Homem-Aranha contra a Pós-verdade, herói enfrenta vilão análogo ao problema

Em palestra na Universidade de Fortaleza, o produtor do podcast HQ Sem Roteiro, Pedro Brandão faz análise do subtexto presente em uma das últimas produções cinematográficas do aracnídeo


Por Caio Brasil

Em uma das últimas aventuras cinematográficas do herói, o personagem enfrenta um antigo vilão das páginas dos quadrinhos. Na telona, o inimigo é atualizado para falar sobre um fenômeno muito perigoso do mundo real contemporâneo, a pós-verdade. 

Com esta perspectiva, a palestra do VI Colóquio Justiça em Quadrinhos e Filosofia, promovido pelo curso de Direito da Universidade de Fortaleza (Unifor), intitulada “Mysterio, Fake News e Pós-verdade em “Homem Aranha: Longe de Casa” abordou a relação destes elementos com uma leitura do comentário sociopolítico no filme da Marvel. O tema foi debatido pelo professor universitário Pedro Brandão, formado em Publicidade e Propaganda e produtor do podcast HQ Sem Roteiro.


A palestra

De início, a importância de analisar estas obras. Os filmes dos super-heróis não fogem do seu período histórico, assim como seus quadrinhos de origem também não fogem dos seus períodos históricos. Todos eles são diálogos diretos com os medos, os anseios, as discrepâncias, lutas de classe e os pensamentos dos períodos de onde eles vieram. “O que os filmes de super-herói fazem é popularizar, expandir, trazer novos níveis de política para um público que estereotipadamente não discute sobre política, o que não é verdade. Quadrinhos são políticos, filmes são políticos e super-heróis mais do que tudo isso são políticos também”, explica Brandão sobre a importância de obras como essa debatem diversos temas.  

Com um preâmbulo sobre como as imagens enganam os olhos, Brandão coloca na mente dos espectadores o conceito “a gente vive num mundo, hoje em dia, que os nossos olhos são constantemente questionados sobre a realidade.” E cita exemplos de filtros do Instagram, deep fake, de influencer digitais que não existem no mundo real, mas geram um impacto e dinheiro real. 

Livro sobre a relação da pós-verdade com a política / Foto: Reprodução

Com base em trechos do livro A Political Theory of Post-Truth (Uma teoria política da pós-verdade, em tradução livre do inglês), de Ignas Kalpokas (sem edição no Brasil), Brandão relaciona o conceito à prática. 


Pós-verdade

A pós-verdade é um conceito que apareceu pela primeira vez na década de 1990, mas que se consolidou em 2016, quando foi escolhida como palavra do ano, com a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, e o plebiscito do Brexit, no Reino Unido. O termo se refere ao momento político em que estamos, no qual a verdade é menos importante do que as crenças. O que faz as pessoas acreditarem de uma forma muito ferrenha em mentiras óbvias. Isso porque a realidade não se encaixa nos seus ideais. 

A pós-verdade se estabelece em um mundo onde as pessoas não querem saber de fatos, elas querem alegria, tristeza, raiva, emoções. O fato, a verdade, é um acontecimento que hoje em dia as pessoas não querem saber, elas querem saber da mentira porque traz mais prazer e conforto.  

Brandão lembra que mentira e política sempre andaram juntas, mas se antes da internet as pessoas caíam na mentira porque não tinham onde pesquisar sobre a verdade. Hoje, com a quantidade absurda de informações que temos à disposição, as pessoas são enganadas pelo excesso de vídeos, áudios e material falso como as famosas fake news. “Se no passado havia escassez de dados, hoje estamos nos afogando em um mar de informações  onde parte considerável delas é mentirosa”, reforça o publicitário. 

Citação com exemplo de pós-verdade / Foto: Reprodução

Se os super-heróis falam sobre os seus períodos, o medo e o anseio desse momento é o medo da mentira, o medo da verdade, o anseio pela verdade é um anseio pelo mundo que é a realidade. O ambiente atual é de batalhas narrativas e a pós-verdade é o momento em que vivemos.

“A gente não é ensinado a lidar com esses meios de comunicação novos que foram colocados nas nossas mãos, que são extremamente poderosos, que têm uma capacidade absurda de influência. A gente tem que aprender a duras penas como sobreviver nesse mar de mentiras”, pontua Brandão o impacto da pós-verdade.


Homem-Aranha contra Mysterio 

Finalmente, no filme Homem Aranha: Longe de Casa (2019), o adolescente Peter Parker está sedento por deixar a vida de herói um pouco de lado e curtir férias de verão na Europa com os amigos. Mas, como todos já sabem, com grandes poderes vêm grandes responsabilidades e o jovem herói precisa unir forças com um novo aliado, Mysterio, e enfrentar mais um grande perigo ao planeta. 

Como os fãs de outras encarnações do aracnídeo já sabem, Mysterio trata-se de um conhecido vilão do Homem-Aranha das histórias em quadrinhos. Sem poderes, esse novo malfeitor opera numa lógica ilusionista moderna que dialoga diretamente com o tema da pós-verdade.

Primeira aparição do vilão Mysterio, em quadrinho do Homem-Aranha de 1964 / Foto: Reprodução

Mysterio utiliza drones para projetar hologramas e toda uma equipe criativa, para criar uma realidade alternativa na qual ele é o herói. Nessa lógica, os drones operam como bots programados para difundir mentiras nas redes sociais. Os hologramas criam imagens que enganam os olhos como deep fake. A narrativa criada cuidadosamente pela equipe por trás do Mysterio funciona como as teorias conspiratórias, que enganam milhões de pessoas e, por vezes, mudam a opinião pública para  ganhar referendos e eleições. 

Neste ambiente, onde a realidade é diariamente atacada para se encaixar em desejos políticos apenas por meio de ferramentas como o jornalismo de qualidade, sites de checagem de fatos realmente confiáveis e a desconfiança das pessoas com o senso crítico apurado. Neste caso, o sentido ‘aranha’ pode nos encaminhar para um futuro mais seguro nas relações digitais e como elas moldam nossa percepção da realidade. “A verdade sempre prevalece. Não é possível negar a realidade“, conclui Pedro Brandão.


VI Colóquio Justiça em Quadrinhos e Filosofia

VI Colóquio Justiça em Quadrinhos e Filosofia, promovido pelo curso de Direito da Unifor ocorreu de forma remota nos dias 25 e 26 de abril de 2022.

O foco fundamental foi discutir a questão da ética, da justiça, da cidadania e dos direitos humanos. “Tentar entender todas essas questões por meio das mídias, que são HQ’s, tirinhas, filmes e os seriados. Este material é produto e produtor da sociedade que, por isso, nos ajudam a entender como estão  sendo veiculadas, em escala global, questões relativas ao papel do Estado, papel da polícia, e da sociedade em meio a dinâmicas tão diversas”, explica o professor Daniel Camurça, um dos organizadores do evento.


Serviço

Estas e outras palestras do VI Colóquio Justiça em Quadrinhos e Filosofia, do curso de Direito da Universidade de Fortaleza estão disponíveis online através dos links abaixo:

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