Conceito de décadas ou estratégia superficial? Especialistas debatem sustentabilidade e o papel do jornalismo

Por 20/09/2024
Conceito de décadas ou estratégia superficial? Especialistas debatem sustentabilidade e o papel do jornalismo

O painel com Dal Marcondes, Magda Maya e Mariana Fontenele, na mediação,  abordou a necessidade de uma visão crítica para monitorar as práticas corporativas

Por Mariah Salvatore

Na mesa “A pauta ESG e o Jornalismo Ambiental Corporativo”, realizada nesta sexta-feira, 20, os convidados Dal Marcondes e Magda Maya discutiram as complexidades do conceito ESG (Environmental, Social, and Governance). O evento, ocorrido no Teatro Celina Queiroz, da Universidade de Fortaleza, reuniu estudantes e jornalistas especializados na área de ecossistemas e sustentabilidade e teve a mediação da professora Mariana Fontenele. 

Dal Marcondes, jornalista ambiental e editor do Instituto Envolverde, destacou que o conceito de ESG, amplamente utilizado nos dias de hoje, tem suas raízes fincadas nos anos 1970, com marcos históricos como o livro Primavera Silenciosa (1962), de Rachel Carson, e a Conferência de Estocolmo (1972). 

Em sua fala, Marcondes reiterou que o foco do ESG continua sendo essencialmente econômico, abordando como as empresas interagem com o meio ambiente. Porém, ele alertou para o crescente problema do “ESG washing”, no qual empresas utilizam a sigla para fins de marketing, sem promover mudanças efetivas em suas operações.

“Podemos até criar leis mais rigorosas que diminuam certos problemas, mas, para uma solução real, o próprio Direito precisará ser reavaliado”, destacou Dal Marcondes. Para ele, as regulamentações e a pressão pública são fundamentais, mas é o papel do jornalismo crítico que deve garantir a fiscalização contínua dessas corporações. 

O diretor executivo enfatizou que o ESG, quando aplicado de forma superficial, perde seu verdadeiro valor, tornando-se apenas uma ferramenta para melhorar a imagem das empresas: “Devemos estar atentos às empresas que adotam práticas superficiais para melhorar sua imagem, sem comprometimento real”.

Magda Maya, doutora em Desenvolvimento em Meio Ambiente, escritora e fundadora da Beeosfera (Escola de Sustentabilidade 4.0), trouxe à mesa uma perspectiva filosófica e jurídica sobre a relação entre natureza e humanidade. Em sua fala, Magda realçou que a exploração desenfreada dos recursos naturais não pode mais ser vista como um simples resultado do desenvolvimento, mas como uma crise iminente que já está se manifestando em forma de desastres ambientais e sociais.

Ao citar o filósofo Espinosa, Magda afirmou: “A natureza não tem senso moral, ela tem consequências”, sublinhando que a forma como tratamos o meio ambiente inevitavelmente resultará em efeitos devastadores se não houver uma mudança drástica no comportamento humano. 

Um dos pontos centrais de sua fala foi a defesa da natureza como sujeito de direitos, conceito inspirado na Constituição do Equador, onde a natureza tem direitos juridicamente reconhecidos, uma ideia que ela acredita ser fundamental para repensarmos nosso ordenamento jurídico no Brasil.

Mariana Fontenele, professora e mediadora do debate, pontuou a importância de o jornalismo ser um agente fiscalizador, capaz de estimular discussões mais profundas sobre as práticas ambientais e sociais das corporações. 

“O jornalismo ambiental precisa estar mais do que atento; ele deve ser incansável em suas investigações e questionamentos, para que não sejamos apenas replicadores de discursos, mas protagonistas de uma mudança de mentalidade”, destacou.

O painel deixou claro que o ESG não é uma estratégia nova, mas sim uma abordagem que vem sendo moldada por décadas de discussões sobre a responsabilidade empresarial. No entanto, a responsabilidade do jornalismo em manter essa discussão viva e relevante se mostrou um dos temas mais discutidos durante o evento, com os especialistas ressaltando a necessidade de vigilância contínua e crítica para evitar que o ele se torne uma mera ferramenta de marketing.

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