M. Dias Preto redesenha sua caminhada enquanto corpo que existe e resiste

A busca pelo resgate da própria identidade e memória ancestral por meio da fotografia e suas intervenções é o que marca a trajetória do artista, em exposição virtual


Por Marília Brizeno

Ao expor suas dores como processo terapêutico de cura, o artista cearense M. Dias Preto (o M é de Matheus) tece as memórias familiares a partir da expectativa da sua caminhada da infância até a vida adulta. “Campo de Passagem” é uma mostra que detalha a vida de uma bicha preta atravessada por questões que perpassam raça, sexualidade, assédio e hierarquia militar. Em exposição durante todo o ano na plataforma digital Kuula, o projeto conta com visualização 3D para transmitir toda a experiência artística ao público, o fazendo embarcar nas memórias e trajetos familiares.

Por meio de fotografias, pinturas e intervenções imagéticas, a linha do tempo de vida de Dias Preto agora é traçada da maneira que o artista nunca pôde deixar fluir enquanto criança fora do padrão branco heteronormativo. Hoje ele pode reescrever a própria história, agora destacando suas singularidades não mais como algo a ser reprimido ou ridicularizado, mas como potencial artístico.

Em contrapartida, a desvalorização da arte de pessoas pretas impacta ainda mais a maneira com que os projetos do artista se desenvolvem. “Por muitos anos não acreditava que o que eu produzia era arte e que poderia receber reconhecimento e possibilidades financeiras para continuar criando. Não ver outros iguais a mim prosperando na profissão me fez crer que precisava seguir outro caminho e por um tempo me distanciei da arte”, conta Matheus.

Fotos: Reprodução / Campo de Passagem

M. Dias Preto estabelece Campo de Passagem como um livro-diário-casa, onde sua fortaleza é constituída não só do que é firme, mas também de sutilezas e fragilidades que buscam mostrar toda a complexidade da sua figura “feminina-masculina”, como o próprio artista define.

O projeto, que nasceu em 2020, se iniciou por meio da transmissão oral de conhecimentos dos familiares mais velhos e posteriormente se entrelaçou aos episódios vividos na própria pele, como o bullying devido à feminilidade e ao assédio sexual sofrido na adolescência. Assim, é por meio da intervenção que Campo de Passagem se constrói, interferindo na fotografia como um meio de intervir na própria história, propondo recriar o passado, o presente e o futuro.

O projeto é também uma celebração àqueles que vieram antes de Matheus, aos que contribuíram para a formação do caminho e que atravessaram a vida dele por meio da arte. “Atribuo a minha persistência nesse caminho aos amigos-família que foram me apoiando e me ensinando a como me manter firme. (…) Encontrei cursos gratuitos de arte da cidade de Fortaleza, como o Porto Iracema das Artes e o Centro Cultural Bom Jardim e assim tive contato com vários artistas. Foi nesta soma que aos poucos fui conseguindo algumas conquistas”, relembra ele.

Hoje M. Dias Preto está entre os fotógrafos que compõem o Painel da Fotografia Cearense de 2021, participou de salões de artes como o Salão de Abril e o Salão de Artes de Ribeirão Preto, venceu uma premiação no Dragão Fashion Brasil e recentemente recebeu a premiação do Prêmio Décio Noviello, sendo esta última a que considera de maior importância na sua carreira até o momento.

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