A ação pastoral do papa Francisco

Por 25/04/2025
A ação pastoral do papa Francisco

Quais as características do reformismo do pontífice?

Por Aloísio Martins

O jornalista Clóvis Rossi (1943-2019) escreveu na Folha de São Paulo, na edição do dia 14 de março de 2013, o artigo – O papa e o pecado da omissão – no qual afirmou: “Jorge Mário Bergoglio leva ao Vaticano um pecado imperdoável: foi no mínimo omisso durante o genocídio que a ditadura militar argentina praticou entre 1976 e 1983.”

Rossi questionou a ascensão do prelado argentino à condição de Sumo Pontíficie um dia depois da fumaça branca no Vaticano anunciá-lo como Bispo de Roma. O jornalista baseou-se na conjuntura argentina, na qual o País sofreu com as torturas impostas pelo regime aos presos políticos e prisões arbitrárias aos opositores do autoritarismo em vigor. 

Neste período, segundo Rossi, Bergoglio, que sempre negou colaboração com a ditadura, era uma figura destacada na hierarquia eclesiástica: fora provincial dos jesuítas entre 1973 e 1979. Sendo que as atividades mais selvagens da repressão se deram, notadamente, entre o golpe de 1976 e 1978, quando a esquerda armada estava derrotada e houve o encarceramento arbitrário de opositores desarmados.

Na conclusão do texto, o jornalista ponderou: “Os homens passam a ser santos, ou quando morrem ou quando assumem o papado. A ver se o papa Francisco corrigirá no Vaticano o pecado de omissão de Bergoglio.”

Na manhã desta quarta-feira foi realizado o traslado do corpo do papa Francisco, falecido na segunda-feira, 21, da Casa Santa Marta para a Basílica de São Pedro. Ao longo do caminho, 20 mil pessoas saudaram a passagem do cortejo, homenageando o pontífice falecido (CNBB, 23 de abril de 2025)

Por sua vez, o jornalista Eduardo Graça, no jornal O Globo, da última segunda-feira, edição de 22 de abril de 2025, escreveu o artigo – Papado de Francisco foi marcado por reformas corajosas, mas com tropeços em temas sensíveis -, em que analisa a trajetória do Santo Padre.

Há uma diferença entre as observações de Rossi e Graça. Esta situa-se no marco temporal. O primeiro escreveu no calor da hora e considerou uma conjuntura marcante na América Latina, os golpes de Estado; já Graça apreciou um lapso de tempo maior. Assim, refletiu na condição de quem vivenciou o auge da vida eclesiástica de Bergoglio. 

Ao longo da escrita n’O Globo, o papa Francisco (1936-2025) é analisado como um clérigo reformista. Temas sobre a xenofobia contra imigrantes, o consumismo ganancioso, um individualismo avesso à justiça social, as severas mudanças climáticas que põem em xeque a própria existência da humanidade, a intolerância religiosa e a reparação aos sofredores de crimes sexuais, incluindo os praticados na ambiência católica são dominantes.

Ainda é exaltada a comunicação ininterrupta com o único pároco católico na Faixa de Gaza, padre Gabriel Romanelli. Mesmo condenando o Hamas, Francisco enfatizou a desproporcionalidade dos ataques das forças armadas de Israel aos que viviam indefesos em Gaza: palestinos, protestantes e muçulmanos. Daí é possível mencionar o caráter ecumênico presente na ação pastoral do papa falecido.

Eduardo Graça, entretanto, enumera temas ausentes no papado que finda: aborto, eutanásia, identidade de gênero e casamentos homoafetivos. Isto, porém, não o impede de afirmar sua convicção no “farol de esperança”, pois Francisco foi eloquente em denunciar a extrema direita e o fez em carta aberta aos bispos dos Estados Unidos, três dias antes de ser internado para tratar de uma pneumonia.

A carta ao bispado norte-americano tratou da deportação em massa de imigrantes sem documentação legal pela presidência de Donald Trump. Nela, enfatizou a violação da dignidade humana e o desprezo ao amor cristão caracterizado por ser pautada nos direitos humanos, independentemente da crença religiosa. 

À sua maneira, cada jornalista vivenciou contextos históricos diferentes. 

Clóvis Rossi, como correspondente da Folha de São Paulo em Buenos Aires à época da ditadura, observou diretamente o sofrimento imposto pelos militares aos opositores do regime e prezava pela redemocratização em toda a América Latina, algo ocorrido na década de 1980. Então, a oposição aos governos autoritários configurou-se em algo essencial para a sua concepção profissional. Daí as dúvidas sobre o Bergoglio papa.

Eduardo Graça vive a democracia no Brasil e na Argentina, apesar de ainda existirem limitações à participação coletiva. Outras pautas sociais conquistaram notoriedade e atualmente mobilizam parte da sociedade civil, especialmente aquelas vinculadas aos direitos humanos. 

Jornalismo, portanto, é diversidade!

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