A seleção que entrou em greve e transformou a Copa de 2010 num vexame mundial televisionado

Por 03/06/2026
A seleção que entrou em greve e transformou a Copa de 2010 num vexame mundial televisionado

Insultos no vestiário, vazamentos para a imprensa e discussões no meio do público levaram a França a uma crise sem precedentes durante a Copa realizada na África do Sul

Por Leonardo Piccinini

A França vinha de uma final de Copa em 2006, liderada por Zinedine Zidane. Mas, após a aposentadoria de Zizou, a seleção francesa perdeu sua referência técnica e moral.

O técnico era Raymond Domenech, figura extremamente controversa, que acumulava conflitos com jornalistas, dirigentes e jogadores. Sua relação com o elenco já estava desgastada antes mesmo da viagem para a África do Sul.

E ainda há outro detalhe: a França não deveria estar naquela Copa do Mundo. Nas eliminatórias, a equipe eliminou a Irlanda graças ao famoso lance em que Thierry Henry controla a bola com a mão antes do gol decisivo.

Domenech não tinha, contudo, uma seleção sem grandes nomes. Pelo contrário, os franceses contavam com jogadores como Nicolas Anelka, Patrice Evra e Franck Ribéry. Cada um assumiu um papel fundamental nas polêmicas que viriam a acontecer durante o torneio.

No primeiro jogo, contra o Uruguai, o empate em 0x0 confirmou algo que todos já sabiam: aquela equipe não possuía identidade alguma. Foi na derrota para o México por 2×0 na segunda rodada, porém, que a faísca explodiu.

No intervalo, com a França já perdendo, Domenech criticou Anelka. Há controvérsias entre ambas as partes e o jornal L’Équipe, que vazou a conversa, sobre o conteúdo exato da frase, mas é fato que o atleta respondeu o técnico de maneira agressiva.

Domenech e Anelka foram os personagens principais do conflito que marcou a Copa do Mundo de 2010 | Foto: AP

A Federação Francesa exigiu um pedido de desculpas ao jogador, que recusou de prontidão. Anelka, então, foi expulso da delegação e enviado de volta à França. E o conflito, antes entre atleta e treinador, virou um embate entre federação e jogadores.

O acontecimento mais marcante de toda a confusão aconteceu na cidade de Knysna em um treino aberto ao público. Em meio à multidão, de fãs curiosos à crianças pedindo autógrafos, o capitão Patrice Evra discutiu com o preparador físico Robert Duverne – tudo diante das câmeras.

O membro da comissão técnica arremessou o crachá no chão e abandonou o treinamento. Logo depois, todos os jogadores entraram no ônibus e fecharam as cortinas, recusando-se a treinar.

Por isso existe a brincadeira de que a França foi a primeira e única seleção da história a entrar em greve no meio de uma Copa do Mundo.

Confusão aconteceu diante de todos os torcedores presentes | Foto: Patrick Hertzog

O detalhe mais inacreditável é que os jogadores escreveram uma carta protestando contra a expulsão de Anelka. E quem leu a carta para a imprensa foi o próprio Domenech, causador de toda a confusão.

A mensagem que a França passava para o mundo era de que o elenco não confiava no seu treinador. E talvez nem a própria Federação Francesa, que o obrigou a ler publicamente um manifesto contra a seleção e ele próprio.

A repercussão do caso, que ficou conhecida como “Le Fiasco de Knysna”, não ficou restrita somente ao futebol. Atingiu ministros, e até mesmo o presidente da França à época, Nicolas Sarkozy, chegou a se envolver nas consequências políticas da crise.

Tudo isto aconteceu entre o segundo e o terceiro jogo da fase de grupos. Após a derrota para o México, a França perdeu por 2×1 para a anfitriã, África do Sul, e foi eliminada – acumulando apenas um ponto em nove possíveis.

Passado o fim do torneio, o presidente da Federação Francesa renunciou ao cargo, vários jogadores foram punidos disciplinarmente e, além disso, toda a seleção foi simbolicamente suspensa para um amistoso posterior, numa tentativa de marcar uma ruptura com aquele grupo.

Três dias depois da derrota para a África do Sul, um grupo de cerca de trinta torcedores invadiu a sede da Federação Francesa de Futebol (FFF), em Paris, e com gritos racistas, pressionou o até então presidente da entidade, Jean-Pierre Escalettes, a não mais convocar “pretos e muçulmanos” para a seleção.

Segundo o jornal Le Figaro, o grupo de torcedores, uma minoria que costuma fazer barulho principalmente em partidas do Paris Saint-Germain, invadiu a sede da FFF e pichou o muro da entidade com os dizeres: “Aqui é Paris, não Argélia”, em referência hostil à presença de imigrantes tanto na seleção quanto na sociedade francesa.

A eliminação foi somente uma consequência da crise, que já havia feito a França deixar de funcionar enquanto equipe muito antes da Copa do Mundo.

Não deixa de ser, porém, fascinante que o mundo inteiro tenha assistido uma seleção nacional se desintegrando ao vivo no meio do maior evento esportivo.

Anelka foi punido por 18 jogos | Foto: PhotoNews

Veja também