Com Medida Provisória, Lázaro Ramos estreia como diretor no Cineteatro São Luiz

A história adaptada de uma peça de teatro traz uma reflexão do rumo da sociedade brasileira atual


Por Caio Brasil

Na noite do aniversário de  296 anos  de Fortaleza, o Cineteatro São Luiz foi palco de uma ocasião especial. A pré-estreia do filme “Medida Provisória” contou com a participação do diretor estreante Lázaro Ramos e posteriormente uma discussão a respeito do longa. A obra mistura elementos de drama, ação e humor, ao abordar a luta antirracista a partir de uma realidade distópica do Brasil.

Após a exibição, houve debate sobre o longa-metragem envolvendo temas como racismo, cultura e política

Acompanhando o diretor Lázaro Ramos, o secretário da Cultura do Estado do Ceará, Fabiano Piúba; a secretária executiva de planejamento e gestão interna da Cultura do Estado do Ceará, Mariana Teixeira; a coordenadora especial de políticas públicas para igualdade racial da Secretaria da Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos, Martír Silva; e a curadora do Cinema do Dragão, Kênia Freitas. A mediação ficou por conta do curador de cinema do Cineteatro São Luiz, Duarte Dias. 

O enredo do longa se passa em um Brasil de futuro distópico, onde o governo brasileiro decreta uma medida provisória que obriga os cidadãos negros a ‘voltarem’ à África como forma de reparar os tempos de escravidão. Neste contexto, o advogado Antônio (Alfred Enoch), sua companheira, a médica Capitu (Taís Araújo), e seu primo, o jornalista André (Seu Jorge) decidem resistir, uns confinados em suas casas, outros no Afrobunker – movimento que vai lutar pelo direito de permanecerem no país natal.

Em um circuito intenso de divulgação do filme, o diretor Lázaro Ramos estava visivelmente cansado, mas cedeu uma entrevista curta para o portal NewsLink a respeito do longa, sua estreia na direção, o impacto da obra, a linguagem e as representações do filme.

Público em frente ao cineteatro reflete o interesse sobre o longa

Entrevista com Lázaro Ramos 

“Este filme foi feito para acordar!”

NewsLink: Em sua estreia como diretor, por quê este projeto? Por quê esta história?

Lázaro Ramos: Não foi escolha (risos). A história que me escolheu… Queria que outro diretor fizesse essa função. Dirigi a peça de teatro “Namíbia, Não!”, do Aldri Anunciação em 2011. Percebi que era um formato diferente para se debater a luta antirracista, essa mistura de comédia, com ação, com melodrama, com drama e ofereci para outros diretores como Sergio Machado, Joel Zito Araújo. Eles não puderam, não quiseram e comecei a preparar, mas querendo oferecer para outra pessoa. Aí me apaixonei, não teve jeito, fiquei envolvido e não quis mais largar o osso. Descobri também que nesta função tinha possibilidade de oferecer uma opinião, uma visão de mundo, do jeito de contar uma história como esta e isso foi me conduzindo.

NL: Como foi o processo colaborativo de dirigir?

LR: Primeiro assim, tenho uma consciência em tudo que faço, que tenho uma responsabilidade no final das contas, vou mediar e conduzir para um caminho. Mas, desde que faço teatro na Bahia, no Bando de Teatro Olodum, a questão colaborativa sempre foi muito presente. Talvez nem saiba fazer de outra maneira. Porque essa é a minha origem, é a maneira com que trabalhei, grupo de teatro, 22 atores, tu tem que mediar, se não vira caos. Só que quando você media de forma respeitosa, de forma compreensiva, você cria potência e é assim tudo que trabalho no cinema, também é assim. Primeira coisa, escolhi pessoas competentes e que acredito na linguagem. Tenho que permitir que elas se coloquem, que elas se posicionem, que elas deem sua opnião, que criem também porque são coautoras da história. Isso vai de quem cuida do cabelo, do cenário, do figurino, da fotografia e chegando também aos atores. Porque, às vezes, tem uma mítica “que ator não tem que pensar “. Acho exatamente o oposto. Quero que o ator pense, dê opinião, se coloque, ajude a gente a formular essa história. Este filme foi feito assim, em todos os ambientes, em técnicas diferentes. Por exemplo, o grupo do núcleo de resistência, os 26 atores que tão ali, a gente ficou por três dias numa sala de ensaio onde a gente fazia experimentos e eles escolhiam seu personagem, como iam se comportar em cada cena, como iam olhar, como iam andar, qual era a opinião que eles iam ter sobre uma discussão que tava tendo em primeiro plano. Com os atores também muito ensaio, e, às vezes, eram só ensaios de conversas, que eu falava “o tema da cena é esse. O que vocês acham disso?”, pensava, pensava, pensava e depois ia gravar a cena, isso rendeu este filme, que é um filme de múltiplas vozes. Acho muito interessante, que é muito adequado para este filme, inclusive essa linguagem, que é um filme que se propõe a falar de individualidade também. 

