“Houve um aumento de 570% de denúncias de violência contra idosos”

Médico e geriatra Charlys Nogueira comenta sobre o cotidiano da população idosa e o XI Congresso Norte e Nordeste de Geriatria e Gerontologia que ocorrerá no período de 23 a 25 de junho


Por Julia Freitas Neves

Os idosos são os cidadãos com 65 anos ou mais, de  acordo com o IBGE. Hoje, esta parcela populacional representa 10,49% dos brasileiros, ou mais de 22 milhões de pessoas. Este quadro chama a atenção quando o dia 15 de junho último, marca o Dia de Conscientização do Combate à Violência contra Idosos.

Em vídeo com o médico e professor Ricardo Pereira, o geriatra Charlys Nogueira expõe que o período de isolamento social levou ao aumento da violência contra os idosos. Houve um aumento de 570% de denúncias da violência contra essa população nos últimos dois anos. De acordo com dados fornecidos pelo geriatra, 77% das denúncias ocorrem por negligência, 51% abuso psicológico, 38% abuso financeiro e 26% violência física e maus tratos. “Não fazer pelo idoso é uma violência”, disse Charlys Nogueira.

Geriatra Charlys Nogueira participa do XI Congresso de Geriatria e Gerontologia / Foto: Arquivo Pessoal

O país conta com mais de 80 mil denúncias registradas pelo serviço de proteção aos direitos humanos. A Delegacia de Proteção ao Idoso e à Pessoa com Deficiência, parte especializada na proteção desses grupos, criada em 2018, constatou 113 inquéritos policiais, 283 registros de boletins de ocorrência e oito termos circunstanciados de ocorrência no seu primeiro ano. De acordo com a delegada Janaína Braga, titular da DPIPD, “as pessoas nos procuram para fazer a denúncia com o objetivo de combater a violência tanto contra pessoa idosa, quanto contra a pessoa com deficiência, porém, em alguns casos, não é tão fácil detectar essa agressão, já que muitas vezes ela é velada pelo próprio infrator, ou, até mesmo, negada pela própria vítima. Vale ressaltar que geralmente a violência é praticada por um familiar, por isso, a necessidade de uma conscientização por parte de todos: família, sociedade e Estado”, disse a delegada em 2019.

Como parte da conscientização ao dia do idoso, o XI Congresso Norte/Nordeste de Geriatria e Gerontologia será realizado de 23 a 25 de junho em Fortaleza, com o intuito de debater o cuidado humanizado com o idoso. Com cursos, palestras, mesa redonda, simpósio satélite(evento com transmissão simultânea) e simpósio proposto (os simpósios propostos têm como objetivo proporcionar uma participação ativa dos profissionais que trabalham na área), gero connection (explicado mais abaixo) e encontro de ligas. Atividades socioeducativas estão sendo realizadas esta semana – de 13 a 17 de junho – nos bairros Conjunto Palmeiras, Cristo Redentor e Conjunto Ceará, entre 8 e 17 horas, para informar sobre os tipos de violência contra a pessoa idosa, os direitos e prevenção contra maus-tratos. 

O NewsLink entrevistou o médico Charlys Barbosa Nogueira, professor da Universidade Federal do Ceará e presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, sobre o junho violeta e a vivência da população idosa.



NewsLink: O Brasil vai se tornar um país de idosos em 2030, conforme projeções do IBGE. O que a população precisa saber mais sobre esta fase da vida desde já?

Charlys Barbosa Nogueira: De fato, as projeções epidemiológicas registram o Brasil como sexta maior população idosa do mundo em 2025. Porém, vale ressaltar, que hoje já temos uma população idosa bastante pronunciada, de 10 a 12 por cento da população brasileira tem acima dos 60 anos. Isso, sem dúvidas, aumenta progressivamente nossa responsabilidade como sociedade com sistema de saúde para o melhor atendimento para esta população. Isso serve não só para nos preocuparmos com aspectos de saúde, mas também de qualidade de vida dos idosos. Para aqueles que querem saber mais sobre esta fase da vida, o primeiro conselho é: cuide dos seus hábitos de vida desde hoje, desde quando criança, jovem, ou idoso. Então, cuide da sua saúde, de doenças que você porventura tenha, vá ao médico periodicamente para fazer prevenção ou check up, e uma vez identificada as doenças, trate-as. Cuide dos seus hábitos de vida, tenham uma dieta equilibrada, pouca gordura, pouca caloria, com mais nutrientes, com mais proteínas, com mais saladas frescas, com mais frutas, “descasque mais, desempacote menos”. Durma bem, cuide do seu sono, ao menos 6 à 8 horas de sono, pratique atividades física regulares, tudo isso provém um envelhecimento saudável e produtivo.

NL: Em 2016, Fortaleza sediou o X Congresso  Brasleiro de Geriatria e Gerontologia. O tema na época foi: Como estamos envelhecendo: o indivíduo, a sociedade e o Brasil? Seis anos depois, o senhor é otimista ou pessimista em relação a esta pergunta?

CBN: Sempre vejo perguntas sobre como estamos envelhecendo e como o Brasil vem trabalhando o envelhecimento de forma muito otimista. Até porque os números nos mostram isso. Temos envelhecido cada vez melhor, de forma mais produtiva, saudável, e linkados com a comunidade e aspectos relacionados a ela. Hoje, o idoso participa mais da nossa sociedade e tem mais autonomia do que tinha décadas atrás. Se isso vem acontecendo da forma mais adequada, de forma lenta ou rápida, isso é uma outra pergunta. Na minha percepção, ainda de forma lenta. Poderíamos estar melhor, e precisamos trabalhar nisso. É um dos pontos que eventos científicos do Congresso no Norte e Nordeste de Geriatria, assim como outros eventos têm a responsabilidade de trazer essa discussão para os mais diversos profissionais da área da saúde geriátrica, tentando melhorar ainda mais a qualidade de envelhecimento que vem em uma crescente.

