Redes sociais ajudam famílias a entenderem melhor o autismo

​As crianças com autismo têm dificuldade de interação. Foto: Reprodução.
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Por Clara Menezes

Com o objetivo de conscientizar a sociedade da importância do conhecimento sobre o autismo, as redes sociais vêm ajudando a propagar suporte, histórias e direitos dos portadores dessa síndrome. “A criação de grupos de pais, como é o caso da Associação Fortaleza Azul, que tem atualmente mais de 150 famílias de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), ajuda bastante. A gente se ampara, uma vez que temos pais de crianças, jovens e adultos com autismo no grupo”, diz a jornalista Helaine Oliveira, 36, mãe de João Roberto. Outra associação conhecida na Internet é a Pintando o SeTEAzul, que possui como objetivo proporcionar à pessoa com autismo uma vida digna, oferecendo suporte às famílias.

O autismo ainda é um assunto pouco entendido pela sociedade. Apenas em 1993, a síndrome foi adicionada à Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde. Além disso, o diagnóstico ainda é impreciso por não ter nenhuma indicação genética de que ela realmente está presente na pessoa.

João Roberto se comunica verbalmente e estuda em escola regular. Foto: Arquivo Pessoal.

Apesar dessa situação de incerteza, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), uma agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, estima que cerca de 2 milhões de brasileiros têm TEA, chamado mais comumente de Autismo. Essa síndrome possui algumas características específicas, como dificuldade de interação social, atraso ou perda de fala, dificuldade de aprendizagem, movimentos repetitivos, falta de contato visual, etc.

“A criação de grupos de pais, como é o caso da Associação Fortaleza Azul, que tem atualmente mais de 150 famílias de pessoas com TEA, ajuda bastante. A gente se ampara, uma vez que temos pais de crianças, jovens e adultos com autismo no grupo” (Helaine Oliveira)

 

Importância da família

Para a psicóloga clínica, Cristiane Amorim, 49, a compreensão da família acerca do Transtorno do Espectro Autista é importante para favorecer o desenvolvimento do filho e para permitir que ele adquira independência e se sinta valorizado. É necessário, também, que a criança com autismo tenha desde cedo apoio de especialistas, como psiquiatras, pediatras, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, especialistas educacionais e fonoaudiólogos.

​Diuenia descobriu que seu filho tinha autismo depois de passar por muitos médicos. Foto: Arquivo Pessoal.

Apesar da necessidade do apoio familiar, a realidade, muitas vezes, não é assim. Muitas pessoas ainda abandonam os filhos e parentes com espectro autista. Esse é o caso da moradora de São Gonçalo, Diuenia Sousa Alves, 40, que têm um filho, Marcelo, de 10 anos. “A minha família quase não tem mais contato com ele e seu pai o abandonou quando ele tinha 6 anos. Agora mora só eu e o Marcelo”, conta Diuenia. No entanto, apesar das dificuldades, ela conta que os dois vivem felizes e que seu filho já passou da fase dolorosa de adaptação escolar e está bem.

“A minha família quase não tem mais contato com o Marcelo e seu pai o abandonou quando ele tinha 6 anos. Agora mora só eu eu o ele” (Diuenia Sousa Alves)

Segundo a psicóloga Cristiane, as pessoas com TEA têm problemas de percepção, podendo, às vezes, não reconhecer seus familiares. Por isso, “é importante treinar os filhos para que eles estejam sempre por perto. Mas, na medida do possível, deixá-los livres para socializar”, conta ela.

 

Adaptação nas escolas

De acordo com os Direitos da Pessoa com Deficiência, todas as escolas devem oferecer condições necessárias para que o aluno com deficiência se adapte ao ambiente, seja oferecendo um Atendimento Educacional Especializado (AEE), seja especializando os profissionais para saberem lidar com as necessidades de cada estudante com deficiência. No entanto, os ambientes escolares, muitas vezes, não oferecem as oportunidades necessárias para que essas crianças e adolescentes se adaptem.

“Após o diagnóstico dos meus filhos comuniquei à escola sobre o fato, mas eles não deram importância. Era uma escola grande da cidade. Então, decidi mudar para uma escola menor. Eles iniciaram nesse ambiente novo e não tiveram mais problema com adaptação”, conta a professora Fernanda Cavalieri, 36, mãe dos gêmeos Daniel e Gustavo, 6. Seus dois filhos estão na mesma escola desde 2014.

“Após o diagnóstico dos meus filhos comuniquei à escola sobre o fato, mas eles não deram importância. Era uma escola grande da cidade. Então, decidi mudar para uma escola menor. Eles iniciaram nesse ambiente novo e não tiveram mais problema com adaptação” (Fernanda Cavalieri)

​Daniel e Gustavo tem autismo considerado de moderado a severo e os cuidados da família são totais. Foto: Arquivo Pessoal.

Fernanda conta que seus filhos nunca sofreram bullying, porque as crianças costumam ser bastante receptivas a diferenças. Já para a jornalista Helaine Oliveira, mãe de João Roberto, ela presenciou o preconceito e a falta de acolhida de alguns pais. “A gente vê que o preconceito, quando existe, está mais nos pais do que nas próprias crianças”, conta a jornalista.

“A escola, como base educadora, deve realizar palestras que expliquem e incentivem a necessidade de se conhecer o autismo. Ela deve ser a base da socialização”, explica a assistente social Lizandra Duarte, 24. De acordo com ela, o preconceito e o bullying ocorrem, principalmente, por causa da falta de conhecimento.

 

Futuro

Apesar do aumento da conscientização acerca do autismo, principalmente, por meio das redes sociais, o preconceito ainda pode ser bastante comum. Isso se desdobra desde a infância até a vida adulta, podendo ser vista pela falta de aceitação dos pais nas escolas e pelas poucas oportunidades de empregos oferecidas às pessoas com deficiência.

“A gente precisa confiar na capacidade deles e dar todo o incentivo para que eles brilhem em suas áreas”, conta a jornalista Helaine Oliveira. “Acredito que se a gente criar um alicerce forte hoje, quando eles estiverem maiores, estarão prontos para serem merecedores de todas as potencialidades que têm e poderão mostrar isso para a sociedade”, continua.

“Acredito que se a gente criar um alicerce forte hoje para quando eles estiverem maiores, estarão prontos para serem merecedores de todas as potencialidades que têm e poderão mostrar isso para a sociedade” (Helaine Oliveira)

“Alguns autistas têm uma capacidade e potencial em áreas específicas que impressionam”, afirma a psicóloga Cristiane Amorim. Para ela, é preciso que as empresas se ajustem às necessidades específicas daquele funcionário, pois cada pessoa com TEA é diferente uma da outra. No entanto “a Lei de Cotas não deveria ser feita apenas como lei, e sim como uma questão de responsabilidade social”, diz Cristiane.

 

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