“La mano de Dios” de Maradona, símbolo de revanche argentina dentro de quatro linhas

Jogador ficou eternizado por gols emblemáticos em uma partida de Copa do Mundo contra a Inglaterra após rivalidade da Guerra das Malvinas


Por Guilherme Gonsalves

No dia 22 de junho de 1986 aconteceu um dos jogos mais marcantes da história da copas: Argentina e Inglaterra no estádio Azteca, na Cidade do México. Os hermanos venceram a partida por 2 x 1 com dois gols emblemáticos de Maradona, um passando por vários adversários e a tão famosa “La mano de Dios”. Mas, o que estava em campo não era apenas uma vaga para as semifinais da Copa do Mundo, porém uma batalha geopolítica e patriótica de muita rivalidade entre argentinos e ingleses.

Rivalidade histórica

As duas seleções haviam travado uma partida polêmica na Copa de 1966, quando a Inglaterra venceu por 1 x 0, com gol de Geoff Hurst. Porém, o jogo ficou mais conhecido pelo momento em que o jogador argentino Rattin foi expulso por ofender o árbitro, e, ao sair de campo, amassou uma bandeira inglesa no escanteio e sentou no tapete exclusivo para a Rainha. Desde o episódio, os dois países passaram a ter rivalidade dentro de campo, mas passaria a ter richa nas questões políticas em 1982, quando aconteceu a Guerra das Malvinas.

“A Guerra das Malvinas se deu no contexto do segundo momento da ditadura militar. O governo já estava um fiasco e Galtieri tentou invadir as Malvinas para gerar popularidade, alegando uma briga diplomática histórica entre Argentina e Inglaterra para ver quem era dono daquelas ilhas. Ele vai invadir, pois quase não havia tropas inglesas, vai noticiar como uma grande vitória, mas a Inglaterra reagiu com força. No final da guerra, a Argentina teve mais de 600 mortos, cerca de mil feridos e mais de 10 mil presos. Esse fiasco acelerou a saída do governo militar, pois vieram a renunciar dias depois. Galtieri tentou gerar popularidade e acabou gerando um efeito catalisador resultando na saída dos militares”, é o que conta o professor João Paulo, 40, formado em História pela Universidade Federal do Ceará e especialista em relações internacionais e diplomacia.

Homenagem a vítimas do conflito em Buenos Aires / Foto: Guilherme Gonsalves

A revanche de Deus

Quatro anos depois do conflito, Argentina e Inglaterra se enfrentaram nas quartas de final da Copa do Mundo do México. A partida causou tensão antes do jogo e a segurança foi reforçada, porém houve relatos de confrontos entre torcedores argentinos barra bravas, e hooligans ingleses e muitos cartazes lembrando a Guerra das Malvinas. O jogo começou para mais de 110 mil presentes que puderam testemunhar Diego Armando Maradona aos cinco minutos do segundo tempo marcar um gol de mão, passando despercebido pela arbitragem, lance conhecido como “La mano de Dios”. Menos de cinco minutos depois, o craque argentino passou por cinco adversários ingleses e marcou um dos mais bonitos gols das copas. A Inglaterra ainda diminuiu com Gary Lineker, mas terminou em 2×1 para os hermanos.

Para a nação argentina foi mais do que uma vitória dentro de campo, como conta o gerente de projetos Federico Teixido, 31, natural de Buenos Aires, “O povo argentino precisava de consolo e esse foi o significado para todos. Nossa maneira de expressar o que sentíamos foi possível através daquele jogo. Não era sobre futebol, era sobre um povo sem voz”.

Maradona comemorando um dos gols na partida / Foto: Reprodução

Momentos históricos como esse imortalizaram Maradona como o maior ídolo da Argentina e tem esse reconhecimento até por brasileiros e amantes do futebol como o professor João Paulo. “O Maradona é grandioso, supera o jogador do futebol e está além. Ele adentra o campo da política e até porque não da religião. É uma figura polêmica que mostrava as fragilidades além da grandiosidade. A passionalidade que o povo argentino adora, se doando e sangrando dentro de campo.”

“Maradona simboliza a esperança de quem não tem voz. Ele falava com seus gols e com suas palavras. Ele sabia representar o que muitos queriam dizer e não podiam”, afirma Federico, que, mesmo não sendo nascido durante o conflito e o jogo, sabe da representação do jogador.

Foto em destaque: Getty Images

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

css.php