NL: Por que o XI congresso, de 23 a 25, é uma boa oportunidade para conferir sobre o tema, pós-pandemia?

CBN: Termos o décimo primeiro congresso de geriatria de forma presencial já é uma boa oportunidade de estar presente e conferir o tema pós-pandemia. Teremos mesas específicas sobre as evoluções e as repercussões da pandemia, não só no contexto saúde física, repercussões neuróticas, repercussões funcionais, repercussões pneumológicas, como também as repercussões psíquicas da própria pandemia. Teremos uma mesa com um tema que vem chamando bastante a atenção do congresso que são as repercussões do isolamento, isolamento que sabemos que foi necessário, mas que também trouxe repercussões danosas. Como também traria repercussões danosas se não estivéssemos isolados naquele momento tão crucial da pandemia. Porém o isolamento trouxe repercussões. Para aqueles que já estavam doentes, por exemplo, pacientes com doença de alzheimer, evoluíram com pioras por falta de estímulo por parte de familiares e profissionais que os visitavam e deixaram de visitar e idosos sadios, que passaram a perder musculatura e autonomia, ficaram também mais adoentados. Os hábitos de vida pioraram, pois os idosos ficaram menos ativos no isolamento, e, sobretudo, a não interação com as pessoas amadas de uma forma cotidiana trouxe também repercussões danosas. Lembrando, o isolamento foi necessário, porém, a gente tá avaliando agora as repercussões do que ocorreu.

NL: Como estamos lidando com a população idosa e suas necessidades?

CBN: Nós, enquanto sociedade brasileira, e do Estado do Ceará, ainda precisamos melhorar muito em relação a como lidamos com a população idosa e as suas necessidades. Primeiro entendimento que temos que ter como população é que o idoso é nada mais do que nós mesmos, em uma fase mais a frente de nossas vidas. Quando passamos a olhar dessa forma, a gente passa, sem dúvida, a agir de uma forma mais apropriada, mais adequada. Precisamos investir mais nessa fase da vida, se percebe poucos investimentos, um exemplo que dou é a pequena quantidade vagas de instituições de longa permanência para idosos, que antigamente era chamado de “azilos”, dentro do Brasil, e não é algo diferente em nosso estado. Ainda temos quantidades inferiores às necessidades dos idosos, temos alguns vivendo em condição de rua, outros vivendo na comunidade em condições de maus tratos, ou de cuidados inadequados ou insuficientes, e há necessidade de se investir mais para dar condições melhores de vida para esses cidadãos. Ainda temos poucos serviços de saúde voltados e poucos espaços voltados para a saúde e bem-estar dos idosos, inclusive na convivência. Então, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), tem uma grande responsabilidade neste contexto de informar a população acerca destes problemas, e aí entra a promoção de eventos científicos de qualidade como o congresso Norte e Nordeste de geriatria e gerontologia.

NL: Enquanto médico e professor, com pesquisas voltadas para a saúde do idoso, a neuropsiquiatria  geriatra, demência e síndrome de fragilidade do idosos, qual sua visão  mais apropriada sobre a definição da velhice, como mudança fisiológica?

CBN: A velhice ou o envelhecer nada mais é que mais uma fase de nossa vida. Assim como existe o nascimento, existe o crescimento, a fase de criança, de adolescente, adulta e idosa, todas elas com suas vantagens e seus contratempos. Todas, posso afirmar, que com mais vantagens do que contratempos, se a gente sabe aproveitá-las e se não lutarmos contra essa lei natural, que é envelhecer. Os piores pacientes são aqueles que não aceitam o processo de envelhecimento, e isso torna essa fase muito difícil para esses indivíduos.   

NL: Parte do congresso é a Gero Connection, qual sua importância?

CBN: Falando acerca do congresso e especificamente da geroconnection, esperamos que essa edição do congresso seja um grande sucesso. Já contamos com mais de 500 inscritos, não só Norte e Nordeste mas também de outras regiões do país, além de pessoas de outros países. Estamos muito satisfeitos com isso. Contamos com convidados de renome nacional e inclusive internacional, temos momentos de interação com profissionais do Brasil e do mundo, estamos  chamando isso de “geroconnection”. É um momento onde um convidado que pode estar fora do país, como um convidado americano que teremos, um convidado de Porto Alegre, de São Paulo, ou de outros estados, podem estar de suas casas trazendo uma aula e uma discussão ao vivo para uma plateia que estará no auditório. E esses profissionais estarão disponíveis para discutir com as pessoas da plateia dúvidas e questionamentos que elas tragam. Foi uma boa herança que a pandemia nos trouxe. A possibilidade de aliarmos tecnologia e crescimento em ciência, em saúde e em educação. Inclusive teremos a presença do professor titular da cadeira de telemedicina da USP que vai nos falar acerca da evolução da telemedicina e da aplicação da telemedicina no contexto da saúde da pessoa idosa. Além de uma mesa inteira com mais dos outros profissionais falando sobre esse tema “telesaúde”, um tema extremamente atual, que também é uma herança dessa pandemia e que pode ser bem positiva se tal instrumento for bem utilizado. 

Dr Chalys Barbosa para a UFC TV

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

css.php