Lázaro Ramos em entrevista para o Newslink

NL: Qual a transformação da obra de quando foi concebida, como filme alerta, para “filme de espelho da realidade”?

LR: De espelho e de época (risos), talvez tenha virado um filme de época. Tem um lado que é angustiante, de pensar que você pensou em uma coisa, lá em 2015, para ser um alerta, para a gente não ser tão polarizado, para a gente não ser tão violento, para gente não flertar com o autoritarismo, foi tudo pra isso e de repente a gente faz o oposto! A gente flerta com o autoritarismo, escolhe autoritários, é violento, banaliza a violência, tem testemunhado todos os dias em redes sociais, no jornal da noite, um ato de violência extremo e muita gente anestesia tudo isso. Este filme foi feito para acordar! Ele virou um espelho. Espero que ele não chegue num momento tarde, que esse espelho faça com que a gente pense em mudar nossa atitude em comprar essa luta, não anestesiar e saber que a luta contra a violência, a luta antirracista não pode ser uma luta parcial, de uma parcela da sociedade. Ela tem que fazer parte do nosso projeto de Nação, é projeto mesmo! Espero que o filme acorde pra isso.

NL: Como não cair numa retratação comum das pessoas negras em tela?

LR: O filme tem um lugar que é muito perigoso que ele fala sobre violência e dor. Ao contar isso tomei algumas decisões, por exemplo, não tem sangue no filme. A gente não reproduz imagens de corpos negros ensanguentados como a gente vê em varios filmes. É um filme que as armas aparecem poucas vezes, mas sempre num contexto de reflexão e não apenas num contexto de filme de ação, em que você fica ali agitado com aquela imagem, mas você não reflete no significado desta arma. É um filme também que tem momentos de dor, mas tem momentos líricos. A gente tem cenas como, por exemplo, uma que é de celebração à vida, que estão Capitu (Taís Araújo), Antônio (Alfred Enoch), André (Seu Jorge) e Sarah (Mariana Xavier), apenas dançando ao som de Elza Soares, porque o lúdico, a potência também são nossos. A gente tem momentos de lirismo com poesia dita por Seu Jorge, enquanto ele toma um banho, isso também é nosso. São esses estímulos e essas camadas que são a minha tentativa de desacostumar a vista do espectador.  É um filme que tem um protagonismo feminino negro. A gente tem muito poucos, ainda mais em personagens que não estão a serviço. É uma personagem de classe média que o cinema brasileiro ainda não contou até então, com um papel protagônico que não teve ainda no cinema nacional. Tudo isso é uma opinião muito forte pra gente conseguir dar um passo além do que a gente já contou.

NL: Como foram as escolhas de representar essas histórias?

LR: Acho que vem muito do Ó Paí, Ó (2007), do que vivi lá. Onde em algum momento o filme foi acusado de não representar os baianos e ele realmente não representa. Ele representa uma parte da Bahia e entendi que assim, no cinema negro, a gente tem filmado pouco. Então, às vezes, as pessoas cobram que a gente dê conta de todos os assuntos que foram silenciados ao longo de anos, não é possível! Um filme não vai falar de todos os assuntos, não tem como, então saciar a minha alma, saber o que é possível, investir no que é fundamental para contar a história e ter a perspectiva de fazer outros, de contar sempre, é preciso ter constância pra gente conseguir chegar nesse lugar ideal. E é muito curioso, até ontem me fizeram uma pergunta, não sei se foi no Roda Viva (programa de entrevista da TV Cultura), me perguntando “uma coisa que faltava no filme?”, aí eu respondi e mas depois pensei assim: gente, será se fosse um cineasta branco que tivesse fazendo um filme sobre outro contexto iam perguntar a ele o que falta? É muito doido, né? Que até essa exigência trazem pra gente, né? É muito doido. Também é um lugar perigoso e é um lugar estigmatizante, até contra isso a gente precisa reeducar o nosso pensar.


Serviço

Medida Provisória está em cartaz:

  • Shopping Parangaba (rua Germano Franck, 300 – Parangaba) 
  • Shopping Via Sul (avenida Washington Soares, 4335 – Lagoa Sapiranga) 
  • Cineteatro São Luiz (rua Major Facundo, 500 – Centro)

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