“O papel da mulher na literatura tem que acompanhar o ganho da presença da mulher na sociedade” 

Tércia Montenegro reflete sobre o papel de Lygia Fagundes Telles e o universo feminino na produção literária brasileira


Por Julia Freitas

Lygia Fagundes Telles, conhecida como a grande dama da literatura brasileira, morreu no dia 3 de abril de 2022, aos 103 anos. A escritora produziu mais de 20 livros, entre romances, contos, crônicas e memórias. Ocupava a 16ª cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL), desde de 24 de outubro de 1985. 

A partida da escritora desfalca um papel fundamental na literatura nacional: a da mulher que escreve sobre a complexidade do feminino na sociedade brasileira. Para tratar deste e de outros temas relacionados à mulher na literatura brasileira, o Newslink entrevistou Tércia Montenegro que, assim como Lygia, é escritora e faz parte da Agência Riff, sobre a perda da escritora e a representatividade da mulher no mercado editorial da literatura brasileira. 

Tércia Montenegro iniciou a carreira ficcionista em 1998, publicando 13 livros e participando de diferentes coletâneas de contos e crônicas. Também escreve a coluna Tudo é narrativa, no jornal curitibano Rascunho e crônicas quinzenais no jornal O Povo. Atua como fotógrafa e professora adjunta do Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Lygia Fagundes Telles deixa obra inigualável / Foto: Reprodução / DW.com

NEWSLINK: A escritora Lygia Fagundes Telles, conhecida como a dama da literatura brasileira,  morreu no último dia 3 de abril. Qual será o maior impacto dessa perda?

Tércia Montenegro: Fico feliz que a Lygia Fagundes Telles tenha sido citada em algumas perguntas, pois para mim ela é a grande referência, grande influência. Posso dizer que se não fosse pela leitura das obras de Lygia, não teria me tornado escritora. Aos 12 anos li o livro “Antes do Baile Verde”, minha primeira leitura para adultos e os temas, a estrutura do texto e a linguagem revolucionaram minha vida. Decidi que queria fazer literatura. E a Lygia sempre foi uma pessoa muito importante na minha vida, um modelo e inspiração. O falecimento dela no último dia 3 empobrece o mundo. A presença física é muito importante, mas temos de lembrar que sua obra a manterá viva. Toda vez que alguém ler uma de suas obras faz com que reviva. Nosso trabalho agora é exatamente esse, reviver cada vez mais a obra de Lygia e convidar aqueles que desconhecem a obra a lê-la.

NL: Tanto você quanto a Lygia Fagundes Telles eram agenciadas pela Agência Riff. Como avalia o papel da mulher no mundo editorial? 

TM: De fato, eu e Lygia Fagundes Telles temos a mesma agência literária. Essa agência é muito importante, não só em termos nacionais mas em representatividade internacional.  Tenho certeza que favorece de fato a expressão da mulher, pois é uma agência formada por muitas mulheres trabalhando juntas além da própria criadora, Lucia Riff. De maneira que há aí uma sensibilidade e um engajamento feminino que facilita, de fato, a presença da mulher no mercado editorial.

NL: Nas obras de Lygia o tema da mulher no mundo é sempre presente. Como você percebe o papel da mulher no mundo literário?

TM: Lygia foi uma figura muito importante para consolidar esse papel da mulher  no mundo literário brasileiro. Hoje estamos em uma situação mais expandida. Enquanto nossa geração tem inúmeros nomes de referência, devemos lembrar que na época de Telles havia poucos nomes de mulheres, como: Fagundes Telles, Clarice Lispector, Hilda Hilst, Cecília Meireles e Raquel de Queiroz. Ou seja, havia um punhado de números importantíssimos contra centenas de nomes masculinos. Hoje em dia não está equivalente e ainda predomina o masculino mas já vemos um avanço. Há um estudo da Regina Dalcastagné que conclui: a maioria esmagadora dos escritores são de homens brancos, de classe média, jornalista e paulista. De maneira que a mulher precisa endossar, aumentar a presença dela, não só no espaço literário mas na sociedade. O papel da mulher na literatura tem que acompanhar o ganho da presença da mulher na sociedade.

Lygia Fagundes Telles morreu no dia 03 de abril de 2022 aos 103 anos / Foto: Agência Riff

NL: Há muitas obras no seu repertório. O mercado editorial lhe trata igual aos seus colegas homens, incluindo em pagamento por obra?

TM: Em relação ao pagamento, o mercado editorial lida com contratos que legalmente precisam ser idênticos sem nenhuma discriminação. Então, não faz sentido pensar que os pagamentos não são similares, pois isso seria discriminação de gênero, portanto, inadmissível.

NL: Você considera que há uma expectativa social sobre sua obra enquanto mulher?

TM: Acho que sempre há uma  expectativa social em cima da literatura, uma demanda social. A literatura faz parte da sociedade. Então, é óbvio que o escritor ou escritora irão tratar de assuntos importantes para o estar no mundo, relacionamentos, existência, sobre a natureza. Essas questões sociais existem desde que a literatura surgiu. De maneira que não vejo uma ênfase nesse ponto pelo fato de ser mulher e que essa questão da expectativa social está sempre presente, não importa em que livro literário.

NL: Como você trata o feminino na sua obra e como quer que seja percebido enquanto corpo?

TM: Dependendo do meu livro, lanço uma perspectiva ou outra sobre esse tema do feminino, do corpo feminino. Há um pesquisador, Lúcio Flávio Gondim da Silva,  que defendeu uma dissertação de mestrado em literatura na Universidade Federal do Ceará sobre meus contos. Ele lida de maneira bem específica com esse assunto,  e chega a conclusões bem interessantes sobre as abordagens que faço do feminino e do corpo. Acho que o mais importante para mim é enfatizar a libertação, a igualdade, esse viés de que a mulher deveria ocupar um lugar diferente do homem não é mais admissível na nossa sociedade, na nossa cultura. Essa visão já está absolutamente defasada e acho que não se trata de uma militância pois isso já posto, já não existe como retroceder. Faz tempo que gerações de mulheres lutaram por isso, temos que manter essas conquistas, não se trata de questionar tais conquistas ou de muito menos de reverter mas tratar de manter essa pertinência da liberdade e da presença da mulher em todos os lugares, todas as profissões, com suas escolhas, autonomia. Sabemos que essa realidade não é a mesma por motivos sociais e econômicos, que faz com que determinadas mulheres sejam reféns de situações infelizes, mas cabe discutir isso: uma realidade social que afeta os sujeitos de maneira cruel. Aí entra essa questão do tema social da literatura para todas as mulheres.

Foto em destaque: Reprodução / Diário do Nordeste

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