Há sete anos falecia o político, escritor e fundador do jornal Folha do Povo

Elfredo Gonsalves ocupou cargos no Governo do Amapá e foi responsável por lutar por voz e liberdade de expressão em momentos de opressão


Por Guilherme Gonsalves

No dia 30 de abril de 2015, Elfredo Távora Gonsalves faleceu em Fortaleza, aos 93 anos de idade. Ele foi o fundador do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), no Pará, e escritor de duas obras,“Folhas Soltas do Meu Alfarrábio” e “O Amapá d’Outrora”, lançado “in memorian”. O jornalista deixou um legado importante para a história do Estado do Amapá.

Filho caçula do comandante português George Meyer Gonsalves e Hildebranda Távora Gonsalves, Elfredo nasceu em Belém no Pará e, aos dez meses de idade, foi para a Ilha da Madeira após a morte de seu pai com a mãe e seus cinco irmãos, dois brasileiros e três nascidos em Portugal. Lá cursou Letras no Liceu de Funchal e retornou ao Brasil aos 20 anos junto de seu irmão José, por conta de suas condições de estrangeiros.

Chegando ao país de nascença em 1943, Elfredo se dedicou à exploração de seringais, em propriedades da família no Amapá, ainda parte do Pará, que estavam em alta devido à segunda guerra. Ainda como território federal, o estado vivia um período de estagnação e perto de uma falência econômica, gastando em bens de consumo e custeio, e sem produzir como alguma, é o que diz Elfredo em seu primeiro livro “Folhas Soltas do Meu Alfarrábio”.

A situação política também vivia momentos de crise por conta da pressão e discriminação partidária. Foi nesse cenário que Elfredo Gonsalves, junto com alguns amigos, resolveu editar um jornal para dar oportunidade de voz a todos. Impresso em Belém, pois não havia tipografia em Macapá, nascia O Combatente. Após três edições bem-sucedidas, o jornal teve que alterar uma publicação por conta da pressão sofrida, contrapondo-se à oposição. Por conta disso, O Combatente não continuou o seu trabalho.

Elfredo e seus apoiadores, porém, não desistiram, e compraram uma velha máquina Minerva, com poucos recursos, uma fonte 12 e usando papel de embrulhar pão. Em maio de 1959, foi lançada a primeira edição da “Folha do Povo”, tendo Elfredo Távora Gonsalves como diretor responsável e Amaury Faria como redator chefe. José Távora, irmão do fundador, trabalhou como diretor responsável pela gráfica. Com os registros de jornalistas no Ministério do Trabalho e na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), os trabalhadores puderam obter o direito de usar papel de jornal.

Elfredo Távora é o segundo da esquerda para a direita / Foto: Reprodução / acervo do Nilson Montoril

Por ser de oposição, a Folha do Povo começou a questionar e criticar as posturas do governo, e certo dia o material havia sido todo empastelado (forma violenta de impor o silêncio de um jornal ou publicação noticiosa pela destruição de seus equipamentos), apenas a primeira de muitas outras tentativas de censura. Foi aí que se formou uma subscrição para a formação de uma sociedade anônima, e cerca de trezentas pessoas se tornaram acionistas do jornal, permitindo assim a compra de uma nova máquina e outros tipos de materiais.

Oficial da Polícia Militar interditando o jornal / Foto: Reprodução / acervo do Nilson Montoril

Quanto mais atentados aconteciam, mais a população apoiava o jornal. Pessoas ligadas ao governo chegaram a criar o semanário O Observador, distribuindo gratuitamente com o objetivo de contradizer a oposição. Mas, o tiro saiu pela culatra e cada vez mais a sociedade procurava pela Folha do Povo. Ataques contra a vida de jornalistas, prisões de funcionários, incluindo Elfredo Távora e, acusações de comunismo não fizeram os jornalistas desistir. Cabia aos dois fundadores preparar os editoriais e outras matérias redacionais, porém usando pseudônimos.

Manchete do jornal Folha do Povo / Foto: Reprodução / Amapá d’Outrora

A Folha do Povo deixou de circular em 1964, após editar artigos intitulados “Um governo no banco dos réus”. Mesmo com pouco tempo de existência, o jornal foi pilar na luta por liberdade de informação e expressão em tempos de opressão ao povo do Amapá.

“A nossa luta não será ideológica nem doutrinária, apenas uma busca da liberdade de expressão, de justiça e de respeito aos direitos do cidadão”, palavras de Elfredo Távora Gonsalves.

Foto em destaque: Reprodução


“Elfredo, eras um peregrino 

Estava de passagem por estas terras 

Seu lugar final não é este, que também é meu chão, o verde Amapá 

Também não é  a exuberante Ilha da Madeira, lugar que comprova maravilhosamente que Deus é um grande artista 

Mas, parecia que o senhor não se conformava com isso 

Como bom viajante, queria prolongar sua passagem 

Talvez porque ainda tivesses projetos,

Quantos livros poderiam ser escritos?

Quantas histórias para contar?

Talvez queria aprender mais

Lembro-me do senhor pegar um novo livro como uma criança ao receber um brinquedo 

Talvez querias ficar mais tempo com os seus, e quantos eram…

Espalhados por tantas cidades e nações 

Mas, como falei, eras um peregrino, precisavas partir, aqui não é o seu lugar final 

Quanto a nós, ficaremos e, saudosos, tentaremos concluir a carreira que nos está proposta 

E agora já entendeste, tio, o que disse o sábio: “e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” 

Texto escrito por seu sobrinho José George Vinhas Gonsalves

One thought on “Há sete anos falecia o político, escritor e fundador do jornal Folha do Povo

  • 30 de abril de 2022 em 14:21
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    Boa tarde, Bia Bandeira!
    Me chamo Ana Claudia e sou a filha única mulher dos 6 filhos do Sr. Elfredo Távora Gonsalves.
    Queremos agradecer imensamente seu carinho com a publicação sobre a vida maravilhosa e importante do nosso amado pai! Todos os dias são especiais pois sentimos que mesmo sem sua presença física ele nos deixou exemplos, orientações e palavras tão significativas que parece estar nos soprando aos ouvidos diariamente. E a cada ano, especialmente nesta data, sentimos fortemente a falta também do seu sorriso acolhedor, do seu eterno bom humor, do seu abraço carinhoso, da sua sede de conhecimento, da curiosidade e do sonhador com projetos constantes!! Muitas saudades de toda nossa família, amigos e admiradores!!
    Nossos sinceros agradecimentos, Bia Bándeira!
    Carinhosamente, Ana Claudia

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