Campanha do Setembro Amarelo traz informação responsável para prevenção ao suicídio

Por 01/09/2025
Campanha do Setembro Amarelo traz informação responsável para prevenção ao suicídio

A ação ressalta a importância da compreensão e conscientização humanizada, assim como a reformulação de preconceitos e estigmas a respeito da temática  

Por Gabriela Tavares

A campanha do Setembro Amarelo, que ocorre durante todo este mês, procura gerar conscientização sobre a prevenção ao suicídio, reformulando preconceitos e informações estigmatizadas. Representando uma ação coletiva para lidar com a questão da saúde pública.

O mês retrata também a data oficial que marca o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, que acontece dia 10 de setembro.  A data foi estabelecida pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio e endossada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O objetivo geral é chamar atenção de governos e da sociedade civil para a relevância do assunto. 

A campanha foi inspirada pela história do jovem Mike Emme, que cometeu suicídio aos 17 anos nos Estados Unidos, em setembro de 1994. Emme tinha um carro amarelo e no dia de seu velório, familiares e amigos distribuíram cartões com fitas amarelas e frases motivacionais para pessoas que pudessem estar passando por um momento vulnerável ou que tivessem doenças mentais e emocionais.

As fitas amarelas se transformaram no símbolo da campanha, sendo acolhida pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em 2015.

Em entrevista ao NewsLink, a psicóloga Lucinaura Diógenes, fundadora do Instituto Bia Dote, em Fortaleza, comentou sobre o estigma social em torno do suicídio e dos desafios para preveni-lo de forma eficaz. Destaca que o suicídio é um fenônemo complexo, em que várias aborgadens precisam ser consideradas. 

Segundo Lucinaura, o estigma construído historicamente em torno do suicídio tem bases sociais, culturais e religiosas, e é fortemente enraizado na sociedade. Este é, segundo ela, um dos principais desafios na abordagem efetiva do fenômeno do suicídio e de sua prevenção.

A psicóloga afirma que  trabalhar contra este estigma, primeiramente,é preciso recorrer ao conhecimento científico sobre o tema, para debaterr o suicídio em termos não só médicos, mas históricos, sociológicos, econômicos e políticos, por exemplo. “Apresentar dados de forma ética e responsável é uma maneira de compreender e confrontar mitos e preconceitos”, esclarece.

Lucinaura destaca ainda que a informação e a conscientização também devem se utilizar de uma linguagem correta e acessível, como ferramenta essencial para inserir cada vez mais e mais responsavelmente o debate na vida social, o que é essencial para minimizar o estigma em torno do suicídio, diz.

Para a profissional, o trabalho voltado à informação e à conscientização pode ser conduzido por profissionais ligados ao estudo do suicídio, mas que deve ser reverberado na sociedade para que efeitos aconteçam. “Engajar-se no debate público e privado sobre o tema, buscar informação (inclusive se abrindo para escutar de forma empática) e “falar sobre isso” de forma responsável e cuidadosa, são maneiras da população envolver-se com a campanha”. Além disso, prossegue, “é preciso o interesse público na prevenção do suicídio para que possamos pressionar o poder público por medidas de saúde pública essenciais para a mudança desse cenário”.

Os termos utilizados para se referir ao fenômeno foram mencionados pela psicóloga.  Para ela, falar sobre o suicídio, ou mesmo usar a palavra suicídio – de forma responsável – é, na verdade, necessário nos esforços de desconstrução do estigma que silencia os debates em torno da questão. “É o estigma que ‘escolhe’ outras palavras, mais socialmente aceitas e palatáveis, para o suicídio. E, quando evitamos chamá-lo pelo nome, tanto estamos reproduzindo os efeitos desse estigma, quanto estamos o reforçando”.

Para a psicóloga Lucinaura Diógenes é preciso o interesse público na prevenção do suicídio para pressionar o poder público por medidas de saúde pública essenciais para a mudança de cenário | Fotos: Divulgação

Segundo Lucinaura, o termo ‘desvalorização da vida’ é uma forma de fortalecer o estigma relativo ao suicídio, assim como substituir o termo ‘prevenção do suicídio’ por ‘valorização da vida’. “Ha um fenômeno conhecido como Efeito Werther, que se refere aos aumentos identificados nas taxas de suicídio após casos de morte por suicídio de grande repercussão. Não raro, essa ampla divulgação acontece de forma espetacularizada, reproduzindo julgamentos equivocados sobre o ato”, lembra.

Em contrapartida, acrescenta que há também o Efeito Psapageno, em que se observa a diminuição do comportamento suicida, quando a divulgação de informações voltadas à prevenção é feita com a adoção adequada e cuidadosa de estratégias de enfrentamento. “Assim, o uso de outros termos para falar sobre suicídio e sua prevenção, na minha análise, é um retrocesso, uma forma de descredibilizar e enfraquecer a campanha de prevenção do suicídio e reforçar o estigma. Nesse contexto, o próprio uso do termo “gatilho” deve ser melhor refletido”, destaca.

O Instituto Bia Dote (IBD), criado em 2013, é uma organização  não governamental, sem fins lucrativos, com objetivo social a promoção da saúde mental, além da prevenção e posvenção do suicídio. 

Atualmente, o local trabalha com psicoeducação, promovendo a constientização sobre o fenômeno do suicídio com rodas de conversa e palestras. O IBD fornece também uma clínica social de psicologia, com atendimento psicológico individual e presencial, realizado por uma equipe de psicólogos. 

A instituição também realiza um plantão psicológico online, realizado por psicólogas voluntárias, aos sábados. Dispõe ainda de grupos terapêuticos, com embasamento teórico da abordagem da terapia cognitivo-comportamental (TCC), e um grupo de apoio para pessoas enlutados por suicídio, sendo um trabalho de posvenção, com ações direcionadas para acolher o luto por suicídio.

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