Alexandre Gaspari explica riscos e impactos de explorar combustíveis fósseis na Amazônia

Por 28/02/2025
Alexandre Gaspari explica riscos e impactos de explorar combustíveis fósseis na Amazônia

Em estudo feito ano passado pelo Instituto de Pesquisas do Estado do Amapá  foi verificado que um vazamento de petróleo no bloco 59 contaminaria o litoral do estado e países vizinhos

Por Giulia Tessmann

Região de altíssima sensibilidade ambiental, a Amazônia convive com uma ameaça constante, onde a Petrobras tem planos de perfurar um poço para explorar petróleo no bloco FZA-M-59. Existem blocos na região que estão na Oferta Permanente de Concessão (OPC), da Agência Nacional do Petróleo (ANP), que podem ser vendidos a qualquer momento. O órgão regulador marcou um leilão que inclui 47 áreas na foz do Amazonas para 17 de junho.

Em uma matéria explicando sobre os riscos de explorar os combustíveis fósseis na Amazônia, o portal de notícias ClimaInfo alertou que investir nessa exploração é um péssimo negócio. Alexandre Gaspari, especialista em energia do Instituto ClimaInfo, destaca que “a atividade petrolífera tem alto impacto socioambiental, e estamos falando de uma região de altíssima sensibilidade ambiental”. 

Apesar da indústria de petróleo e gás venderem a ideia de que os combustíveis fósseis geram lucro, na verdade a maioria da população lidaria apenas com prejuízos sociais e ambientais. Ainda existe um outro impacto, de ordem econômica: o aumento do custo de vida. A atividade petrolífera é considerada “rica”, e por isso inflaciona preços onde se instala, “mas, como são poucos os que ganham bem, a maioria paga mais”, elucida o especialista. 

Foto: Moriyama/Greenpeace

A Agência Internacional de Energia (IEA) apontou que a demanda por petróleo vai entrar em queda a partir de 2030. De acordo com essa informação, investir em novas frentes de exploração, como no cenário da Amazônia, vai se tornar um prejuízo. O risco técnico de explorar combustíveis fósseis na foz do Amazonas é alto, podendo causar acidentes e estragos ambientais e sociais incalculáveis.

A exploração de combustíveis fósseis precisa da implantação de uma grande infraestrutura. Na Amazônia isso irá exigir supressão vegetal, bem como instalações marítimas e fluviais que impactam fauna e flora.  “Há exemplos em outros países amazônicos, como o Equador e o Peru, onde houve vazamentos de petróleo que causaram estragos ambientais incalculáveis”, explica Gaspari.

A ClimaInfo relembrou o incidente quando a Petrobras tentou perfurar um poço numa área próxima do atual bloco que querem explorar hoje, o FZA-M-59. Na época, a plataforma que seria usada para abrir o poço foi arrastada pelas fortes correntes marítimas da região, que no caso são influenciadas pelo imenso volume de água despejado pelo rio Amazonas. 

Gaspari expõe que por mais que a Petrobras diga que tem poucas ocorrências de acidentes em operações em alto mar, “as condições marítimas da foz do Amazonas são diferentes das encontradas no litoral do Sudeste, onde a empresa explora o pré-sal”. 

O Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA) organizou um estudo com o apoio do Greenpeace Brasil para verificar que um vazamento no bloco 59 contaminaria tanto o litoral do Amapá quanto países vizinhos. O especialista ainda indica que “o risco é altíssimo, para explorar um petróleo que, se existir, só começará a ser extraído a partir de 2031, na melhor das hipóteses. Estamos falando de um dos maiores sistemas de manguezais do planeta”.

Cerca de 100 poços para exploração de combustíveis fósseis na foz já foram perfurados entre os litorais do Pará e do Amapá. Por a região ser atingida por fortes correntes, muitos deles não foram finalizados. Já outros não encontraram petróleo ou gás, ou se encontraram, a quantidade não justificava o investimento.

“Somos um país que tem uma oferta de recursos naturais renováveis única, que talvez nenhuma nação em todo o mundo tenha igual”, expressa Gaspari. Para ele, o Brasil pode desenvolver alternativas energéticas renováveis por meio de outros meios, como energia solar e eólica, com possibilidade de regenerar áreas desmatadas com alternativas agroflorestais. 

O especialista finaliza dizendo que “a população da Amazônia precisa ter direito a um modo de vida digno e o país pode garantir isso sem precisar explorar uma só gota de petróleo na região, e mesmo em outras áreas do país”.

Foto de capa: Rodrigo Paiva/Greenpeace

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