, disserta.
Entre tais estratégias de mudança, estão o incentivo do plantio de outras culturas como soja, milho, mamona, gergelim e amendoim, muitas vezes em sistemas de rotação ou consórcio. Além disso, o investimento em tecnologias de ponta ajudam a otimizar a produção.
A utilização de drones e softwares de gestão, visando manejo e monitoramento eficientes, são algumas das modernizações feitas pelas cooperativas agropecuárias. Os sensores IoT, por exemplo, são dispositivos que detectam alterações no ambiente físico e convertem essas informações em dados digitais, permitindo que o acompanhamento e a tomada de decisões possam ser feitos de maneira virtual.

Nicédio encerra ressaltando, ainda, que a OCB tem buscado o empoderamento feminino no cooperativismo. “Não só como associadas, mas como gestoras”, explica. Ele ressalta que, no Ceará, há mais mulheres como funcionárias das cooperativas do que homens. Lamentavelmente, contudo, quando se analisa a presença feminina em cargos maiores, o número ainda é muito abaixo.
Amílcar Silveira, presidente da Faec (Federação de Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará) e recém-nomeado diretor do CNA (Conselho Nacional de Agricultura), considera que o cooperativismo é uma das alternativas que temos para os pequenos produtores.

Em entrevista para o podcast Vozes do Cooperativismo, uma parceria do sistema OCB/CE com o Sistema Jangadeiro, Silveira conta que 78% dos atendimentos na Faec são para pequenos produtores, e opina que o cooperativismo é uma das oportunidades para melhorar o setor.
“O agronegócio é o setor do cooperativismo com maior possibilidade de crescimento. Os pequenos produtores precisam se organizar em cooperativas para comercializar seus produtos e ter uma produção eficiente. Não há mais espaço para amadorismo no mundo dos negócios”, argumenta o presidente da Faec.

Além disso, a inclusão de jovens, com visão diferenciada e um conhecimento melhor do funcionamento do mundo atual, é um ponto que a OCB vem investindo bastante.
Programa Agrinho
Um destes investimentos é o Programa Agrinho, uma iniciativa educacional que busca estimular o pensamento crítico e o protagonismo estudantil. Criado pelo Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), o projeto busca integrar o campo e a cidade, levando para as escolas ações e informações acerca do meio rural, utilizando práticas pedagógicas que conectam o universo escolar à realidade.

Mais do que números, o cooperativismo representa uma forma diferente de entender a economia. Enquanto o mundo corporativo enfrenta altos índices de instabilidade – sete em cada dez empresas fecham as portas após uma década de atividade – o cooperativismo representa o fôlego de quem aposta na coletividade e no ser humano.
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