A criação de um “espantalho” como inimigo em comum da opinião pública

Realizado no final do mês de abril, o VI Colóquio Justiça em Quadrinhos e Filosofia do Direito promovido pelo Centro de Ciências Jurídicas da Unifor, teve como tema inicial “The boys e os sete: existe esperança para o direito?”


Por David Klishman

A conferência de abertura do colóquio aconteceu de forma virtual e foi ministrado pela doutora Amanda Muniz Oliveira, professora adjunta na Universidade Federal do Pampa – UNIPAMPA. No encontro foi feita uma análise sobre a série/HQ “The boys” e seus personagens, relacionando com o Direito e suas ramificações.

Grande parte do sucesso da história se dá ao fato de como retratam a forma que o poder corrompe aqueles que o possuem. Um mundo onde os super-heróis são reais, com egos inflados pela popularidade e contaminados pela arrogância, acabam tomando atitudes irresponsáveis perante a população.

A organização do evento foi realizada pelos professores Aline Passos, Daniel Camurça e Lara Fernandes, do curso de Direito da Universidade de Fortaleza. “A meta do evento teve como intuito promover debates sobre a dinâmica da ética, justiça e cidadania tanto por meio das reflexões jusfilosóficas, como pela análise das mídias contemporâneas, tais como quadrinhos, filmes, animações, seriados, entre outros” explicou o professor Daniel Camurça.

Em entrevista para o Newslink, Amanda Muniz fala mais sobre o surgimento de um herói nacionalista, qual o impacto que o discurso desse personagem causa, e de que forma a propagação do terror afeta a população.

Newslink: De que forma o ‘bombardeio ideológico’ proferido pelos super-heróis de alto escalão na série influenciam a população?

Amanda Muniz: Ao meu ver, acredito que o efeito mais danoso desse tipo de propagação ideológica é a crença, né? A criação e a confirmação da crença de que as pessoas precisam de um herói para salvá-las. O Weber vai trabalhar com isso na sociologia dele, que identifica os três tipos de autoridade e essa autoridade do herói está muito ligada a uma autoridade carismática (…) em tempos de crise, em tempos que você propaga um discurso de desesperança, de violência, de que nada vai mudar. É, geralmente, o contexto em que um herói vai surgir para salvar essa população e tivemos aqui no Brasil, sempre tivemos, né? Me lembro de casos como Joaquim Barbosa, quando ele era representado como o “herói da capa preta” (…) Tivemos mais recentemente o Bolsonaro sendo comparado ao Capitão América ou algo assim, e a propagação da figura do Lula, identificado com alguns heróis.

Capitão Pátria (Homelander) nas gravações da série / Foto: Divulgação

NL: O discurso de Homelander (Capitão Pátria) pode se dizer ser um discurso de um político populista?

AM: Com toda certeza! Ele fala aquilo que a população quer ouvir o tempo inteiro, ele se pinta de bom moço, ele se veste com as cores da bandeira do país, dos estados unidos, isso é muito emblemático né? A gente viu isso acontecer no Brasil também(..) um governo “tomando de volta” as cores da bandeira pra mostrar que é da pátria, que é pelos brasileiros, sendo que nunca ouve uma proposta de abandonar a pátria em si por outros governos, cria-se um espantalho para sair por cima dele. (…) E o Homelander vem bem nessa pegada, além do que a gente pode analisar também: ele é um homem branco, loiro, olhos azuis, musculoso, padrão. Para a população é um cara que segue as regras do jogo, é um bom moço, é um bom escoteiro, mas as pessoas não conseguem ver além disso, e o impacto que esse discurso vai trazer para as populações que não se encaixam naquilo que ele acredita. Na série quando ele vem com o discurso de eliminar os terroristas, é a criação de um inimigo para que seja eliminado e assim a gente vai ter “todos os nossos problemas resolvidos”, a mesma tática que foi utilizada na Alemanha nazista e no Brasil de Bolsonaro. No Brasil de Bolsonaro, a gente tem os “comunistas”: “os comunistas que quase deram um golpe e que comem criancinhas” “que se escondem debaixo da cama para puxar nossos pés a noite” “eles são inimigos, então devem ser eliminados e só assim nossa vida vai melhorar” e não é verdade, o Brasil não teve nem perto de ter um governo comunista. Então isso é uma tática extremamente populista, e uma tática utilizada para que você conceda a esse herói poderes ilimitados para que ele aja como melhor entender.”

NL: como o direito analisa a forma de propagação do terror para manipulação de massas realizado na história da série? E o fomento da criação de um inimigo em comum?

AM: A forma da propagação do terror e como isso é feito dentro da narrativa da série, ela não tem nada de novo né? Ela vai se ancorar como eu já comentei, na Alemanha nazista, no próprio brasil de Bolsonaro conseguimos ver a criação desse inimigo também (…) então é a criação de um “espantalho”, para que você não ache ruim conceder poderes demais ou liberdade demais para aquela figura carismática que tá ali cantando nos seus ouvidos. Eu ainda não tive a oportunidade de assistir ao filme “medida provisória” do Lázaro Ramos, mas esse nome é muito isso. O que é uma medida provisória? Estado de emergência? Estado de sitio ou calamidade? Nós temos uma situação extrema, e por conta dessa situação precisamos que nossa liberdade seja cerceada de alguma forma, ou as nossas garantias jurídicas para o enfrentamento de um problema, seja um desastre ambiental ou um colapso como foi a pandemia. Então, diante de uma situação de perigo até aceitamos abrir mão de algumas coisas em prol da segurança, que se torna o bem máximo da sociedade. O problema é quando isso assume proporções de níveis inimagináveis, então você cria um “espantalho”, cria um inimigo.


Super-heróis com valores invertidos

Essa figura do herói é representada, por exemplo, com o personagem “Capitão Pátria”, uma versão deturpada e sádica do Super Homem, que publicamente é um nobre herói, mas na verdade não se importa com aqueles que ele jura proteger. A série dita esse ritmo de caos com super-heróis distorcidos e midiáticos, e a necessidade da população de ter um salvador para protege-los.

A partir do momento que a população abraça o discurso desse personagem e dos demais que o rodeiam, dão força para uma ideologia nazista que tem raízes na empresa “Vought”, lugar onde esses heróis trabalham.

Nesse contexto apresentado, é então feita a criação da figura do inimigo: os “super-terroristas” (estrangeiros com poderes) ou apenas imigrantes. Com essa segregação com a figura dos imigrantes, o discurso da empresa impõe que os “supes” (super-heróis) seriam a única salvação com a ascensão desse mal na sociedade.

Heróis são todas as pessoas ou instituições, que têm como ambição alterar o estado das coisas (status quo), para o bem ou para o mal, levantando suas várias bandeiras com ideologias diversas. Querem deixar de alguma forma sua marca no mundo, se apoiando em questões políticas, institucionais, sociais e econômicas, sempre tentando atingir seus ideais ou se afirmar em lugares de poder.

Fora das revistas em quadrinhos e da tela da TV, temos vários exemplos na vida real como a própria mídia, associações, políticos e pessoas que mobilizam protestos. Não há nada de errados em termos heróis, ou pessoas que levantam uma causa importante que queremos seguir, o problema é quando isso fere os direitos de uma parte da sociedade, quando muito poder se concentra nas mãos de uma pessoa (ou um grupo) e a liberdade é retirada da população como um todo.


Serviço

A abertura do VI Colóquio Justiça em Quadrinhos e Filosofia, do curso de Direito da Universidade de Fortaleza e outras palestras estão disponíveis online através dos links abaixo:

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