A necessidade de ser sempre feliz nos deprime e angustia, diz Mary del Priore

O encontro de abertura ocorreu no dia 18 de abril e tratou sobre depressão na sociedade brasileira


Por Julia Freitas Neves

O Cineteatro São Luiz começou as conferências do Projeto Diálogos Literários no dia 18 de abril de 2022 com palestra de Mary del Priore e mediação de Isabel Costa sobre “Opressão, sofrimento e depressão na construção histórica do Brasil”. Passando por temas como a repercussão dos impactos da exigência da felicidade na sociedade e “escorre” para a juventude, figuras históricas que viveram e discutiram a depressão, antes chamada de melancolia, ao longo dos séculos.

O Ciclo de Conferências Diálogos Contemporâneos no Cineteatro São Luiz contou com a presença da historiadora e escritora para falar da depressão na sociedade brasileira. Sobre a evolução do entendimento da depressão por meio da linha temporal dos estudos da melancolia, passando pelos gregos, Hipócrates, Sêneca e Galeno, Igreja católica e a caça às bruxas, Robert Burton, Freud, Editais de Medicina, iluminismo, Schopenhauer, Juliano Moreira até chegar na medicina atual que enxerga a depressão como um desequilíbrio químico no cérebro.

Figuras históricas como Maria I “A Louca”, viveu sua depressão associada à religião e traições do próprio pai. Princesa Leopoldina, cujas cartas detalham a melancolia de seu casamento, vida de traições na corte brasileira e morte do herdeiro no momento da independência do Brasil. Príncipe Pedro Augusto, também membro da família real brasileira, tirado de sua terra natal pelo avô para ser o herdeiro ao trono, foge com a insurreição da revolução republicana e apresenta seus primeiros sinais de depressão profunda e psicose maníaco depressiva. A artista Tarsila do Amaral, figura importante do movimento modernista, sofreu de depressão devido a ocorrências durante sua vida como machismo e perdas familiares.

Del Priore comenta “A exigência de ser feliz e expressar a performance traz uma carga enorme de depressão, angústia e insegurança que nos fragiliza. É um assunto discutido no mundo inteiro com o aumento de suicídios e morte assistida. Depressão é a agenda do século XXI.” 

Isabel Costa questiona sobre a exploração do grotesco e a tristeza do outro, Del Priore responde que a necessidade de performar a felicidade em toda área da vida cotidiana leva a criação de combustível que se alimenta da miséria alheia. Ao ser perguntada sobre o que pode levar alguém a ver ansiedade e depressão como bobagem, explicou “Sempre houve um grande silêncio em relação à depressão, eu diria que ela surge a partir dos anos 80 e 90 quando grandes literatos saem para falar de suas depressões. Há um silêncio por vergonha, por falta de auto-estima e interlocução.”

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