“Não podemos mais nos calar, nem nos omitir diante dos ataques que estamos sofrendo”


Samira de Castro eleita presidente da Fenaj, com 1.779 votos

Por Carlos Enrique

Em um período marcado pelo crescimento de forças avessas à democracia, o jornalismo profissional é cada vez mais importante. Este mote é sustentado pela jornalista Samira de Castro, candidata a assumir o cargo de presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). As eleições da entidade acontecem nos dias 26, 27 e 28 de julho.

Formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Samira concorre ao cargo pela chapa Unidade na luta – Em Defesa do Jornalismo, dos Jornalistas e da Democracia. Samira ainda faz um ode à defesa dos profissionais da imprensa. Segundo a jornalista, não é mais possível assistir passivamente aos ataques dirigidos à classe.

Um dos principais focos de atenção de Samira é a aprovação, na Câmara dos Deputados, da PEC do Diploma. A proposta tem como objetivo exigir a apresentação de diploma de graduação em jornalismo para o pleno exercício da profissão no Brasil. 

Samira também apontou para a importância histórica da FENAJ na defesa do jornalismo profissional no Brasil. Segundo a candidata, a entidade “sempre se destacou na longa e árdua jornada pela adoção de regras que organizem a profissão, garantindo à sociedade o acesso público à informação ética e plural”. 

Samira afirma que candidatura única é sinal de fortalecimento da Fenaj / Foto: Reprodução / Jefferson Pereira

NewsLink: O que a sua candidatura significa para a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ)?

Samira de Castro: Minha candidatura é o resultado da unidade de todos os grupos políticos que atuam no movimento sindical dos jornalistas brasileiros. É a segunda eleição consecutiva da FENAJ em que não haverá disputa de chapas. É uma demonstração de maturidade política da categoria para compreender que neste momento só unidos e juntos, vamos nos fortalecer enquanto categoria. 

Somos um grupo de trinta e cinco pessoas na chapa Unidade da Luta, em Defesa do Jornalismo, dos Jornalistas e da Democracia. Contamos com a representação de jornalistas de todas as regiões do país e da maioria dos sindicatos ligados à FENAJ. Estes cargos incluem a diretoria Executiva, as vices presidências regionais, as secretarias e o conselho fiscal.    

NL: Em um momento de animosidade dirigida aos profissionais da imprensa, qual o papel da  Federação Nacional dos Jornalistas?

SC: Neste momento de crescente violência contra os jornalistas e a incompreensão do papel institucional da imprensa , é fundamental o papel da FENAJ. É importante que a entidade consiga movimentar a categoria por meio dos sindicatos filiados e estabelecer uma reação entre os próprios jornalistas, para que a categoria fique unida e, organizada, possa se contrapor a este momento de tensão que hoje existe na sociedade.  

Complementando, os jornalistas foram postos em uma berlinda. Não podemos mais nos calar, nem nos omitir diante dos ataques que estamos sofrendo. Se não defendermos a nossa profissão, ninguém mais o fará. Não nos resta alternativa, a não ser nos organizarmos dentro dos sindicatos e da Federação Nacional dos Jornalistas. 

NL: A importância do jornalismo profissional é ainda maior na atual conjuntura política brasileira?

SC: A importância do jornalismo é ainda maior dentro da atual conjuntura política, econômica e social não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro. A pandemia de covid-19 veio nos mostrar que não conseguiríamos sair desta situação de crise sanitária sem o trabalho dos jornalistas. Foram os profissionais da imprensa que buscaram a Ciência, as explicações sobre a questão da covid. Eles buscaram orientar a população com seu trabalho de serviço.  

A ocupação russa na Ucrânia também mostra a importância dos jornalistas nas coberturas dos grandes conflitos da geopolítica internacional. No Brasil, podemos citar o caso de uma criança vítima de estupro e que estava grávida. Ela teve o direito ao aborto, cerceado pela Justiça, mas graças ao jornalismo independente e alternativo realizado pelo The Intercept e pelo Portal Catarinas, foi assegurado a ela o direito a realizar um aborto legal. 

 NL: Quando podemos diferenciar críticas feitas por lideranças políticas de atitudes que visam a silenciar o meio jornalístico?

SC: A eleição de Jair Bolsonaro inaugura uma nova fase de relacionamento do poder Executivo com a imprensa. Bolsonaro é, inevitavelmente, o maior agressor de jornalistas. Ele faz disto uma política de governo. Ele institucionaliza a violência contra a categoria. Os três últimos levantamentos da FENAJ, intitulado Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil, apontam o presidente como o maior agressor. Bolsonaro faz parte de uma linha de políticos populistas autoritários de extrema-direita, que querem desacreditar o trabalho da imprensa, como das instituições tradicionais, com o objetivo de fazer a sua narrativa se sobressair.

NL: Jair Bolsonaro foi eleito em um momento em que várias nações do planeta viram lideranças avessas ao diálogo e ao respeito à pluralidade vencerem pleitos eleitorais. Como podemos vislumbrar o futuro do jornalismo profissional nesta ocasião?

SC: Jair Bolsonaro tem um objetivo específico, que é fazer com que a população não consuma mais informação do jornalismo profissional. É um objetivo político, com a busca de permanecer no poder. 

NL: Como podemos mensurar a importância histórica da Federação Nacional dos Jornalistas para o integral funcionamento da profissão no país?

SC: A Federação Nacional dos Jornalistas está, definitivamente, incorporada às lutas em defesa dos profissionais da imprensa. Criada em 1946, sempre se destacou na longa e árdua jornada pela adoção de regras que organizem a profissão, garantindo à sociedade o acesso público à informação ética e plural. A FENAJ possui vinte e sete sindicatos estaduais e quatro de base municipal e tem dado demonstrações históricas de preocupação com a liberdade de comunicação e com a democracia como um valor inalienável ao cidadão.  

NL: Qual a sua mensagem para os estudantes de jornalismo diante deste contexto brasileiro? 

SC: A defesa do jornalismo passa, necessariamente, por uma formação profissional sólida, com a aquisição de conhecimentos teóricos e práticos, juntamente com o comprometimento ético. Para a FENAJ, a qualidade da formação do jornalista, tendo como pilar principal a graduação, vêm sendo umas das grandes preocupações e aspirações da entidade. É um valor que não se pode abrir mão. Nossa chapa busca dar continuidade na luta pela aprovação da PEC do Diploma na Câmara dos Deputados. Também temos o compromisso de trabalhar pela atualização da regulamentação profissional dos jornalistas. 

Aos estudantes, digo para abraçarem a universidade. Aproveitem a formação profissional, as experiências de pesquisa e saiam para o mercado de trabalho sabendo que há um compromisso indissociável do jornalista com a democracia.

Foto em destaque: Blog do Lauriberto

2 thoughts on ““Não podemos mais nos calar, nem nos omitir diante dos ataques que estamos sofrendo”

  • 4 de julho de 2022 em 21:26
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    Me orgulha muito em ver a trajetória que meu colega Carlos Enrique está seguindo. Gostaria de ressaltar o quanto me espelho em suas conquistas.

    Resposta
  • 4 de julho de 2022 em 21:27
    Permalink

    Como é bom ver os colegas construindo uma trajetória tão linda. Carlos Enrique, gostaria de ressaltar o quanto me espelho em suas conquistas.

    Resposta

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