A casa fala mais que os personagens em ‘Seis Dias Naquela Primavera’, um belo filme irregular

Drama belga transforma uma casa vazia no centro de sua narrativa, mas demora a encontrar a emoção ao apostar mais na forma do que nas relações entre

Os Jardins Residenciais de Burle Marx em Fortaleza ganham destaque na Bienal do Livro
Oficina promove debate sobre a importância dos movimentos sociais no Brasil
Cinemark utiliza brecha na lei para cumprir mais rapidamente a Cota de Tela no país 

Drama belga transforma uma casa vazia no centro de sua narrativa, mas demora a encontrar a emoção ao apostar mais na forma do que nas relações entre seus personagens

Por Leonardo Piccinini

Ao abandonar o excesso de formalismo de seus primeiros minutos, drama revela que a verdadeira intimidade nunca esteve nos closes, mas nos espaços compartilhados | Fotos: Reprodução

Durante boa parte de seus minutos iniciais, ‘Seis Dias Naquela Primavera’ parece mais preocupado em demonstrar sensibilidade do que em despertá-la. A sucessão de closes, os enquadramentos sufocantes, a ausência quase completa de trilha sonora e a insistência em manter a câmera colada aos rostos criam a sensação de que basta aproximar a câmera para aproximar também o espectador. 

A aproximação que o filme tanto procura aparece, ora, apenas quando abandona essa necessidade de controlar o olhar do espectador. A câmera finalmente recua, o ambiente ganha espaço dentro do enquadramento e a narrativa deixa de depender exclusivamente das expressões dos atores. 

A intimidade, logo, nunca esteve escondida na distância entre câmera e ator. Ela estava na distância entre um personagem e outro, nos silêncios compartilhados, nos pequenos gestos e na linguagem corporal que os closes insistiam em esconder.

Após o divórcio, Sana (Eye Haidara) tenta reconstruir a própria vida ao lado do novo companheiro, Jules (Jules Waringo), enquanto cuida dos dois filhos. Durante as férias, sem encontrar hospedagem, os quatro acabam passando alguns dias na casa dos pais de seu ex-marido, um espaço que desperta antigas lembranças e transforma uma solução improvisada em um breve reencontro com a estabilidade que ela imaginava ter perdido para sempre.

Não demora, óbvio, para perceber que ninguém concentra tantas transformações quanto a própria casa. Quando a família chega, o imóvel permanece escuro, vazio e coberto pelo abandono de quem já não o frequenta. As crianças começam a abrir portas, arrastar objetos e desvirar as cadeiras apoiadas sobre a mesa, enquanto a fotografia acompanha discretamente essa mudança. 

A luz, aos poucos, passa a entrar pelas janelas, os enquadramentos respiram e a residência recupera, durante alguns dias, algo que havia perdido muito antes da chegada deles.

As cadeiras acabam concentrando o símbolo mais marcante do filme. Logo que chegam, as crianças as colocam na posição correta. Durante aqueles seis dias, a protagonista também parece desvirar a própria vida. 

Pela primeira vez desde o divórcio, volta a existir uma rotina leve, uma mesa ocupada, crianças correndo pela casa, alguém preparando o jantar e uma sensação, ainda que provisória, de que tudo poderia encontrar algum equilíbrio. 

O plano em que ela pede aos filhos para recolocar as cadeiras de cabeça para baixo encerra esse ciclo com uma força que poucas imagens conseguem alcançar. Tudo aquilo que havia sido reorganizado volta ao estado inicial. A casa retorna ao silêncio, ao abandono e à condição de espaço vazio, enquanto a breve experiência de reconstrução familiar também chega ao fim. 

Com Eye Haidara no papel principal, filme constrói uma poderosa metáfora sobre pertencimento e memória, embora passe boa parte da projeção confundindo intimidade com proximidade da câmera 

As portas se fecham, as cortinas voltam a esconder a luz, as cadeiras retornam ao lugar onde estavam quando ela chegou. Tudo aquilo que havia sido aberto durante seis dias torna a se fechar. É a confirmação de que aquela breve suspensão da realidade terminou e de que a protagonista precisa retornar à vida que tentava esquecer. 

A escolha por acrescentar uma imagem mais leve logo depois reduz parte desse impacto. Não chega a comprometer a delicadeza da obra, mas suaviza um pessimismo que vinha sendo construído com enorme cuidado. 

‘Seis Dias Naquela Primavera’ passa boa parte do tempo procurando intimidade onde ela nunca esteve. Quando finalmente encontra esse caminho, já não precisa de closes, nem de enquadramentos sufocantes. 

Basta acompanhar uma mulher fechando portas, apagando a luz da casa e pedindo aos filhos que virem novamente as cadeiras sobre a mesa. Em poucos segundos, o filme diz muito mais do que conseguiu dizer durante boa parte de sua duração. 

COMMENTS

WORDPRESS: 0
DISQUS: