“A curiosidade não matou o gato; ela rendeu um furo de reportagem”

Na Turquia, a jornalista cearense Eveline Frota revela nova experiência como correspondente Internacional


Por Vitória Cortês

A jornalista  Eveline Frota foi para a Turquia em outubro de 2021 e, como trabalhou para a Globo News durante um programa de intercâmbio, conheceu muita gente. Desta forma, foi uma convergência de interesses: a empresa precisava de uma pessoa e ela se dispôs a ficar como correspondente internacional para a GloboNews. Neste período, a hiperinflação não deixou que voltasse para o Brasil, porque o preço das passagens aéreas ficou inacessível. Foi aí que Eveline aproveitou para viajar pelo país e contar histórias nas suas redes sociais até que a guerra entre Rússia e Ucrânia começou.

Atualmente, reside em Kütahya, uma cidade e distrito do centro-oeste da Turquia. Como correspondente, Eveline atua na cobertura de fatos que envolvem a Turquia, na tentativa de mediação da guerra, mas, sem falar turco. Ela consegue se comunicar por meio de um tradutor. 

Formada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará, mentora em Hackathons Sociais, possui experiência em Telejornalismo (da reportagem à apresentação e chefia) na TV Verdes Mares – afiliada Rede Globo – e escreveu uma reportagem sobre a situação do Afeganistão que foi capa do jornal O Povo. Foi professora universitária do curso de Telejornalismo (teoria e prática) durante três anos, vencedora de prêmios locais e regionais e entusiasta dos negócios de impacto social.

Eveline Frota foi repórter, produtora e editora-executiva do Bom Dia Ceará / Foto: Reprodução

Além disso, foi finalista de prêmios nacionais com reportagens diversas, realizou trabalhos em assessoria – assessora especial do Secretário de Segurança do Estado do Ceará  e assessora de comunicação da ADPEC – Associação das Defensoras e dos Defensores Públicos do Ceará, em que ganhou Menção Honrosa na Associação Cearense de Imprensa (ACO). Hoje é correspondente da Globo News, realizando mediações em relação às condutas da Turquia e é professora de idiomas em uma escola britânica de línguas. 


News Link: Sendo brasileira, como lida com a cultura da Turquia e, como jornalista, com as situações no dia a dia, estando em outro ambiente?

Eveline Frota: Costumo observar e perguntar. Respeito bastante a cultura local. Principalmente no que se refere à religião. Aqui a religião é separada do Estado desde que  a Turquia se transformou em república, em 1923. Mas, 99,9% são muçulmanos. E são muito educados e receptivos com os cristãos. A convivência é pacífica. O problema é que eu não falo turco (risos). Mas as pessoas se esforçam para me entender e a comunicação não verbal é essencial.

NL: Como jornalista, isso funciona na prática? Para o seu desempenho no trabalho, isso atrapalha em algo?

EF: Tenho tradutor. Ele sempre trabalha comigo e me ensina algumas palavras básicas. Meus alunos na escola de idiomas também.

NL: E como correspondente internacional da Globo News, qual a sua expectativa para o fim da guerra?

EF: Estamos acompanhando o desenrolar “diplomático” e o esforço da Turquia, que é um

país vizinho e tem boas relações com ambos. Apesar destes esforços para pôr fim à essa guerra, que impacta a região e o mundo, não parece haver boa vontade do lado russo.

NL: E, como você começou a dar aulas de idiomas em uma escola britânica de línguas?

EF: Isso foi naturalmente. Como falo alguns idiomas, a informação circulou e algumas escolas me  chamaram para conversar. Até que escolhi ficar nessa onde estou, porque a liberdade de como passar o conteúdo é enorme e eles estão gostando muito da forma criativa como tenho dado aulas. Eu, claro, me divirto e aprendo muito sobre a cultura local.

NL: Você escreveu uma reportagem sobre a situação do Afeganistão que foi capa do jornal O Povo. Qual foi a sensação de tamanha responsabilidade em tratar um assunto delicado?

EF: A sensação de dever cumprido. Consegui todos os contatos sem sair do meu apartamento. As histórias começaram a chegar e fui checar com as agências internacionais. Não imaginei que fosse pra capa do jornal. Até porque foi minha primeira reportagem para jornal impresso. Sempre fui de TV.

NL: Na sua trajetória na TV, qual foi o momento mais marcante?

EF: Em mais de 20 anos de carreira, seria impossível citar um só. Foram vários momentos que trouxeram emoções impactantes para as reportagens e ajudaram a mudar vidas. Momentos engraçados, curiosos, históricos… até caso de aparição de extraterrestre eu tive que reportar (risos).

NL: E sobre a série premiada no InvestNe que você escreveu com o colega Roberto Maciel sobre Fortaleza 2040, como foi idealizar o projeto?

EF: O grande mérito é do Roberto. Ele trouxe o tema e nós discutimos o formato, com vídeos e como seria a produção. Foi uma honra ter sido convidada por ele, jornalista que tem minha admiração há anos!

NL: Como é ter o mérito de ganhar prêmios como a Menção Honrosa na Associação Cearense de Imprensa (ACI), ser finalista do V Prêmio Embratel de Jornalismo e o Prêmio BNB de Jornalismo, do Banco do Nordeste?

EF: Nossa, nem lembrava disso! Nosso ofício é sempre pensar na próxima reportagem! Obrigada por me lembrar dessas honrarias! Acredito que o mérito é sempre da equipe, que acredita em você e segue junto. Sou muito grata a todos com quem trabalhei. Aprendi imensamente. Hoje posso dizer que sou uma jornalista de verdade!

NL: Como você comentou anteriormente, gostaria de saber como é estar nesse lado de passar pelo preconceito nas redes sociais e como isso afetou na sua carreira?

EF: Em absolutamente nada. Não afetou minha vontade de comunicar e de compartilhar conhecimento. Nunca desisti . Nunca me deixei levar pelos comentários maldosos sobre meu sobrepeso. Isso nunca foi determinante para minha carreira. Tanto que, depois disso, fui convidada para ser apresentadora do Bom Dia Ceará e de lá pra cá minha carreira tem tomado rumos incríveis!

NL: Você acredita que seja extremamente importante abordar esse tema hoje em dia? Acha que ainda existem esses preconceitos ou um segmento de padrão no ramo da televisão?

EF: Acho que muito já mudou e estamos mais conscientes de que não somos robôs para sermos padronizados. Mas, vez por outra, ainda escutamos relatos de profissionais que são submetidos a esse tipo de assédio moral. Importante falar sobre isso e exterminar de vez essa visão de que beleza, magreza etc., substituem competência. Porque não substituem e nunca substituirão.

NL: Qual o conselho que você daria para quem quer seguir a carreira como jornalista?

EF: Queria dizer que o jornalista nunca deve desistir de aprender. Seja um novo idioma, política internacional, nacional, legislação, principais códigos de ética das profissões que exigem mais acertos do que erros… enfim. Temos que ser curiosos! Pra mim, a curiosidade não matou o gato; ela rendeu um furo de reportagem ou uma capa!

Foto em destaque: Arquivo pessoal

One thought on ““A curiosidade não matou o gato; ela rendeu um furo de reportagem”

  • 10 de maio de 2022 em 12:48
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    Grande entrevista! Parabéns, Vitória. Marcou época no NewsLink.

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